608 filmes por Diogo Almeida – Filme 4: Carrie, a estranha (1976)

 

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Em nome do pai, do filho…

Há diretores de cinema que são mestres em usar metáforas sutis para transmitir a emoção desejada em seus filmes. Em cada cena, eles conseguem transmitir grande número de símbolos à plateia, fazendo uso da caixa de ferramentas de que dispõe o artista cinematográfico: planos, movimentos de câmera, som, edição, alguma nuança na “performance” dos atores, algum detalhe na cenografia, uma pista aqui, outra acolá. Há diretores de cinema, enfim, que são mestres em persuasão ao mesmo tempo que escondem sua arte do espectador mais atento. Brian De Palma não é um desses diretores.

“Carrie” foi realizado dezesseis anos após De Palma filmar seu primeiro curta, “Icarus” (1960). O diretor já tinha quilometragem, portanto, quando adaptou o romance de Stephen King, então um escritor estreante. Há domínio da técnica em “Carrie”, um ensaio do estilo maneirista que tornaria De Palma um “diretor fetiche” ao longo dos anos 80, com resultados que variam loucamente do plágio ruim de Hitchcock (“Dublê de Corpo”, 1984, um clássico trash do “Supercine”), a pérolas do cinemão americano, como “Vestida para Matar” (1980), “Scarface” (1983), e “Os Intocáveis” (1987).

Quando De Palma quer chamar a atenção para o “bullying” que sofre a pobre Carrie, interpretada por Sissy Spacek (muito boa no papel), ele usa uma música lacrimosa de novelão de TV. Quando mostra a perversidade da mãe repressora de Carrie (vivida por Piper Laurie, deliciosamente canastrona), ecoam os acordes da música-tema de “Psicose”, filme que De Palma parece querer evocar a todo momento como se estivesse numa sessão espírita. Nada é sugerido em “Carrie”: tudo é mostrado.

A única cena que parece talhada para um grande filme é a mais icônica, a vingança de Carrie no baile de formatura. Somente aí, De Palma mostra sua verve de autor, com telas paralelas, uma novidade na época. Mais aí já passou uma hora de filme, e os sentidos do espectador (e deste crítico) já se encontram anestesiados por tanto espalhafato. De Palma talvez seja a melhor encarnação do estilo “sem medo de ser feliz” desde John Waters. Tudo é excesso em seus filmes, tudo chama a atenção para seu estilo de filmar. “Carrie” acaba sendo um ensaio divertido de filme de terror, mas longe de merecer figurar nesta lista.

 

   Diogo Almeida nasceu em Natal em 1980. Ainda gosta de cinema.

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