Polêmico como o poeta, o filme Neruda gerou controvérsia no Razão de Aspecto
 

Gênero: Biografia
Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Guillermo Calderón
Elenco: Alejandro Goic, Alfredo Castro, Amparo Noguera, Antonia Zegers, Cristián Campos, Diego Muñoz, Emilio Gutiérrez Caba, Francisco Reyes, Gael García Bernal, Héctor Noguera, Jaime Vadell, Luis Gnecco, Luis Vitalino Grandón, Marcelo Alonso, Marcial Tagle, Mercedes Morán, Michael Silva, Néstor Cantillana, Pablo Derqui, Victor Montero
Produção: Alex Zito, Axel Kuschevatzky, Fernanda Del Nido, Gastón Rothschild, Ignacio Rey, Jeff Skoll, Juan de Dios Larraín, Juan Pablo García, Peter Danner, Renan Artukmac
Fotografia: Sergio Armstrong
Montador: Hervé Schneid
Trilha Sonora: Federico Jusid
Duração: 107 min.
Ano: 2016
País: Argentina / Chile / Espanha / Estados Unidos / França
Cor: Colorido
Estreia: 15/12/2016 (Brasil)
Distribuidora: Imovision
Estúdio: AZ Films / Casting del Sur / Fabula / Participant Media / Televisión Federal (Telefe)
Classificação: 14 anos

 

Notas do Razão de Aspecto:
 
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O chileno Pablo Neruda (1904-1973) foi controverso em diversas áreas: seja como comunista, senador, vencedor do Prêmio Nobel e, claro, poeta. Neruda já havia sido objeto de um filme de 2014. Agora em 2016, e dirigido por Pablo Larraín, traz uma proposta diferente e que causou uma polêmica que vocês não imaginam nos bastidores do Razão : de : Aspecto. Por isso resolvemos trazer algo diferente: o duplo é um dos temas abordados no filme, então teremos uma crítica com duas visões. Duas notas. Duas percepções. Você amigo leitor, terá a chance de perceber as nuances de Neruda e tirar as próprias conclusões quando for ver o filme. Esperamos que o texto os instigue e nos digam nos comentários se gostaram da proposta que poderemos fazer outros nessa linha.
Atenção! Quando Neruda aparecer em negrito estamos nos referindo ao filme e não ao poeta.

 

Lucas Albuquerque
Quer conhecer a vida e obra do poeta chileno Pablo Neruda de um jeito tradicional? Abra um artigo da Wikipédia ou algo do gênero. O que vemos no longa Neruda é, do começo ao fim, um realismo fantástico. Há momentos pés no chão mas nestes você estará com a cabeça nas nuvens. Mas não se engane: os dois primeiros arcos podem, para os mais desatentos, dar uma impressão errônea do objetivo aqui.
O senador/poeta Pablo Neruda é posto na tela de forma verborrágica e logo vindo a ser perseguido por ser comunista. Para alguns o filme é sobre isso – há até uma rápida e impactante aparição do jovem Augusto Pinochet. Mas Neruda vai além. O foco é o fazer literário e a construção de outrem. Mas mesmo no viés político o que se tem é uma metralhadora apontando o dedo para todos os lados. Ninguém é perdoado. Todos os pontos de vista são jocosamente imbecis em algum momento.
O grande mote é a perseguição de Neruda feita pelo comissário Oscar Peluchonneau, filho quase bastardo de um grande investigador. O arco deste personagem, central na trama, pode ser definido como uma anti jornada do herói. O mentor (pai) o rejeita, no entanto ele nunca nega a missão. O instrumento “mágico” – livros deixados por Neruda – não são usados como fermenta, mas em tom jocoso contra o comissário. Uma bela discussão sobre o protagonismo também é realizada.

Já o personagem título, em geral endeusado em cinebiografias tradicionais, é mostrado como um beberrão, frequentador de inferninhos, infiel e com uma personalidade bem questionável. Por outro lado é amável, caridoso, com muitos amigos e admirado pelo povo e personagens famosos.

A perseguição, um jogo de gato e rato metalinguisticamente lúdico, torna-se algo semi transcendental. O desfecho é intimamente épico. Saímos de um tom noir para um quase faroeste espaguete. Aqui, criador e criatura se modificam e se ligam de forma una.
As atuações ajudam bastante nessa realização. Luis Gnecco (Narcos, No) é um Neruda bonachão. Um misto de gênio genioso estupidamente genial e louco. Sabe extravasar e ser singelo. Já Gael García Bernal (Diários de Motocicleta, Amores Brutos) marca bem as passadas de um investigador que quer ser sério e se provar para o pai, mas no fundo não é muito inteligente. Os bons interrogatórios alternam momentos pitorescos em que Neruda escapa debaixo do nariz dele.
Se a narrativa já é incomum, em alguns momentos sendo pouco convidativa mesmo com um humor constante, a montagem a acelera e a freia em situações pontuais. Da sequência quase impossível de ser acompanhada, pulando de um lado para outro, até um estudo intimista e dramático. Os flares, exageradamente escapando conscientemente de quase todas as luzes, reforçam o ar poético.
Neruda exige uma pré-disposição. Recompensa aqueles que se habilitarem ao final e fará você querer assistir novamente – caso se sinta agraciado – ou rechaçar e se perguntar o motivo de ter pago ingresso. Neruda foi o candidato chileno ao Oscar de 2017, mas ficou de fora da lista dos nove pré-indicados. Contudo, está entre os cinco no Globo de Ouro. Dos filmes que vi no cinema este ano, Neruda só fica atrás de A Juventude (2015) e A Chegada (2016), ou seja, desta vez discordo da Academia – que também tirou da disputa o francês Elle e o espanhol Julieta. Sinto que pode ocorrer que nem no ano passado, onde a lista final foi inferior a dos selecionados pelos países…
D.G.Ducci
 
