608 Filmes por Diogo Almeida – Filme 6: Bancando o Águia (“Sherlock Jr.”, 1924)

Com a notável exceção de Chaplin e Jackie Chan, nunca houve gênio da comédia física como Buster Keaton (1895-1966). Conhecido na imprensa como “o homem que nunca ri”, com o “rosto de cera”, Keaton revolucionou a gag visual no cinema então nascente, pulando do alto de prédios e carros em movimento, sempre com o rosto impassível como um manequim. Enquanto ele permanecia sério, a audiência ria e se assombrava com suas proezas.

Apesar de seu filme mais conhecido ser A General (The General, 1926), talvez a obra que melhor resuma as habilidades de Keaton como comediante de primeira linha é Bancando o Águia, que estrela e dirige (embora haja relatos de que o comediante “Fatty” Arbuckle teria dirigido partes do filme). Em meros 45 minutos, em especial no terço final, Keaton realiza uma antologia brilhante das comédias rápidas de trama simples, que celebrizou nomes como Chaplin, Mack Sennett e os “Keystone Cops” e que tornaram o cinema mudo norte-americano conhecido no mundo.

No filme, Keaton interpreta o projecionista de um pequeno cinema, obcecado por se tornar um detetive. Apaixonado por uma moça (Kathryn McGuire, estrela de comédias de Sennett), ele é acusado por seu rival no amor de furtar um relógio do pai da noiva e tem que provar sua inocência. Como nos bons filmes mudos, a imagem adquire grande potência, a ponto de dispensar quase completamente cartelas de texto para explicar a ação. O melhor trecho é a sequência de metalinguagem no meio do filme. Durante uma sessão de cinema, o projecionista adormece e se imagina entrando (literalmente) no filme que é projetado. A partir daí, Keaton mostra sua melhor forma, ao filmar sequências altamente criativas, como um jogo de bilhar com uma bola explosiva, culminando numa carreira de motocicleta em que o herói, sentado sobre o guidão, atravessa incólume inúmeros perigos.

Assim como outras estrelas do cinema mudo, Keaton nunca se adaptou ao cinema falado e terminou a carreira fazendo pontas em comédias de segunda categoria. Sherlock Jr., A General e dezenas de seus curtas, porém, servem de legado para mostrar o quanto a comédia da era Netflix tem a aprender com o humor mirabolante do primeiro cinema.

 

Os filmes anteriores desta coluna podem ser encontrados aqui.

   Diogo Almeida nasceu em Natal em 1980. Ainda gosta de cinema.

 

Posts relacionados
  • 8 mar 2017
  • 1
No final de fevereiro estreou na Netflix um filme muito especial para quem é brasiliense com mais de 40 anos como eu: Faroeste Caboclo, o...
  • 28 maio 2019
  • 0
Brightburn: O Filho das Trevas — péssimo subtítulo incluído no nome do filme no Brasil – nada mais é do que um distopia do universo...
Sundance
  • 23 jan 2019
  • 0
Sundance 2019. No dia 24 de janeiro, começa o Festival de Sundance – o maior e mais importante festival de cinema independente do mundo. Durante 11 dias,...