Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016) – Crítica

Eu, Daniel Blake é sensível, humano, crítico e justifica a Palma de Ouro em Cannes.

Gênero: Drama

Direção: Ken Loach
Roteiro: Paul Laverty
Elenco: Briana Shann, Bryn Jones, Colin Coombs, Dave Johns, Dylan McKiernan, Harriet Ghost, Hayley Squires, John Sumner, Mick Laffey, Micky McGregor, Natalie Ann Jamieson, Rob Kirtley, Sharon Percy, Viktoria Kay
Produção: Rebecca O’Brien
Fotografia: Robbie Ryan
Montador: Jonathan Morris
Trilha Sonora: George Fenton
Duração: 100 min.
Ano: 2016
País: Reino Unido
Cor: Colorido
Estreia: 05/01/2017 (Brasil)
Estúdio: BBC / British Film Institute (BFI) / Sixteen Films / Why Not Productions / Wild Bunch
Classificação: 12 anos
Sinopse: Após sofrer um ataque cardíaco e ser desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho, Daniel Blake (Dave Johns) busca receber os benefícios concedidos pelo governo a todos que estão nesta situação. Entretanto, ele esbarra na extrema burocracia instalada pelo governo, amplificada pelo fato dele ser um analfabeto digital. Numa de suas várias idas a departamentos governamentais, ele conhece Katie (Hayley Squires), a mãe solteira de duas crianças, que se mudou recentemente para a cidade e também não possui condições financeiras para se manter. Após defendê-la, Daniel se aproxima de Katie e passa a ajudá-la.
Nota do Razão de Aspecto:

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Você já dependeu de algum serviço público e não teve bom resultado? Alguma operadora te colocou horas no call center ouvindo aquela musiquinha irritante? Presenciou injustiças e, por mais que você se indignasse, pouco poderia fazer? Já teve que passar por algo sem sentido, apenas porque a burocracia assim ordenava? Acredito que você dirá sim para algumas (ou todas) essas questões. Pois bem, então provavelmente terá empatia pelo simpático senhor protagonista de Eu, Daniel Blake.
Apesar de localizado no Reino Unido, a história poderia tranquilamente ser brasileira. Mesmo com alguma peculiaridade das situações lá vividas, nós nos relacionamos com a situação de forma bem íntima. O peso do Estado criando regras estapafúrdias e afastando as pessoas de produzirem e se realizarem como cidadãs é posto em tela de maneira crua e sensível. E não há truques baratos para essa realização. Temos a história de um homem que foi obrigado a se afastar do emprego, devido a um problema de saúde, e tenta comprovar tal circunstância ante um Estado falido administrativamente. E a trama está lá, apenas ela e os atores. Por vezes esquecemos que é um filme, dado o ar não invasivo da câmera e a trilha sonora ausente coadunando com o silêncio das autoridades. Essa ausência também é “vista” na primeira cena, quando apenas  escutamos a conversa telefônica de Blake, ainda com a tela escura. O diretor Ken Loach quis que a própria história brilhasse mais que ele, o resultado foi bastante positivo. 
A confluência de duas realidades distintamente sofridas: a de um homem de quase 60 anos, viúvo, e a de uma mulher, solteira, com dois filhos para criar, dá força ao arco dramático. Ele é muito eficaz em tarefas variadas, mas incompatível com o mundo informatizado. Ela é nova na cidade e tem que arcar com dívidas e com as despesas com saúde e educação dos filhos. O encontro deles se dá quando ambos são rechaçados pelos representantes dos órgãos públicos. A saída, então, é a ajuda mútua, desde coisas práticas, como o conserto de uma privada, até a companhia um do outro. É curiosa também a situação do vizinho de Daniel, que tem um empreendimento alternativo de revenda de tênis de marca. Se, no caso do “casal”. o jeito de burlar o ingrato sistema foi a cooperação, o vizinho encontrou também uma maneira – ilegal, é verdade – para trabalhar.

Para além de um viés político raso e de divisões maniqueístas, a proposta do longa é humanista, já que reflete as relações entre as pessoas – realçando um certo otimismo no sentido de “ainda tem gente que presta”. Por outro lado, na crítica à desumanização do cidadão e e ao tratamento “estatístico” ao qual muitas pessoas são reduzidas. Não há empatia por parte dos agentes do Estado.

Para dar conta de tudo isso, Dave Johns e Hayley Squires transmitem uma interpretação que mescla uma energia emocional e, ao mesmo tempo, é contida nos momentos certos. Há profunda singeleza, mas, por vezes, a coisa explode, como nas cenas finais. Além disso, há uma dose generosa de humor, e Johns ajuda muito ao naturalizar certas situações, como a do uso do mouse. Vale o destaque para atuação mirim de Briana Shann. A simpatia dela faz com que a parceiria com Dave Johns seja uma das melhores coisas do longa- a cena em que ele mostra para ela como funciona uma fita cassete  é impagável.
Algumas ironias são postas em tela, por exemplo, em como o protagonista é uma figura de certo modo rabugenta e que tenta regular o prédio que mora, ao mesmo tempo em que sofre com a burocracia indevida e mau trato. Ou então o já citado desajustamento tecnológico aliado a um desajustamento social – nos assustamos mais com pessoas que não sabem usar um computador ou com pessoas de bom coração que fazem coisas só para ajudar ao próximo?

Eu, Daniel Blake é um ótimo retrato da contemporaneidade. Em certa medida é possível traçar paralelos com Aquarius. Em ambos vemos o protagonista lutando contra um sistema ingrato. Há também o uso do som bem marcado – Aquarius bebe muito de uma trilha diegética, enquanto Eu, Daniel Blake  é silencioso (o que não deixa de ser uma opção sonora poderosa). Nas duas produções, os protagonistas e as relações deles carregam a trama – com resultados diferentes, mas elogios no mesmo festival.

Confira a nossa crítica sobre Aquarius

Eu, Daniel Blake é um grito por mais humanidade, em uma narrativa que dialoga com O Processo, de Kafka. O absurdo da vida de Josef K. não é tão distante ou diferente daquele de Daniel Blake e de milhões de seres humanos transformados em números por engravatados criados em apartamentos de bairros ricos.

Por Lucas Albuquerque e Maurício Costa

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