Especial: a saga do Rei Arthur no cinema e na TV – parte II

Esta é a segunda parte do especial sobre o Rei Arthur no cinema. A primeira parte você encontra aqui.

Na década de 1970, as abordagens mais clássicas e aventurescas das lendas arturianas – com cavaleiros em armaduras brilhantes – ganharam a companhia de releituras que traziam novas propostas. Em 1972, a HTV inglesa lançaria Arthur dos Bretões, na qual era retirada boa parte do verniz do baixo medievo e do Romantismo sobre a lenda.  Aqui, Arthur não é um rei glamuroso em uma rica e pacífica corte;  não há Camelot, Merlin ou triângulo amoroso:  ele é um líder celta de grande proeza bélica, que procura manter uma paz delicada com os saxões, em um período em que resta uma nostalgia da grande Roma. Até então, jamais a lenda havia sido transposta dos livros para as telas com um viés de aproximação histórica (dentro do possível) tão evidente.

Lancelot seria objeto de atenção de Robert Bresson, um dos maiores cineastas franceses de todos os tempos, em 1974, com seu Lancelot du Lac. Novamente a base principal da história é são os poemas de Chrétien de Troyes e o ciclo de busca do Santo Graal. Bresson reduz drasticamente a ênfase em elementos fantásticos, e, ao contrário de adaptações anteriores, mostra uma Idade Média cinza e violenta. A opção de um cineasta francês pelo foco em Lancelot faz todo o sentido, uma vez que a mitologia do personagem é muito mais cristã-continental do que originalmente celto-bretã.

Em 1975, o grupo humorístico inglês Monty Python lançaria o que é, provavelmente, o melhor filme a respeito dos cavaleiros da Távola Redonda – em especial se você estiver preparado para o nível de nonsense do grupo: Monty Python em Busca do Cálice Sagrado traz mais cenas icônicas e hilárias do que se poderia aqui mencionar.  O duelo entre Arthur e o Cavaleiro Negro, os Cavaleiros que dizem Ní e o uso da Santa Granada de Mão da Antióquia são apenas três sequências inesquecíveis do filme. O filme seria adaptado para os palcos 30 anos depois, no musical Spamalot.

Duas séries para a TV, ambas de 1979, encerram os destaques daquela década: a BBC inglesa produziu A Lenda do Rei Arthur, em oito episódios. Embora mantivesse o cenário da Idade das Trevas, a trama reaproximava-se da abordagem clássica, mais baseada na mais difundida fonte das lendas, o romance Le morte d´Arthur, de Thomas Mallory, escrito no século XV. Enquanto isso, a produtora japonesa Toei Animation  lançava o desenho Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda – exibidos no Brasil pelo SBT na década de 1980. Embora incluísse personagens e tramas não existentes nas versões ocidentais, os 30 episódios do desenho marcaram a geração que o assistiu.

Surge então a figura de John Boorman. Interessado em adaptar “O Senhor dos Anéis” para o cinema, o cineasta inglês esbarraria em obstáculos de custos e de direitos autorais. Com isso, passou a se dedicar ao estudo da obra de Mallory, e dedicou seus esforços para a produção e direção de Excalibur, de 1981. O roteiro, coescrito por Boorman e Rospo Pallenberg, ousa ao tentar abarcar toda a saga, desde a luxúria de Uther, pai de Arthur, por sua mãe, Igraine, até a a batalha final contra Mordred e a destinação final de Excalibur. Repleto de simbolismos e alegorias sobre o ciclo de nascimento, vida, decadência e esperança milenarista, é possivelmente a única adaptação da lenda que opta por uma narrativa de teor mitológico, e não aventuresco. Talvez por isso o filme seja estranho para alguns, porque muito é explicado por símbolos e cenas icônicas, e não de forma cartesiana. O filme consegue condensar em pouco mais de 130 minutos praticamente toda a temática das lendas arturianas, mesmo que para isso precise eliminar ou fundir personagens e subtramas. Ao contrário de muitas outras adaptações da lenda, aqui transparece que os realizadores conheciam o significado do material original, não apenas os fatos neles descritos. Excalibur traz, de brinde, Helen Mirren (Morgana) e Nicol Williamsom (Merlin) – atores que não se davam bem – em interpretações marcantes, além de Gabriel Byrne, Liam Neeson e Ciarán Hinds em seus papéis de estreia no cinema. A Nigel Terry coube o papel de viver Arthur da adolescência até a velhice. Na trilha sonora, Richard Wagner e Carl Off (numa época em que Carmina Burana ainda não estava esgarçada de tanto uso). Se você tiver de ver apenas um filme sobre a lenda arturiana na vida, é este.

 

O especial do Rei Arthur no Razão continua aqui.

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