Netflixing – Você ainda não sabe, mas precisa de “Um cadáver para sobreviver” e encontrar o sentido da vida.
Um cadáver para sobreviver (Swiss Army Man) é um filme muito, muito estranho, e que parece quase falar algo muito profundo. Uma mistura de filosofia, amizade e gases intestinais que é tão instigante quanto non-sense.
Gênero: Comédia, Drama, Surrealismo
Direção: Daniel Schieren, Daniel Kwan
Roteiro: Daniel Schieren, Daniel Kwan
Elenco: Paul Dano, Daniel Radcliffe, Mary Elizabeth Winstead
Produção: Eval Rimmon, Lauren Mann, Lawrence Inglee, Jonathan Wang, Miranda Bailey, Amanda Marshall
Fotografia: Larkin Seiple
Duração: 97 min.
Ano: 2016
País: EUA
Cor: Colorido
Distribuidora: A24
Sinopse: Hank está perdido em uma ilha deserta, solitário, e a beira do suicídio. Sua vida é salva quando Manny aparece na praia e o auxilia a sobreviver e encontrar forças para voltar a civilização. Detalhe: Manny é um cadáver.
Nota do Razão de Aspecto
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Um cadáver para sobreviver estava na minha lista de filmes para assistir faz alguns meses, e felizmente a Netflix o inclui em seu acervo no dia 29/12, o que me permitiu assistir o filme ainda este ano. E atendeu exatamente a minha expectativa: é uma das obras mais estranhas que apareceram na telona em 2016.
A premissa do filme é tão insólita e surreal que com certeza irá desagradar muitas pessoas. O tema central do filme é a amizade entre um tímido e deprimido (e talvez louco) jovem e um cadáver com poderes escatologicamente milagrosos.

Reforço a questão escatológica. O cadáver peida, tem ereções, regurgita jatos de líquidos pela boca, e tem seu corpo usado como uma espécie de ferramenta multi-uso para sobrevivência em uma ilha deserta. Sem nenhuma pretensão de realismo, pois entre as ferramentas o corpo faz as vezes de jet-ski, metralhadora, entre outros absurdos.
Sim, eu sei o quanto isto parece uma promessa do pior humor pastelão possível,  com extremos de mal gosto. Mas estranhamente em nenhum momento nos sentimos subestimados ou enganados por um humor apelativo que busca o riso infantil. Pelo contrário, o surrealismo e a escatologia de Um cadáver para sobreviver é provocativo e instigante, e em alguns momentos até um pouco cerebral demais.
Isto acontece primeiro pela qualidade dos monólogos e diálogos, que, dentro da realidade fantástica da história, conseguem ser muito verossímeis e por vezes até psicanalíticos. Hawk e Manny debatem de certa forma a falta de sentido das convenções sociais, o isolamento e a solidão da sociedade moderna, a repressão sexual e amorosa que ainda vivemos e a incapacidade do homem atual encontrar sentido em sua vida. Mas para desfrutar deste debate é preciso atravessar frases aparentemente tolas sobre gases intestinais, masturbação e fantasias acerca de garotas de bikini.
A dupla de protagonistas está muito bem. Paul Dano está na sua melhor atuação desde Pequena Miss Sunshine, dando a Hank uma complexidade de emoções bastante convincente. Vemos no personagem a confusão, depressão, melancolia, romantismo e loucura que a história precisa. Daniel Radcliffe me surpreendeu com um Manny ao mesmo tempo infantil e filosófico, lúdico e desesperado. E o uso do humor físico foi bastante inesperado para o nosso Harry Potter. E para completar o elenco temos uma breve, mas significativa aparição de Elizabeth Winstead, como sempre, excelente. 
O uso da trilha sonora é bastante criativo e comovente. Temos um meio termo de trilha diegética e alóctone que combina com o clima onírico da narrativa. E toda vez que a trilha aparece, interfere diretamente na história, aumentando a sensação de fantasia delirante do filme.
A sensação de estarmos em algo similar a um sonho ou delírio é ressaltada ainda mais pelos cenários e figurinos insólitos, onde nos sentimos ao mesmo tempo perdidos na floresta e em um palco de teatro. E o ambiente se altera fortemente com o humor de Hank, com luzes e cores na alegria, sombras, chuva e sujeira na tristeza.
O final pode deixar muitos insatisfeitos, pois muito é sugerido mas pouco é explicado. Mas, para quem está disposto a aceitar uma alegoria aberta, temos um fecho dramático suficiente para sentirmos que Hank e Manny cumpriram sua jornada. Não sabemos bem dizer qual foi o destino ou a missão, mas não há como negar que foi uma jornada única, e envolvente.
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