A Bailarina tem uma proposta toda errada, nociva até….

Gênero: Animação

Direção: Eric Summer, Éric Warin
Roteiro: Carol Noble, Eric Summer, Laurent Zeitoun
Elenco: Carly Rae Jepsen, Dane DeHaan, Elle Fanning, Maddie Ziegler
Produção: André Rouleau, Laurent Zeitoun, Nicolas Duval Adassovsky, Valérie d’Auteuil, Yann Zenou
Fotografia: Jericca Cleland
Trilha Sonora: Klaus Badelt
Ano: 2016
País: Canadá / França
Cor: Colorido
Estreia: 26/01/2017 (Brasil)
Distribuidora: Paris Filmes
Estúdio: Caramel Film / Main Journey / Quad Productions
Sinopse: Uma menina órfã deseja abandonar a vida que tinha, fugindo para Paris em busca do sonho de se tornar uma grande bailarina. Mas para conseguir seu objetivo, ela assume a identidade de outra pessoa e acaba conseguindo uma vaga no Grand Opera.
Nota do Razão de Aspecto:

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A Bailarina é uma das animações mais erradas que eu já vi. Os problemas aqui são de duas naturezas: a mensagem que o filme passa e a estrutura narrativa. Ano passado nós tivemos Norm e os Invencíveis e Cantando de Galo que por motivos diferentes um do outro são desastrosos. Se por exemplo no Cantando de Galo tínhamos uma exaltação à rinha de galo como algo positivo (que poderia ser ponderado graças à questão cultural), em A Bailarina vemos algo parecido – atitudes reprováveis sendo glorificadas – com o agravante de que aqui elas são mais universais. 
O que até os primeiros minutos vinha sendo só uma história bobinha – palatável para um público infantil – transforma-se em uma série de lições muito duvidosas. Não sou o cara mais politicamente correto do mundo, mas como alguém passou esse roteiro? Eu jamais levaria uma criança para ver tamanha atrocidade. 

Félicie, uma órfã que foge do orfanato, na ânsia de conquistar o sonho de ser bailarina mente para a mulher que a acolheu na cidade grande (Paris), rouba a identidade de outra menina, trapaceia para ser aluna da principal academia de dança e prestes a fazer um grande número, ela decide não treinar para sair com um pretendente. O pior: todas essas atitudes são recompensadas e abrandadas pelos outros personagens. Ou seja, não importava o que ela fizesse de errado sempre alguém passaria a mão na cabeça dela. Tudo “justificado” por ela ter “paixão” pelo balé. 

Não me entendam mal: eu adoro protagonistas imperfeitas. O conceito de princesas irretocáveis já está há tempos anacrônico. Em Zootopia, uma das grandes animações do ano passado, vemos atitudes que não são as mais corretas. Aqui, contudo, parece que quase todos os atos de Félicie têm uma perna no mundo do “crime”. Lições de moral fácies também estão, ou deveriam estar, em desuso, mas em A Bailarina a redenção da personagem é completa simplesmente porque sim. Ela não parece ter aprendido, e ensinado, coisa alguma….

O jeito que o filme usa para tentar gerar empatia no público é, além da personagem ser órfã, fazer com que as outras a menosprezem “você não é nada” é dito algumas vezes. E o combo de erros na mensagem é travestido de realizar o sonho e de que tudo é possível… Com certeza muitos sairão de A Bailarina achando a coisa toda bonita e revigorante…

Se essas questões não bastam, vamos ao outro problema: as questões estruturais de roteiro. Logo na cena inicial, a protagonista Félicie está escalando um teto e diz “devagar, devagar”, o filme poderia ter seguido este conselho. Tudo é muito acelerado e mal desenvolvido. A personagem e o escudeiro Victor, vivem em um orfanato. Tal arco dura alguns poucos minutos e mesmo naquele pouco tempo vemos problemas de montagem.

O longa de 1h29 tem muitos personagens que entram e saem da narrativa sem muito sentido. Todos que aparecem se apresentam causando uma confusão de nomes na cabeça do público. A consequência é falta de aprofundamento e a sensação de arcos sobrando. As subtramas presentes vão desde a já falada fuga do orfanato, passando pela verve inventiva de Victor, o passado misterioso de uma faxineira que é ex-bailarina, o treinamento pesado de uma bailarina que só está lá para agradar a mãe obsessiva, a competição entre as aspirantes a uma vaga no musical, um russo afetadíssimo que é o astro bonitão, friendzone, luta de classes, entre outros… sim tem mais…
Essa escolha, de falar de tantos assuntos, resulta em uma má distribuição ao longo daqueles quase 90 minutos. Já falei da aceleradíssima cena inicial – poderia desenvolver mais os possíveis maus tratos naquele orfanato. A apresentação final também é inexplicavelmente encurtada. O grande momento, que teoricamente o filme todo lutou para culminar ali, tem poucos segundos. Há cenas de sonhos literais para dialogar com o sonho de ser bailarina. Eles poderiam ser cortados ou reduzidos a uma cena. 

A trilha sonora é bem pop, com a intenção de dar uma dinâmica ao filme e gerar uma identificação com o público. Contudo a história se passa em meados do século XIX e tem como peça central o Quebra Nozes. Ou seja, nem a lustrosa arte – principalmente do interior da academia – ou o contexto da construção da Torre Eiffel salva A Bailarina de ser uma obra completamente torta.

Tal qual Dominação foi o primeiro filme de terror do ano e já se candidata ao pior do gênero em 2017, A Bailarina foi a segunda animação e também entra na competição dos piores… A primeira este ano, Moana, também lida com buscar os próprios sonhos, mas a comparação entre as duas deixa as coisas ainda mais feias para A Bailarina….

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