WESTWORLD (1.8) – TRACE DECAY – SÉRIES E TV
Um episódio morno mas importante

ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS DO OITAVO EPISÓDIO 
DE WESTWORLD

Leia a fica técnica aqui


Nota do Razão de Aspecto:

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O oitavo episódio da primeira temporada
de Westworld foi bem mais morno do que
os dois anteriores. Ainda assim, manteve o nível alto da série, e presenteou os
espectadores com um punhado de dicas e informações relevantes, além pequenos
shows de interpretação.
O episódio tem um início vigoroso.
Bernard é religado e parece profundamente abalado pela consciência da própria artificialidade
e, principalmente, por ter matado Theresa. As emoções por ele demonstradas
parecem profundas, o que fascina Ford (“the
anguish, the horror, the pain, it’s remarkable; a thing of beauty
”. O
criador do parque revela que construiu Bernard justamente para conseguir maior capacidade
de processamento para trabalhar na construção de anfitriões ainda mais
perfeitos. Ford instrui Bernard a apagar todos os traços que possam liga-los à
morte de Theresa, e promete, como recompensa, apagar da memória do parceiro-anfitrião
as memórias relativas ao affair e à
morte da executiva. Destaque total para a espetacular interpretação de Jeffrey
Wright, misturando crise de identidade, caos e, posteriormente, distância e contenção
emocional.

Focado em trabalhar na sua nova
narrativa, Ford pergunta a Bernard o que ele realmente sente. Sua resposta é a
mais humana possível… ele tem emoções e elas são reais. Mas agora descobriu
que seu passado não é verdadeiro, e que ele está “lifelike but not alive“. Seu grande questionamento é se existe
diferença entre a dor que ele sente e a que um humano sente. Ford comenta que
os humanos acreditam em consciência, mas não a usam, não refletem. Em um breve flashback, os roteiristas dão a dica de
que Bernard seria responsável também pelo desaparecimento de Elsie.
Com Theresa fora do caminho, Ford
confronta Hale, e responsabiliza Theresa pela manipulação de Clementine durante
a demonstração que resultou na demissão de Bernard. Este é reinstituído por
Ford ao comando da área de Qualidade do parque. Resta a Hale procurar apoio de
Sizemore, que vem trabalhando em um vilão canibalesco encomendado por Ford. Ela
manipula Sizemore a ajuda-la em uma missão, e ambos visitam o depósito de
anfitriões desativados. Ali, Hale insere memórias no anfitrião que interpretava
o pai de Dolores originalmente.

Dolores e William avançam no território
desconhecido e encontram vários soldados da União massacrados por flechas indígenas,
o que os leva a crer em um ataque da Nação Fantasma. Ao encontrar um
sobrevivente, eles descobrem esses soldados haviam recebido a ordem de
encontrar e matar El Lazo, Dolores e
William. A anfitriã mostra compaixão pelo jovem soldado, e pergunta a William
“que tipo de pessoas seríamos se o abandonássemos?” – demonstrando um
grau de empatia que William não parece alcançar. Novamente a série levanta a
questão sobre quem é mais humano, e se a diferença de material orgânico ou
artificial faz diferença no comportamento final. Nessa sequência, Dolores vê a
si mesma morta, caída de bruços na beira do rio. Assim como Maeve, Dolores
parece ter dificuldades para distinguir o que é passado ou futuro, alucinação
ou memória.

Maeve segue seus planos de escapar do
parque. Ela conhece a nova anfitriã que interpreta Clementine em seu loop narrativo, mas sua memória parece
fora de controle. Ela relembra de sua anfitriã-filha em outra narrativa, e
revive seu assassinato por parte do Homem de Preto. Ao questionar os técnicos
do parque sobre essa confusão mental, a ela é explicado que as memórias do
seres humanos são embaçadas, e, com o tempo, os detalhes desaparecem. No caso dos
anfitriões, as memórias são perfeitas, o que acaba fazendo com que revivam de
forma muito mais intensa os fatos do passado. Maeve afirma que é hora de
escrever a própria história. Para isso, precisa de aliados, e de descobrir uma
forma de escapar do parque sem acionar o explosivo embutido em seu corpo pela
Delos, como forma de impedir fugas de anfitriões.

