Drácula no cinema – Parte 1 – A origem

Drácula é verdadeiramente imortal. Criado por Bram Stoker em 1897, o personagem continua morto-vivo e presente no imaginário moderno. Dezenas de filmes e centenas de livros, desenhos, séries, contos, etc, recontaram a estória do conde mais famoso do mundo. Isto sem falar nas milhares de estórias de vampiros claramente inspiradas ou copiadas de Drácula.

Então o Razão de Aspecto resolveu fazer um retrato histórico do vampiro, por meio dos principais filmes. E, ao acompanhar como retratamos Drácula ao longo do tempo, talvez aprendamos um pouco sobre a história do cinema, e também, do terror dos séculos XX e XXI.

Então prepare as suas estacas, seus crucifixos e não esqueça do alho. Vamos visitar o Conde Drácula não uma, nem duas, mas várias e várias vezes.

Para começar, excepcionalmente, não falaremos de um filme. Para entendermos Drácula, mesmo se for apenas o Drácula cinematográfico, temos que começar da origem. Então, saindo um pouco da temática do site, faremos a crítica do livro de Bram Stoker.

Drácula

Ítalo Calvino uma vez disse que um clássico é um livro que nunca lemos, sempre relemos. Isto é especialmente verdadeiro para Drácula. Mesmo que você nunca tenha sequer pego no livro de Bram Stoker, já conhece os personagens principais, e o centro da estória. É impossível escapar das presas de Drácula. Ele esta presente nos livros, cinemas, televisão, festas de Halloween, etc.

Por fazer parte tão marcante na cultura pop, as vezes esquecemos que Drácula já foi apenas um livro. Um livro que foi mal recebido pela crítica literária à época. Uma crítica do Manchester Guardian de 1897 elogia a capacidade descritiva do autor, mas classifica o resultado final como mais grotesco do que terrível e que seria um erro artístico preencher um volume inteiro com horrores. Um toque de mistério, de terror e de sobrenatural seria infinitamente mais eficiente e verossímel. 

Apesar de não ter uma recepção calorosa pela crítica, Drácula foi um enorme sucesso de público. Durante bom tempo, (e em alguns círculos, até hoje) a estória foi tida como literatura de segunda classe, não comparável aos grandes clássicos. Mas é impossível negar o poder do vampiro em impressionar o imaginário. Drácula se tornou sinônimo de vampiro. O que o livro de Bram Stoker tem que confere tanto poder ao personagem?

O primeiro ponto que ajuda a explicar este fenômeno é a escolha pelo formato de romance epistolar. A narrativa é inteiramente construída por cartas e diários dos personagens, enxertos de jornais e diários náuticos. Este formato era muito popular no final do século XIX. Mas Bram Stoker foi provavelmente o primeiro a usar de um romance epistolar para narrar uma estória sobrenatural.

Esta escolha aumentou e muito a verossimilhança emelhança, o realismo da narrativa. Como temos sempre narradores em primeira pessoa, e usando de um estilo quase jornalístico de escrita, Drácula se assemelha a um registro investigativo sobre o contato com um vampiro.

Outro dos segredos do sucesso foi a extensa pesquisa que Bram Stoker fez sobre o folclore e supertiçoes eslavas, em especial da Transilvânia. Uma de suas principais fontes de pesquisa foi o livro Transylvanian Superstition de Emile Gerard. Ao buscar como inspiração os mitos e lendas históricos, Stoker bebeu das fontes mais puras para construir seu romance.

Muito se fala que o autor teria se baseado na figura histórica de Vlad Tepes, o empalador, para construir o personagem. As coincidências entre o passado de Drácula no livro e a história real de Vlad realmente são inúmeras, mas nunca houve uma confirmação direta de Stoker acerca desta inspiração. Posteriormente, nas recontagens e versões de outros autores, mais e mais de Vlad Tepes foi utilizado, fazendo com que o paralelo entre o empalador e o vampiro seja quase canônico.

Mas não é só o folclore vampírico que marca a extensa pesquisa de Stoker. O autor também demonstra conhecer a última palavra em ciência e tecnologia da época. Temos como parte da narrativa invenções recentíssimas, como a máquina de escrever e o fonógrafo. Temos uma descrição cirurgicamente perfeita de como eram feitas as transfusões de sangue. Colocar a última ciência em contraste com o folclore aumenta o confronto entre o mundo moderno inglês e o passado tétrico eslavo.

