Netflixing – Love, Death & Robots – Heavy Metal encontra o Youtube
Posters para "Love, Death & Robots: Suits"

Quem não se lembra da Revista Heavy Metal, que teve seu auge de popularidade na década de 80, com suas histórias em quadrinhos com temáticas com muito sexo, violência, fantasia e ficção científica? Grandes nomes como Bilal, Moebius, Druillet e Liberatore passaram por lá. Deixaram como marca um estilo único de ficção científica, indo bem além dos quadrinhos. Entre outras mídias, a revista Heavy Metal deu origem a dois filmes: Heavy Metal – Universo em fantasia e Heavy Metal 2000. Infelizmente dois filmes um tanto irregulares. Apesar de conseguirem manter a temática da revista, faltou um tanto de cinema. Assim sendo, desde minha adolescência eu tenho sede de ver este universo versão animada, mas feita com esmero.

Para minha surpresa, a Netflix lançou agora, dia 15 de março, algo muito, muito próximo disto. Love, Death & Robots. Este é o nome final do projeto de reboot do filme de 1981, encampado por David Fincher (de Clube da Luta) e Tim Miller (de DeadPool). São 18 episódios de duração e estrutura similares a vídeos do Youtube. Você pode assisti-los de forma descompromissada e até desconcentrada. São histórias curtas, incisivas, e bem, bem adultas. #NSFW.

Os escritores, diretores e animadores mudam de história para história, assim como o estilo, os temas, as técnicas utilizadas. Como ponto em comum temos a ficção científica e a liberdade criativa de falar sobre amor, morte, e robôs. Desta salada de frutas surge uma amálgama final, um espírito em comum. Sexy, violento, perturbador, e libertário, Love, Death & Robots é Sci-Fi ao mesmo tempo da década de 80 e do século XXII.

Segue uma breve resenha de cada episódio, sem spoilers:

A vantagem de Sonnie

Em uma versão cyberpunk de Pokemon com esteróides, o primeiro episódio nos mostra um mundo onde gladiadores se conectam neuralmente a monstruosidades, que se digladiam até a morte (do monstro, não do gladiador). Em um ambiente de testosterona pura, uma combatente feminina se sobressai: Sonnie, uma sobrevivente de um terrível estupro e espancamento, usa de sua raiva para superar seus combatentes. Já são 19 vitórias consecutivas. E ela se recusa a aceitar uma enorme propina para perder seu próximo combate. Mas o empresário que desejava forjar o combate não vai deixar barato.

Dirigido por David Wilson, baseado em um conto de Peter F. Hamilton. A qualidade gráfica da animação 3D é impressionante, e temos um episódio realmente gore (GORE GALORE)com direito a amputações e jorros de sangue. E a violência não é só gráfica, como também narrativa. Estupro, corrupção e uma tortuosa e heróica volta por cima. NOTA: 5 estrelas

Os três robôs

Três robôs passeiam em um mundo pós apocalíptico, tentando redescobrir o estranho e já esquecido mundo dos humanos. Como eles eram? O que faziam? Como se divertiam? Como se alimentavam? Porque deixaram de existir? E o que diabos os gatos tem a ver com isto?

Dirigido por Victor Maldonado e Alfredo Torres, baseado em um conto de John Scalzi. Se não fossem os vários corpos humanos que aparecem na animação, e a total irreverência com que eles são tratados pelos robôs, esta bem que poderia ser uma animação da PIXAR. Ótimo humor, com mensagens ecológicas, antimilitaristas e sobre gatos. Não é o roteiro mais criativo do mundo, mas a fofura irreverente nos leva com leveza para a piada final. É sem dúvida o mais acessível para toda família dos episódios. Nota: 4 estrelas. Diga GIGABYTE!

A testemunha

Aqui temos uma rara combinação de visual cartunesco, similar aos animes como Ghost in the shell com uma animação 3d ultrarrealista nas texturas e  cenários. Junte isto a uma narrativa frenética e nervosa. Acompanhamos uma stripper testemunhar um assassinato a bala, de uma mulher que é exato clone dela mesma. O problema? O assassino a viu, e começa a persegui-la.

Dirigido por Alberto Mielgo, A testemunha é, definitivamente, #NSFW. As cenas no clube clandestino de sexo estão entre as mais explícitas que já vi na Netflix. . O final, com interpretação aberta, pega todos de surpresa e nos faz reinterpretar toda a história. Gostaria de ver mais dos mesmos personagens. Nota: 5 estrelas

Proteção contra alienígenas

A regra universal ainda vale: apenas Michael Bay consegue fazer filmes ruins com robôs gigantes. Aqui acompanhamos uma comunidade de fazendeiros que protegem suas plantações e rebanhos contra bestas alienígenas usando robôs gigantes de combate.