Sylvester tem um plano para impedir as
ações de Maeve. Como ela só pode receber as alterações de configuração que
deseja após um reboot do sistema, o
técnico formatar a anfitriã, e depois destruí-la. Maeve, entretanto, permanece
consciente, uma vez que Felix Lutz não reúne a coragem de formatar Maeve. “Após
demonstrar – de forma bem extrema – a Sylvester como seria fácil matá-lo, ela
afirma ser hora de reunir um exército”. É impossível não pensar no grande
estoque de anfitriões desativados. Mas o poder de Maeve após as mudanças em seu
core code torna-se surpreendente: ela
agora pode controlar outros anfitriões e modificar as narrativas a sua volta –
o que a torna uma adversária a altura de Ford. Nos flashbacks de Maeve, descobre-se que Ford e Bernard apagaram a
memória da anfitriã – contrário ao que ela desejava – e a ofereceram um novo papel.
Após ser religada, a Maeve “do passado” se mata.
O Homem de Preto e Teddy continuam sua
busca pelo labirinto, e chegam a uma área cheia de corpos assassinados – desta vez
com tiros, creditados aos homens de Wyatt – em uma rima com a narrativa de
Dolores. O HdP reconhece Angela, uma anfitriã sobrevivente – justamente a que
recepcionou William em sua primeira visita a Westworld. Com essa cena, que não
está ali por acaso, fica praticamente confirmada a teoria de que William e o
HdP são a mesma pessoa, em linhas temporais diferentes. O grupo é atacado por
um ser enorme, com máscara de chifres, e aparentemente imune a balas. Uma
machadada certeira de Teddy resolve o confronto. Durante a briga, Teddy se
lembra do HdP como um dos homens que abusaram de Dolores e o agride. Na cena seguinte,
são reveladas mais informações sobre o passado do HdP: embora seja considerado
um “deus”, um “titã da indústria”, um
“filantropo”, um “homem bom”, o HdP sofreu com o suicídio
da esposa, e com a culpa atribuída por sua filha pela morte da mãe. Ao visitar
Westworld após esse incidente, o HdP mata Maeve e a filha, para saber como se sentiria.
O resultado é que ele sentiu nada. Resta agora a ele descobrir o labirinto, que
é o “jogo de Arnold”. Um jogo que “corta fundo”, ao
contrário do jogo de Ford, que mantém os visitantes seguros. Ainda segundo o
HdP, matar Wyatt destrava o labirinto. Teddy falha ao tentar matar o HdP – o que
pode ter a ver com o caráter de sua programação ou com as leis impostas por
Ford. Já Angela não tem problema em flechar Teddy, enquanto o grupo é cercado
pelos homens de Wyatt.
***
Os títulos de episódios escolhidos pelos
criadores são atrações à parte de Westworld.
No episódio passado tivemos um termo técnico de pintura, nesta semana o
“trace decay” vem da psicologia e corresponde a uma teoria sobre o
processo de esquecimento. Segundo esse entendimento, as memórias deixariam traços
(físicos e/ou químicos) no cérebro. Com o passar do tempo, e o declínio desses
traços, ficaria mais difícil recuperar as memórias armazenadas. O episódio 8 (e
a série como um todo) tem na retenção da memória como instrumento de definição
de identidade um dos seus grandes arcos temáticos.
Reter a memória de suas experiências
passadas é um salto de consciência para os anfitriões. Foi por meio dessa
permanência que Dolores e Maeve conseguiram sair dos loops para os quais foram designadas. Ao mesmo tempo, as duas têm
tido sério problemas em administrar múltiplas lembranças. Ao mesmo
tempo, a memória confere continuidade, mas traz um fardo, o qual Ford não deseja para suas criações. Se considerarmos que, para os anfitriões, essa bênção-maldição de se lembrar dos fatos é ainda mais catalizada, uma vez que eles retém todos os detalhes de suas lembranças, não admira que Ford ofereça apagar as memórias doloridas de Bernard, como premiação por
sua competência e fidelidade. A questão
da memória como fonte de sofrimento, por um lado, e de definidora de
identidade, por outro, remete ao excelente filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004). Você apagaria as
memórias ruins se pudesse, ou as manteria justamente porque elas fazem parte do
que você é?   Para os anfitriões, a
memória é sinônima de conscientização – e com ela toda a dor e o questionamento
sobre a existência, comum aos humanos. Será a coexperiência da dor o ponto que
iguala humanos e anfitriões?
Se, por um lado, a teoria de linhas temporais diferentes se fortaleceu – já que HdP reconheceu Angela – a cronologia dos fatos envolvendo Dolores parece confusa. Ela parece se lembrar de algo vivido antes de sua chegada à pequena vila. Por outro lado, ali se encontra a mesma cruz que já havia aparecido em cena anterior de Ford. Esse pequeno nó temporal deve se desfazer em breve. 
Outro tema interessante de episódio é a
singularidade tecnológica. Para aqueles não familiarizados com o termo, trata-se
da hipótese segundo a qual a invenção de uma superinteligência artificial
poderá disparar uma onda de auto-evoluções que  superariam em muito a inteligência humana. A
chegada da singularidade tecnológica levaria ao fim da raça humana. Em “Trace
Decay”, por duas vezes somos colocados frente a seres artificiais cuja
capacidade supera a humana. Bernard foi criado porque Ford, sozinho, não seria
capaz de capturar o “coração” que gostaria de oferecer aos
anfitriões. Maeve, por sua vez, supera os limites de sua programação e passa a
controlar narrativas do parque. A tensão entre homem e máquina, essência do
gênero da ficção científica, é tratada com alta qualidade pela série.
Como, entretanto, ainda somos humanos, o
episódio pecou um pouco em ritmo, e teve uma cena final pouco impactante. Se
comparado ao anterior, que trouxe uma grande revelação, este soou mais como um
episódio de transição, preparatório, movendo as peças para um grand finale nos dois últimos episódios.
Um episódio mais crônico do que agudo.
O poder de narrar é digno dos deuses, e,
em Westworld, significa ter liberdade
e poder sobre o destino alheio. Ford sabe disso, Maeve agora também o sabe. E
os escritores da série estão absolutamente cientes do poder que têm, ao mostrar
e esconder as histórias dos vários personagens, e nos programar a assistir a
série semana a semana.

por D.G.Ducci

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