608 filmes por Diogo Almeida – Filme 2: O Tango de Satã

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Desvelado em exaustivas sete horas e trinta minutos, denso e arrastado, O Tango de Satã (Sátántangó, 1994) deve ser uma grande experiência para assistir no cinema. Vi-o durante três ou quatro dias, no sofá de casa. Suas imagens ecoam em minha cabeça. O diretor húngaro Béla Tarr habita uma dimensão imagética muito própria, como Kubrick e Tarkovski. Menos um diretor narrativo que visionário, seus poucos e longuíssimos planos-sequência parecem usar a história adaptada do livro homônimo de László Krasznahorkai (que assina o roteiro com Tarr) como desculpa para construir um filme que grita CINEMA em letras maiúsculas. Seus planos arrojados, que “cortam” dentro da cena (a câmera se aproxima para o close-up, afasta-se para um plano de paisagem, roda num dolly em torno dos personagens, etc.), fazem extenso uso de 100 anos do vocabulário cinematográfico, sem concessões para planos-detalhe ou o esquema cansado do plano-contraplano do cinema industrial. Seu visual barroco, monocromático, automaticamente confere à história uma verossimilhança que provavelmente, caso filmada de modo convencional, ela não teria. Tarr transforma a câmera num bisturi preciso, que extirpa o que necessita da realidade para conferir à cena o máximo de sensibilidade. É lindo ver um mestre em ação. A trama serve como o fio que une estas sequências de imagens preciosas. Os habitantes de um pobre vilarejo na Hungria são ludibriados por um ex-residente que retorna após algum tempo no exílio. A história parece ser uma metáfora críptica sobre o fim do comunismo na Hungria e a resultante desagregação dos laços comunais e familiares no país. Os atores encarnam muito bem os personagens, por mais vagos que estes sejam. Mas não veja Sátántangó esperando uma história cativante, com personagens com os quais possa se identificar. Veja pela sequência do tango na taverna, pelo discurso de Irimias, pela entrada dos habitantes do vilarejo num casarão dilapidado que pode ser um símbolo da Hungria pós-comunista, o paraíso ou o inferno. Ou pelo som de sinos invisíveis. Sobretudo, assista pelas imagens. Um dia, elas salvarão o mundo.

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