Dirigido por Franck Balson e baseado em um conto de Steven Lewis. Temos aqui gráficos mais juvenis, sem o nível de realismo das animações anteriores. E uma história igualmente juvenil, um pouco clichê do gênero. Mas a simplicidade confere poder narrativo pela economia. Nenhuma cena sobra, os personagens são apresentados com muito pouco, e rapidamente nos inserimos no conflito. Para fãs de Mechs de combate, é uma animação 5 estrelas. Para os demais, vale uma sólida Nota: 4 estrelas. E haja munição!

Sugador de almas

Eu sou um gatólatra. Por isto não tem como não deixar de amar esta história. Violenta desde o início, e frenética na ação, mas com um humor que pode incomodar alguns por ser non sense demais.

Dirigido por Owen Sullivan e baseado em um conto de Kirsten Cross, Sugador de Almas apresenta um Drácula bem diferente do padrão, e faz um ótimo uso das cores, em especial do vermelho. O som também merece destaque, nos sentimos realmente dentro de uma masmorra. Quase perfeito, apenas um pouco de humor demais. Nota: 4 estrelas e uma pata de gato.

Quando o iogurte assumiu o controle

Se no episódio anterior o non sense é um pouco destoante, aqui o absurdo é a alma do negócio. Imagine o que aconteceria se de repente o iogurte da sua geladeira se torna-se inteligente? Mais inteligente do que nós?

Dirigido por Victor Maldonado e Alfredo Torres, baseado em uma alucinação de John Scalzi. Temos aqui uma mistura de PIXAR com alucinógenos. Foi o episódio que me levou as gargalhadas. E a temer a engenharia genética. Nota: 5 estrelas. Com gengibre e mel.

Para além da Fenda de Áquila

Voltamos as animações ultra-realistas, com gráficos tão próximos de um live-action que chega a ser perturbador. E perturbadora também é a estória.

Dirigido por Léon Bérelle, Dominique Boidin, Rémi Kozyra e Maxime Luère, baseado em um conto de Alastair Reynolds, Para além da Fenda de Áquila nos mostra uma tripulação que estava em uma viagem com animação suspensa, e acorda em uma base espacial completamente fora de sua rota. Para aumentar o estranho, o capitão reencontra, inexplicavelmente, um antigo amor. A anos-luz de distância de onde seria logicamente possível. É uma história sombria, com tons lovecraftianos. Soberbo. Nota: 5 estrelas.

Boa caçada

 

E claro que tem que ter um episódio steampunk. Mas misturado com folclore chinês, e uma pegada Ghost in the Shell. Liang, um filho de um caçador de espíritos, acaba por ter um relacionamento por uma de suas presas, uma garota-raposa Yan. Mas o avanço tecnológico e a chegada do imperialismo inglês parece estar tirando os poderes da metamorfa.

Dirigido por Oliver Thomas e baseado em um conto de Ken Liu, temos aqui uma bela fábula de fantasia/sci-fi, e, assim como em A vantagem de Sonnie, uma história de violência contra mulher e uma volta por cima, ainda que incompleta. A mais bela estória da antologia, talvez o melhor episódio. Nota: 5 estrelas.

O lixão

Um desagradável agente imobiliário ganha a desagradável  missão de despejar Ugly Dave, um desagradável velhinho que vive em um desagradável lixão.  Não esqueçamos de Ollie, o animal de estimação de Ugly Dave.

Dirigido por Javier Recio Gracia, baseado em um conto de Joe Landsdale, O lixão é uma animação 3d primorosa onde tudo é hiláriamente desgradável. E sujo. E gosmento. Nota: 4 estrelas bem fedorentas.

Metamorfos

O exército americano usa lobisomens em meio a tropa durante a invasão do Afeganistão. Extrema violência e muita ação nas cenas de combate.

Dirigido por Gabriele Pennacchioli, baseado em um conto de Marko Kloss, temos aqui mais uma animação 3d ultrarealista, que novamente nos leva a questionar que daqui a pouco atores serão desnecessários. A história é seca como um soco, feita para atingir a platéia em uma única pancada. As cenas de ação funcionam e muito, mas falta um pouco de drama e monstruosidade nos lobisomens. Poderia serbem melhor com uma pitada a mais de terror. Nota: 3 estrelas e um uivo.

Ajudinha

127 horas encontra Gravidade. Uma astronauta tem de fazer um passeio extra-veicular para fazer a manutenção em um satélite, mas é atingida por um destroço espacial (um parafuso solto) e tem seu traje danificado.

Dirigido por John Yeo e baseado em um conto de Claudine Griggs, esta belíssima animação é a mais intimista da série, onde quase todo o enredo acontece na mais absoluta solidão. O roteiro transmite muito bem a hostilidade que é o ambiente espacial, e o sacrifício final é mais que convincente. Nota: 5 estrelas e uma mãozinha.

Noite de pescaria

Pai e filho se vêem obrigados a passar a noite em meio a uma rodovia no deserto, pois o radiador do carro estourou. E em meio a noite, descobrem que os fantasmas dos peixes que habitavam o antigo oceano, agora deserto, assombram o local.

Dirigido por Damian Nenow e baseado em um conto de John Landsdale. Em um estilo de fantasia que lembra estórias do Neil Gaiman, em seus momentos mais sombrios, esta fábula familiar sobre delírio, fantasia e juventude é o episódio mais poético de todos. A mistura de animação 2D com 3D e o ótimo uso de cores, em especial o contraste entre azul e vermelho, dão um tom onírico de sonho e pesadelo. Nota: 5 estrelas submersas.

13, número da sorte

Uma piloto novata é obrigada a pilotar uma antiga nave, com fama de trazer má sorte. Mas a nave e a piloto ainda irão mostrar seu verdadeiro valor.

Dirigido por Jerome Chen, e baseado em um conto de Markoo Kloss, aqui temos a melhor interpretação da temporada. A tenente Colby tem um arco dramático completo, e bastante envolvente. Diferente dos outros episódios, a estrutura narrativa não se apoia em um plot twist final. A reviravolta é gradual, ao longo de toda narrativa, sem um ponto de ruptura. Então é o episódio menos surpreendente de todos. Mas a qualidade gráfica, as boas cenas de ação e a ótima personagem conquistam o público. Perfeito para fans de estórias militares. Nota: 4 estrelas e algumas explosões.

Zima Blue

Um artista de fama extraplanetária convida uma jornalista para que ela faça a cobertura de sua obra definitiva. E ao descobrir o sentido artístico máximo, o artista encontra a si mesmo.

Dirigido por Robert Valley, baseado em um conto de Alastair Reynolds. Aqui temos uma história zen-budista. Um artista encontrando sua iluminação. Mas é uma estória que fala de Amor, Morte e Robôs. Não de arte.Gráficos belíssimos, com uma predominância clara do azul. Um final surpreendentemente filosófico e totalmente inesperado. Nota: 5 estrelas.

Ponto Cego

Uma gangue de andróides tenta roubar um microchip que está sendo transportado por um caminhão repleto de defesas automatizadas. É tiro, porrada e bomba para todo lado.

Dirigido por Vitaliy Shushko, este episódio é o oposto do anterior. Sai o zen, entra a ação pura e simples. Bom uso de estereótipos, visual cartunesco e história tensa. Mas é apenas uma caçada a um Macguffin das mais simples, e a reviravolta final não surpreende ninguém. O menos inspirado dos episódios. Nota: 3 estrelas.

Era do gelo

Único episódio com cenas live action. Um casal que acaba de se mudar para um apartamento onde há uma geladeira de modelo para lá de antiquado acaba por descobrir um mamute miniatura congelado em um de seus cubos de gelo. Um mamute morto por minúsculas lanças. Quem não gostaria de acompanhar uma civilização evoluir da idade da pedra até a era espacial durante uma tarde? E isto tudo dentro de seu congelador?

Dirigido por Tim Miller, baseado em um conto de Michael Swanwick. Estória completamente sessão da tarde, mas encantadora. Saímos mais que sorridentes da agradável bobagem. Os efeitos especiais são bem convincentes, e as atuações agradáveis. A maior estranheza foi ficar alguns segundos em dúvida se era mais uma animação absurdamente realista. Medianamente ótimo. Nota: 4 estrelas.

Histórias alternativas

O que você faria se pudesse voltar no tempo e alterar um único fato histórico? A resposta mais clichê seria matar Hitler antes dele se tornar ditador. E que tal fazer isto de 6 formas diferentes? Com uma dose de humor Monty Python?

Dirigido por Victor Maldonado e Alfredo Torres, baseado em um conto de John Scalzi. Segundo momento WTFQ da série. Mas diferente do iogurte, aqui o humor é um tanto mais negro. Sem exageros, no entanto. Fazer piada com Hitler é um terreno pantanoso, mas a animação se sai muito bem. A escolha pela animação menos realista ajuda a lidar com a estranheza do tema. Nota: 4 estrelas para seis Hitlers.

A guerra secreta

Os nazistas não foram o único problema para o Exército Vermelho na Segunda Guerra. No mais inóspito inverno siberiano, eles tem de enfrentar um adversário ainda mais monstruoso.

Dirigido por István Zorkóczy, e baseado em um conto de David W. Amendola. Eles deixaram o melhor para o final. Mais uma animação 3d ultrarealista, ficamos mais uma vez de queijo caído com quão humanos estão os personagens animados. E os pelos dos agasalhos. E a água, o gelo, a paisagem. E os monstros. As cenas de combate são épicas, demonstrando um verdadeiro heroísmo dos soldados, mas sem ufanismo ou dramalhão. A origem dos monstros é muito bem contada, sem interromper a tensão em um breve e horrendo flashback. É o episódio que mais lembra a estética de videogames, em uma escala verdadeiramente épica. Nota: 5 estrelas vermelhas.

 

Nota do Razão de Aspecto

 

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