608 Filmes por Diogo Almeida – Filme 5: Moolaadé (2004)

Infelizmente, a oportunidade de assistir a filmes produzidos no continente africano é rara no Brasil. Tirando um punhado de títulos distribuídos anualmente no circuito de arte (Comboio de Sal e Açúcar, de Moçambique, e A Amante, da Tunísia, são exemplos recentes) e mostras pontuais, é quase impossível encontrar filmes do continente em cartaz por aqui. É uma grande lacuna: seria importante se familiarizar com a carreira do cinema africano e seus maiores cineastas, como o angolano Zezé Gamboa (O Herói, 2004), o egípcio Youssef Chahine (Estação Central de Cairo, 1958) e aquele conhecido como “o pai do cinema africano”, o senegalês Ousmane Sembene (1923-2007).

Moolaadé (2004) foi o último filme dirigido por Sembene antes de falecer, uma obra feita com maturidade de mestre e leveza de artista. Ambientado numa pequena vila do interior, a história envolve Collé (Fatoumata Colibaly, cativante), que oferece proteção a um grupo de meninas para impedir que estas passem pelo ritual de mutilação genital, tradicional em alguns países muçulmanos. O ato de coragem de Collé – ela própria mãe da jovem Amasatou (Salimata Traoré), que vive com o estigma de ser uma “bilakoro”, uma mulher que não passou pelo ritual e seria, portanto, “impura” -, desencadeará uma verdadeira revolução na vila e despertará ressentimentos do passado.

Como fica claro pela sinopse, o filme tem uma leitura de gênero, mantendo-se longe de binarismos. Afinal, apesar do patriarcado muçulmano que domina a vila, são mulheres que coordenam o ritual da mutilação, e muitas delas se opõem ao ato de Collé, que veem um desafio à “purificação” das filhas, o que, por sua vez, garantiria um bom casamento. Em meio aos conflitos desencadeados no ambiente doméstico e em público pela atitude de Collé, as outras mulheres da vila começam a questionar seu papel diante dos maridos.

Mas também há outras leituras em jogo. É muito presente a reflexão sobre a influência ocidental, por exemplo, com os homens do lugar decretando o fim do uso de rádios pelas mulheres, e o choque entre as idéias modernas do filho do chefe da vila, recém-retornado da França, e as restritas regras impostas pela assembleia de sábios. O tema já estava presente no primeiro longa do diretor, o belo La noire de… (1966), e é muito caro ao cinema africano, nascido em meio às questões identitárias que acompanharam o processo de independências dos países do continente nos anos 1950 e 1960.

Os filmes anteriores desta coluna podem ser encontrados aqui.

   Diogo Almeida nasceu em Natal em 1980. Ainda gosta de cinema.

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