Crepúsculo requentado?  Até é, mas tem uns atrativos…

Gênero: Romance, fantasia
Direção: Scott Hicks

Roteiro: Kathryn Price, Nichole Millard
Elenco: Addison Timlin, Jeremy Irvine, Daisy Head, David Schaal, Elliot Levey, Harrison Gilbertson, Hermione Corfield, Joely Richardson, Juliet Aubrey, Leo Suter, Lola Kirke, Malachi Kirby, Matt Devere, Norma Kuhling, Sianoa Smit-McPhee
Produção: Bill Johnson, Claudia Bluemhuber, Gordon Gray, Mark Ciardi
Fotografia: Alar Kivilo
Montador: Scott Gray
Trilha Sonora: Mark Isham
Duração: 91 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 08/12/2016 (Brasil)
Distribuidora: RioFilme/ H2O Films
Estúdio: Apex Entertainment / Lotus Entertainment
Classificação: 10 anos
Sinopse: Enviada para um reformatório após o envolvimento na morte de um ex-namorado, Lucinda Price se atrai por Daniel Grigori, um estranho e distante colega. Essa paixão se tornará ainda mais complicada, porque Daniel é um anjo caído na Terra, em meio à eterna batalha entre o Paraíso e o Inferno…

Nota do Razão de Aspecto:


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Fallen é a adaptação para o cinema do primeiro (são quatro, mais um spin off) livro da autora estadunidense Lauren Kate. Lançados entre os anos de 2009 e 2012, a série alcançou enorme sucesso mundial, especialmente entre jovens leitores, chegando a vender mais de 10 mihões de cópias no mundo todo. Dessas, mais de 1,5 milhão foram vendidas apenas no Brasil (thanx cinemaadois.com.br!). Não é por acaso, portanto, que sua adaptação cinematográfica seria a um só tempo inevitável e muito aguardada. E o público brasileiro é tão importante que, junto com Itália e alguns países da Ásia, recebeu prioridade para a estreia do filme.
Tendo iniciado suas filmagens no início de 2014, somente agora, mais de dois anos depois (o que, tirando Stankey Kubtrick, não costuma ser boa notícia), o filme chega às telas dos cinemas depois de muita expectativa dos fãs. Quanto à sua fidedignidade como adaptação do livro, nem eu poderia analisar, por não ter lido a obra original, nem é dever do crítico de cinema fazê-lo. Assim, esta análise se limita ao filme baseado no livro, recém-lançado no circuito brasileiro. 
As comparações entre a trama de Fallen e da série Crepúsculo, também composta por quatro livros, e escrita por Stephenie Meyer, são impossíveis de evitar. Se não, vejamos: adolescente se muda para um novo ambiente, em que se sente naturalmente deslocada;  ela se fascina à primeira vista por um rapaz misterioso que, em princípio, evita sua aproximação, mas que salva sua vida ao primeiro sinal de perigo; desse atrai-e-afasta, nasce uma paixão condenada, por motivos que se relacionam com a natureza não-humana do rapaz;  para adicionar desafios, forma-se um triângulo amoroso, e os amigos de todos os envolvidos acabam tomando seus lados e participando do desenrolar da saga. 

Dessa forma, em termos de criatividade, Fallen não tem grandes atrativos. Saem vampiros e lobisomens, e entram anjos caídos, presos na Terra até que um determinado anjo decida de que lado está na batalha entre as hostes celestiais e as de Lúcifer. Este anjo não tomou partido na batalha original no Paraíso, porque, para ele, o amor está acima de Deus ou do Diabo.


Isso mesmo, o anjo do amor é personagem chave da história.

E, claro, não espere uma discussão teológica sobre filos, eros e ágape. O amor aí em questão é aquele mesmo romântico (e não Romântico, fique bem claro).

