Sob Pressão talvez ficasse melhor em uma série pra TV… mas no fim das contas entrega um bom material.

Gênero: Drama
Direção: Andrucha Waddington
Roteiro: Leandro Assis, Renato Fagundes
Elenco: Andréa Beltrão, Ícaro Silva, Júlio Andrade, Stepan Nercessian, Thelmo Fernandes
Produção: Andrucha Waddington
Fotografia: Fernando Young
Montador: Thiago Lima
Trilha Sonora: Antonio Pinto
Duração: 90 min.
Ano: 2016
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 17/11/2016 (Brasil)
Distribuidora: H2O
Estúdio: Conspiração Filmes

Sinopse: O retrato de um dia em um hospital público perto de uma região dominada pelo crime organizado. Uma criança, um traficante e um policial são feridos e precisam de cirurgias, a equipe médica tem que tomar decisões difíceis. 

(considero que o trailer a seguir, apesar de enérgico, entrega algumas cenas importantes para a trama. Então caso não goste de spoiler, prefira pular direto para o resto desta crítica)

Nota do Razão de Aspecto:

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Talvez valha o comentário logo de cara: não confundam este longa nacional com o homônimo britânico do ano passado dirigido por Ron Scalpello. Este texto se refere ao filme que chegará aos cinemas brasileiros agora no dia 17/11/16. 

Todos nós sabemos o quão a situação em hospitais públicos é calamitosa. Sob Pressão mostra um pouco dessa realidade – um pouco, pois por mais que o que foi mostrado seja crítico, há lugares em que a coisa é bem pior… Só de ter mais de um médico apto para atendimento, um centro cirúrgico montado e as coisas funcionando (ainda que parcialmente) torna a realidade do filme muito mais branda que a de muitos brasileiros. O foco, mais do que evidenciar a falência do sistema de saúde, é a pressão que os médicos sofrem – em especial o cirurgião Evandro.

No começo vemos que Evandro está de plantão há mais horas que o aceitável. O cansaço fica visível, a mão treme e mal dá tempo para ele se alimentar (uma das lições de Sob Pressão é: nunca coma um misto quente perto de um hospital). Contudo, mesmo com todo o estresse, ele permanece resoluto a manter os próprios princípios, como o de tratar primeiro o paciente que mais precisa – independente da origem ou posição social. Ele prioriza, por exemplo, a cirurgia de um traficante em detrimento de uma criança (filho de um renomado jornalista) e de um policial (mesmo com o comandante da polícia fazendo pressão). A partir daí a narrativa fica um pouco cíclica ao se fixar nas consequências dessa atitude. 

A trama acaba se assemelhando a um episódio de Plantão Médico ou Grey’s Anatomy. Há, por exemplo, conflito e envolvimento entre os médicos, além de um passado obscuro vindo à tona. A questão médica é obviamente simplificada para melhor se adequar à proposta. A direção e o roteiro erram ao apostar em subtramas demais. A tentativa de dar uma tridimensionalidade aos personagens acaba sendo apenas um desvio inoportuno da questão central. A necessidade de aparecer a mulher de Paulo (Ícaro Silva) é bem questionável. A figura da Ana Lúcia (Andrea Beltrão) também acaba sobrando em alguns momentos. Como série poderíamos ter um contato mais profundo com aquelas personas – que pareciam interessantes. