Os Dez Mandamentos – O Filme (?) – Crítica
Os Dez Mandamentos rendeu a maior bilheteria de um filme nacional, mas como filme ele se sustenta?

Gênero: Drama

Direção: Alexandre Avancini
Roteiro: Joaquim Assis, Vivian de Oliveira
Elenco: Camila Rodrigues, Denise Del Vecchio, Giselle Itié, Guilherme Winter, Larissa Maciel, Paulo Gorgulho, Petrônio Gontijo, Sérgio Marone, Sidney Sampaio, Vera Zimmermann, Zecarlos Machado
Produção: Alexandre Acancini
Fotografia: Ricardo Fujii
Duração: 110 min.
Ano: 2015
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 28/01/2016 (Brasil)
Distribuidora: Paris Filmes
Classificação: Livre

Sinopse: Acolhido pela filha do faraó ainda bebê, Moisés cresce como príncipe do Egito, mas volta-se contra sua família adotiva em favor do sofrido povo de Israel, que por ele deverá ser conduzido à libertação. Adaptação cinematográfica baseada na Bíblia e na novela homônima da Rede Record, um dos maiores fenômenos de audiência dos últimos tempos da televisão brasileira.



Nota do Razão de Aspecto: 


Sem Avaliação, o motivo da ausência está no texto


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Os Dez Mandamentos (2016) foi um dos “filmes” mais falados no começo do ano. Mas que só tive a coragem de ver agora. Acho que dispensa apresentações, mas vale a lembrança: a Rede Record achou uma boa ideia – e financeiramente/ideologicamente foi – condensar a novela de quase 200 capítulos em um longa. Mais do que a polêmica dos ingressos esgotados e salas vazias, ou ainda de acusações outras envolvendo os donos da emissora, a principal derrota cinematográfica foi sentida por ser um resumo – mal feito – da novela. Seria muito mais honesto pegarem os mesmos atores e pensarem em uma história de 2 horas. Seja focando na trama que culminou na tão falada abertura do mar ou mesmo em qualquer outra história a partir da novela. Porém seria caro e daria trabalho… além do que já tinha um “filme” ali “prontinho”. 

A concepção, portanto, já nasceu errada. A execução e, por consequência, o resultado, não ajudaram. Como “filme” Os Dez Mandamentos falha em essencialmente todos os aspectos. Na primeira cena, quando Josué (Sidney Sampaio) faz um discurso para a tropa, já vemos uma síntese do todo. Monólogo marcado, direção de figurantes nula (repare na movimentação deles), fotografia condenável e figurinos plásticos. O “filme” que se segue é um longo flashback a partir da narração da primeira cena – que volta e meia aparece para lembrar o público o que está acontecendo. A exposição é extrema. Mostra, quando não o que está em tela, a mais óbvia das conclusões. Realmente os responsáveis duvidam da inteligência do público. 
O que se apresenta ali repercute – estilisticamente – durante toda a jornada. Apesar de querer ter cenários esplendorosos há uma pobreza significativa nesse sentido. Indo desde a armadura dos soldados, passando pelas roupas mais comuns e chegando até nos adereços do rei. Quanto às locações, elas são prejudicadas pelos closes constantes – resquícios da linguagem da televisão. A trilha evoca temas heroicos e emocionantes, mas tudo constantemente invasivo e melodramático. O ar de importância que vemos no discurso inicial, e em várias outras cenas, cabe mais em uma proposta de pregação. Todas as falas são grandiosas e ao mesmo tempo vazias. 

As atuações reforçam – no pior sentido – a dramaticidade. A cena em que Moisés se separa da mãe biológica, momento por si só dramático, há um exagero das duas atrizes envolvidas. A Samara Felippo é melhor que aquilo, não entendi o que aconteceu. Na segunda fase do novela “filme” os pais biológicos de Moisés estão ali para sorrir e até isso fazem mal. Os conflitos entre Moisés e o irmão adotivo Ramsés têm zero… conflito. Aí não culpo só os atores, mas roteiro, direção, montagem….

E chegamos a ela. Se você relevar os exageros interpretativos, os figurinos e cenários pobres, as narrações que idiotizam o público, as falas artificiais, a direção ausente, a trilha piegas e sons tortos (vide a cena da primeira batalha onde os gritos de “Moisés” são improvavelmente escutados)… você ignorando tudo isso (parabéns) terá ainda que passar pela última barreira: a montagem. 
Cortar tanto material para entregar um produto final de pouco menos de duas horas. Tarefa árdua, sem dúvidas, mas quem mandou fazer… a primeira hora parece quase toda um check list dos melhores (medo) momentos da novela . Está mais picotada que o nosso glorioso Michael Bay. As coisas escorrem no tempo em elipses sem sentido. Pensem no aclamado Boyhood. As passagens temporais aqui usam um recurso parecido. Mas a coisa funciona em Boyhood  por ser originalmente pensada para aquilo. Em Dez Mandamentos definitivamente não tínhamos um viés artístico na proposta. E vemos até falas abruptamente interrompidas. Sem falar de arcos, como o da esposa de Moisés, completamente abandonados. Personagens aparecendo do nada. E zero vínculo com aqueles que não viram a novela. 

Os efeitos, também muito citados, são um pouco além de amadores. Na televisão, em um contexto novelístico, pode até funcionar. No cinema, considerando 2016 e o orçamento envolvido, deixa a desejar. Os pontos baixos são: a entidade que mata os primogênitos e a cena da árvore que deus se comunica com Moisés (aliás, que voz estranha a escolhida para deus…). O ponto que seria alto, a abertura do mar, é nada espetacular, mas sim, é o que mais se sobressai. Contudo, a interação dos atores com a tela verde não foi bem dinamizada e criou momentos bem falsos.

A história, já contada algumas vezes, poderia render um bom filme. Ser um épico nacional que usasse o sucesso recente da novela como ponto de partida, e não linha de chegada como feito. Por preguiça dos envolvidos o grande problema de Os Dez Mandamentos – O Filme é justamente não ser um filme.

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