O que salva Fallen de ser apenas um sub-Crepúsculo piorado talvez seja um ligeiro flerte mais presente com o gótico, e a mão de um diretor que, ao menos no passado, demonstrou competência (Scott Hicks, australiano que dirigiu o criticamente aclamado Shine, que deu a Geroffrey Rush seu único Oscar até hoje, como melhor ator). Ajuda também o fato de que Addison Timlin consiga viver uma Lucinda “Luce” Price, protagonista do filme, menos bocó e mais expressiva que Bella Swan. 


Outros elementos ajudam o filme: a trilha sonora instrumental, com piano predominante, ajuda a compor o ambiente meio melancólico e decadente do reformatório Sword and Cross, onde o Luce e seu muso anjelical Daniel Grigori (Jeremy Irvine, fraquíssimo e sem química com a parceira) se conhecem e se apaixonam. Aliás, a escolha por uma locação na Hungria foi um achado, assim como a biblioteca em que se passam algumas importantes cenas do filme. Por outro lado, quando sai do instrumental para incluir canções, em especial as não diegéticas, o filme patina e sai da tensão para o sentimentalismo.


Além do casal principal, o elenco reúne Lola Kirke (muito bem como Penn, a amiga tagarela de Luce); Harrison Gilbertson (um Paulinho Vilhena mais novo, que faz Cam Briel, mala por quem – claro – Luce se atrai, e terceiro vértice do triângulo amoroso); Leo Suter (Trevor, crush nerd de Penn); Joely Richardson (Miss Sophia, em dupla função de bibliotecária e professora de religião); Daisy Head (Arriane) e Hermione Corfield (Gabrielle), meninas “do bem”; e Malachi Kirby (Roland) e Sianoa Smit-McPhee (extremamente caricatural com sua Molly), na turma “do mal”. 

Além da batalha entre os anjos e da difícil aproximação do casal principal, o filme traz ainda em sua trama questões relativas à reencarnação. Se, por um lado, é uma inovação se comparado a Crepúsculo, a forma como é tratado o tema faz até o capiroto corar… Não é problema aceitar a reecarnação como realidade para a narrativa do filme. Difícil é engolir que as pessoas reencarnem com a mesma aparência física em séculos e geografias diversos.


O que nos traz ao cerne temático do filme, que fará com que parcela da audiência se identifique e adore a obra, e outra parte torça o nariz. Tem-se, mais uma vez, a história da dificuldade da adolescência, uma “nova casa”, depois da infância, em que não se tem certeza sobre o mundo, em que há o conflito entre o que a sociedade espera do indivíduo e um esforço meio desajeitado de se preservar a identidade. Nesse mundo de pessoas estranhas, tal qual no reformatório, e de hormônios explodindo, é tudo meio confuso entre a atração por quem quebra as regras e a paixão por quem aparentemente não se interessa por nós.

Mas é um pouco assustador perceber que a expectativa por um príncipe encantado – seja ele vampiro ou anjo – ainda esteja tão arraigada no imaginário jovem feminino.  Um homem fora do padrão, diferente dos demais, que a salve no momento de perigo. Uma alma gêmea que sempre a amou e amará, e que, uma vez admitido o sentimento, enfrentará todos os obstáculos para ficar a seu lado, mesmo tendo de enfrentar a tudo e a todos.

Mesmo que se tenha em conta essa imagem de mundo e de relacionamentos, que encontra sintonia com o público-alvo, as escolhas narrativas nem sempre a certam e, não raro, partem para o óbvio: o filme se inicia com um prólogo que explica a cosmogonia dos anjos caídos;  isso não seria exatamente problema se, mais para frente na trama, a mesma história não fosse contada durante uma aula (o que duplica o que é contado, chamando o espectador de lerdo). Outro exemplo: em determinado momento, uma estátua de anjo que cai e quase machuca a protagonista. A obviedade do simbolismo do anjo caído que causará dor à mocinha é de doer.


Entre suas falhas e acertos, Fallen é um filme que deve agradar bastante aos fãs. Adicione uma estrela ou mais à nota se você está entre eles. Como obra cinematográfica, é irregular, mas leva uns pontinhos positivos no visual geral (embora os efeitos visuais não ajudem). Como reflexo do mundo afetivo adolescente e/ou feminino jovem, preocupante. 

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