Especial: a saga do Rei Arthur no cinema e na TV – parte III

Esta é a terceira parte do especial do Razão de Aspecto sobre o Rei Arthur no cinema e na TV.  A primeira parte você encontra aqui e a segunda aqui.

Nenhum filme depois de Excalibur pareceu ter atingido sua profundidade, mas as adaptações seguiram acontecendo. Em 1982, a ópera Parsifal foi registrada em vídeo pelo cineasta alemão Hans-Jürgen Syberberg. Em 1984, o diretor Stephen Weeks conduziria A espada do valente, refilmagem de uma outra tentativa de adaptação anterior, Gawain and the Green Knight, de 1973. O filme se concentra em um dos contos das lendas, originado de um poema do século XIV, e vale quase que exclusivamente para ver Sean Connery cheio de purpurina verde (sim, isso mesmo). Em 1994, Sheryl Lee (a eterna Laura Palmer de Twin Peaks), estrelaria o telefilme Guinevere: a rainha de Excalibur. Narrado do ponto de vista da personagem-título, o filme traz Sean Patrick Flanery (de O Jovem Indiana Jones) como o Rei Arthur e Noah Wyle (da série-de-filmes-que-virou-série The Librarian). Só para aficionados pela lenda.

Quando Lancelot: o primeiro cavaleiro (1995) foi anunciado, havia a expectativa de que a as adaptações da lenda arturiana ganhariam mais um representante de alto nível. Sean Connery no papel de Arthur, Richard Gere como Lancelot e Julia Ormond como Guinevere eram certamente sinônimo de produção bem cuidada. O diretor, Jerry Zucker, era especialista em comédia besteirol, mas ali era um romance de aventura, com a Columbia Pictures por trás. Havia de dar certo… mas não deu…  Ademais de desvirtuar a origem e o arco de seu personagem principal, o tratamento visual do filme mostrou uma Camelot que mais parecia um enfeite de bolo (“It´s a silly place!“), cavaleiros com uniformes quase Star Trek e até uma cena praticamente retirada das Olimpíadas do Faustão.

Em 1998, a animação A Espada Mágica: a Lenda de Camelot, da Warner, contava a história da jovem Kayley, filha de um cavaleiro da Távola Redonda morto ao proteger o Rei Arthur contra um atentado. Ela precisa encontrar Excalibur, perdida na Floresta Proibida, para salvar Camelot. Indicado ao Oscar de Melhor Canção, o filme uma vez mais utilizou-se da lenda artesiana apenas como panorama de fundo para contar uma história sem relação com as fontes originais. A grande impressão deixada na época – uma fase pré-Pixar – foi a de que a Disney ainda mantinha o monopólio das animações interessantes.

Também em 1998, a minissérie Merlin foi exibida pela NBC, estrelando Sam Neil no papel principal. Com efeitos especiais interessantes para a época mas bastante datados hoje em dia, a obra afasta-se das tramas clássicas, carrega na magia na e fantasia, e inclui personagens de outras lendas britânicas, como a rainha das fadas, Mab (estrelada histrionicamente por Miranda Richardson). O elenco, aliás, compensa, e reúne também Helena Bonham Carter (Morgana), Rutger Hauer (Rei Vortigern), Isabella Rosselini (Nimue), James Earl Jones (Rei da Montanha), Martin Short (Frik) e até uma jovem Lena Headey (Guinevere), a Cersei Lannister de Game of Thrones, fazendo papel de rainha do bem desta vez. A série teve uma continuação, O aprendiz de Merlin, em 2006.

Já neste século, a série de livros As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, enorme sucesso de público, ganhou sua adaptação para a TV em uma minissérie em 2001. Assim como no livro, a lenda é contada do ponto de vista das personagens femininas da história, em especial por Morgaine (a Good Wife Julianne Margulies). Os grandes nomes estão no elenco feminino, com Angelica Houston (Viviane), Joan Allen (Morgause) e Samantha Mathis (Gwenwyfar). Michael Vartan, o George Heldens de Motel Bates e Alias, interpreta Lancelot e Edward Atterton interpreta Arthur. Independente da fidedignidade apenas parcial aos livros de Bradley, o mais interessante na série, ademais da perspectiva feminina finalmente bem desenvolvida, é a tensão entre a velha religião celta, representada pelas sacerdotisas de Avalon e o cristianismo, personificado na figura de Gwenwyfar/Guinevere.

Em 2004, Rei Arthur prometia trazer uma versão mais próxima do Arthur histórico, como uma espécie de antítese de Excalibur, e na mesma linha da série de TV de 1972. Essa pretensão de acuidade histórica acaba, entretanto, bem rápido. Embora, de fato, adote uma narrativa mais realista e focada em conflitos ocorridos no momento da retirada de Roma da Bretanha, o filme escolhe justamente os cavaleiros mais óbvios (incluindo Lancelot, que foi incorporado às lendas vários séculos depois) para compor o grupo de elite de Arthur. Traz uma Távola Redonda que tem poucas raízes históricas, assim como toma liberdades com vestimentas e armamento da época. O diretor Antony Fuqua vinha credenciado pelo bom O dia de treinamento, e o elenco era muito de primeira linha, com Clive Owen no papel principal, Ioan Gruffudd (Lancelot), Mads Mikkelsen (Tristan), Joel Edgerton (Gawain), Hugh Dancy (Galahad), Ray Winstone (Bors), Keira Knightley (Guinevere), Stephen “Stannis Barahteon” Dillane (Merlin) e Stellan Skarsgård (como líder saxão invasor, Cerdic).  O resultado final é um filme de razoável a bom, se for esquecida completamente sua relação com a lenda arturiana.

O especial sobre o Rei Arthur no cinema se aproxima do fim… continue na próxima parte. Amanhã no Razão!

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