Quando se chega ao terceiro ato do filme Neruda, e ele finalmente se decide sobre o que quer ser, tem-se uma experiência gratificante. Em uma locação ao mesmo tempo grandiosa e inclemente, o comissário Oscar Peluchonneau persegue ao mesmo tempo Pablo Neruda e a si mesmo. Quando a jornada se aproxima do fim, temos a clareza da ficção dentro da ficção, de um Neruda maior do que a realidade no imaginário do patético policial. É um belo final de filme.
Até lá, entretanto, temos mais de uma hora em que a principal característica da obra dirigida por Pablo Larraín, com roteiro de Guillermo Calderón, é a irregularidade. Larraín já visitara o início do período ditatorial do Chile em Post Mortem (2010) e seu final em No (2012), e agora se debruça sobre um dos grandes ícones políticos e culturais do período, o senador e poeta Pablo Neruda.

Há muitos acertos na abordagem: em primeiro lugar, não se tentou fazer um filme sobre toda a vida de Neruda – o que, em geral, resulta em filmes episódicos com um fio condutor temático frágil. Além disso, os realizadores não pouparam a figura do biografado: Neruda é mostrado com suas incoerências e as de seu pensamento: o um esquerdista-caviar, que vive uma vida de luxo e festas enquanto prega a revolução comunista; um homem mulherengo, beberrão e, sobretudo, extremamente vaidoso, que se pergunta se 300 policiais são um bom número para perseguir alguém importante como ele, ou que declara que precisa ser um gigante popular para o Chile. O próprio Neruda busca construir uma ficção sobre si mesmo, amparada em seu talento como escritor e sua voz sedutora, e se irrita quando a realidade o decepciona. Luis Gnecco consegue acertar o tom da interpretação, entre a seriedade e a caricatura.

Quem não se decide muito pelo tom – até o terceiro ato – é o próprio filme. De um começo acelerado, com cortes muitas vezes abruptos, atropelados e de viés realista, somos apresentados a o Neruda senador, que não teme colocar suas opiniões pró-comunistas mesmo em um Chile em ebulição; conhecemos o Neruda poeta que desdenha de seu poema mais famoso (o Poema 20), recitando-o com tédio em uma festa; acompanhamos o Partido Comunista Chileno ser colocado na ilegalidade pelo mesmo Presidente González Videla a que Neruda apoiara, e a decisão do Partido de esconder Neruda antes que ele fosse preso. Tudo isso com o pé embaixo no ritmo do filme.
A partir  daí, entra em cena o comissário Óscar Peluchonneau – figura que existiu na vida real e foi Diretor Geral da Polícia de Investigações do Chile entre setembro e novembro de 1952. Vivido por Gael García Bernal, Peluchonneau é obcecado pela captura de Neruda. Ao longo do filme, percebemos que essa “captura” não se equivale nem se limita à captura do fugitivo político, mas, acima de tudo, da alma de Neruda, um fugitivo perigoso e amante insaciável. A baixa estatura de Bernal em muitos momentos colabora para a construção da pequenez do comissário. A partir da entrada de Peluchonneau no filme, o ritmo patina bastante, e elementos de estranhamento com a realidade – que não chegam a ser uma realidade fantástica clássica, começam a permear o filme.

A melhor personagem (e melhor interpretação) do filme acaba sendo Delia (Mercedes Morán, ótima), a esposa de Neruda, traída e desprezada por ele, mas eternamente a seu lado, e quem parece melhor entender o jogo de ficção criando a realidade do poeta, a ponto de explicar didaticamente essa lógica a outro personagem em um momento chave do filme.

Este jogo duplo, das perseguições em várias camadas, e da ficção dentro da ficção para contar uma biografia, é a grande e pretensiosa ideia do filme, mas que só acerta o tom no final. Ao oscilar de cenas bastante realistas para outras com elementos ligeiramente fora do normal (como cortes que alteram o cenário ou o mis en scène no decorrer de um mesmo diálogo), o filme dá mais a impressão de que Peluchonneau (ou o montador do filme) é ruim da cabeça do que propõe uma interpretação dupla da realidade. Como agravante, temos longos sumiços do comissário no segundo ato, o que o joga para o papel de personagem secundário do filme, para depois retomá-lo como óbvio protagonista nos minutos finais.
Outros elementos são tão irregulares quanto o espírito do filme: se, por um lado, a reconstituição de época e a fotografia são dignas de nota positiva, a trilha sonora de Federico Jusid é invasiva, excessiva e melosa. E a pior de todas as características, não exclusiva de Larraín, mas típica do cinema pretensioso: longos monólogos internos de personagens, que variam entre algumas boas ideias, muitas obviedades, didatismos e redundâncias do que está sendo mostrado na tela, e reflexões supostamente profundas e poéticas. Se o filme fala muito e não mostra tanto, pode-se desconfiar que há algum problema na narrativa.Como Neruda, o filme Neruda também teve seu grau de vaidade e pretensão. A diferença é que a obra do poeta teve uma alta qualidade, enquanto a obra do cineasta está mais para a insegurança pretensiosa do comissário.

 

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