608 Filmes por Diogo Almeida – Filme 3: Esposas Ingênuas (1922)

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Para mim, aquele sujeito esquisito de monóculo, cabelo raspado à militar e com jeitão de chefe de final de fase não passava de um character actor, destinado a fazer tipos arrogantes como em Crepúsculo dos Deuses (1950) e A Grande Ilusão (1937). Só depois soube que Erich von Stroheim (1885-1957) foi um dos mais maiores (e mais polêmicos) diretores do cinema mudo, capaz de torrar milhões de dólares em excentricidades. E só agora inventei de ver um dos filmes que dirigiu.

Hoje meio esquecido, von Stroheim foi um dos rostos mais reconhecíveis da “Era de Ouro” hollywoodiana. Nascido em Viena, seu perfil e modos aristocráticos logo o tornaram um ator calcado para papéis de vilão alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Logo, porém, migrou para a cadeira de diretor: ficou conhecido por realizar produções luxuosas e excessivamente detalhistas, como o lendário Ouro e Cobiça (“Greed”, 1924), quando quase matou sua equipe ao filmar por semanas no deserto do Mojave. Acabou com um filme de 7 horas de duração, retalhado posteriormente pelo estúdio para uma versão com um terço da metragem.

Em Esposas Ingênuas, von Stroheim escreve, dirige e atua numa espécie de “alta comédia”. Três vigaristas se passam por nobres russos em Monte Carlo, tentando passar a perna num casal americano. O orçamento teria estourado cinco vezes seu valor original, e cada centavo aparece na tela: nos “sets” que reproduzem a capital de Mônaco, seus cassinos e suas luxuosas mansões.

Ressalte-se a habilidade natural que von Stroheim tinha com a câmera. A decupagem das cenas está à frente do seu tempo, com a sucessão de planos médios e closes narrando eficientemente a história com pouca necessidade de cartelas. O roteiro é enxuto, apesar da duração (2h20). Infelizmente, com a exceção do personagem central, o resto do elenco é de personagens caricatos e menos brilhantes que seu protagonista. Fica a dúvida se o filme seguraria o público caso tivesse a extensão desejada por seu diretor: entre seis e dez (!) horas.

Von Stroheim era megalomaníaco ou visionário? Fico com a segunda opção.

 

O colunista convidado:

   Diogo Almeida nasceu em Natal em 1980. Ainda gosta de cinema.

 

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