Mas todos estes detalhes não funcionariam literariamente sem uma boa escrita. E Bram Stoker sem dúvida demonstra em Drácula ser não apenas um bom pesquisador, mas também um exímio escritor. A sua capacidade descritiva em construir cenários é quase sobrenatural. Os primeiros capítulos, com Jonathan Harker nos contando como foi sua chegada e estadia no Castelo Drácula, são tão ricos em imagens que facilitou e muito o trabalho dos cineastas ao transpor o livro para as telas.

Destaque também para a cena de invasão ao túmulo de Lucy. Terror gótico puro. Ao ler nos sentimos não apenas dentro do sepulcro, mas como um dos personagens, pasmos, revoltados e determinados, apesar do medo.

Temos também que comentar dos personagens, e a complexa relação entre eles. Lucy e Mina são duas mulheres em meio a Inglaterra vitoriana, e acompanhar os amores e relações delas com os personagens masculinos acaba por nos dar um retrato quase perfeito da mulher vitoriana e seu papel na sociedade da época. Infelizmente isto acaba por dar um tom machista a narrativa, se lermos com os olhos de hoje. Mas Mina é claramente uma mulher a frente de seu tempo, sendo a principal heroína da narrativa. Temos que perdoar a idealização da pureza feminina e a divisão social de tarefas, mas se não fosse assim, não seria uma estória realista da época.

Van Helsing é quase tão espetacular quanto Drácula. Não é a toa que ele mereceu se tornar protagonista de seus próprios filmes e seriados. Van Helsing é o tutor de todos os caçadores, e o porta voz do cientista brilhante, capaz de perceber o mundo além de seus pares. Uma mistura de Sherlock Holmes com Dr. Frankenstein (sem o orgulho descabido), Helsing é o estereótipo da razão vencendo e conquistando o indomável, o misterioso.

Mas o principal personagem é o único que não é narrador em nenhum momento. Não temos cartas ou um diário de Drácula. Não conhecemos a voz interna do monstro. E em boa parte da estória, Drácula é quase invisível. Uma ameaça sempre presente no canto de olho, nas sombras. Mas quase nunca no centro do palco.  Isto confere uma poderosa aura de mistério ao monstro. Diferente das narrativas mais modernas de vampiro, o Drácula de Stoker não é hipnótico e sedutor. É um monstro repugnante e ameaçador.

Isto confere ao livro a aura de poder que ainda possui. Stephen King descreveu Drácula como um muro de terror de 400 páginas. Uma excelente metáfora, pois serve até para ilustrar os poucos defeitos do livro.

A narrativa tem seus problemas de ritmo, e por vezes se torna arrastada e cansativa. Há capítulos que pouco ou nada acrescentam a trama. Em parte isto se deve ao realismo epistolar, mas reflete negativamente na narrativa. Como exemplo posso citar o capítulo onde acompanhamos Mina ouvindo e transcrevendo os diários de Dr. Seward, e o médico lendo os diários de Mina.

Há um estilo exageradamente rebuscado nas falas dos personagens, onde quase todos utilizam de pompa e circustância para elogiar e por vezes endeusar os outros personagens. Isto pode até ser típico do cavalheirismo da época, mas desumaniza um tanto as relações.

Há alguns persoanens com muito pouca voz interior, em especial Jonathan Harker e Dr. Seward. Algumas vezes eu me perdia sobre quem era o narrador do momento, mas quando ocorreu foi somente com estes dois personagens. Os demais tinham estilo narrativo bem marcado.

Um escritor moderno exploraria mais a subjetividade dos narradores, e o conflito dos pontos de vista, o que poderia enriquecer a narrativa. Em nenhum momento um narrador contradiz outro ou manifesta uma visão destoante.

E o final é um tanto anticlimático. Se constroí muito bem a tensão sobre o futuro de Mina, mas o conflito final com Drácula merecia mais detalhes e drama. A resolução não causa grande impacto.

Mas estes são detalhes menores. Sendo um livro com 120 anos de idade, escrito em um estilo que já saiu de moda (quem escreve romances epistolares hoje?), Drácula é perfeitamente capaz de capturar a atenção do leitor do século XXI. O poder hipnótico do vampiro continua ativo, e atual.

Na segunda parte deste especial, iremos analisar o filme Nosferatu, de 1922, uma livre adaptação do livro de Stoker. Até onde consegui pesquisar, é o terceiro filme baseado em Drácula. Temos em 1920 Drakula, um filme russo. E em 1921 temos Dracula’s Death, uma adaptação húngara. Ambos os filmes foram perdidos. Então Nosferatu é provavelmente o filme mais antigo baseado em Drácula que o público atual pode ter acesso.

Até o próximo texto, e não largue a sua estaca.

 

Nota do Razão de Aspecto

 

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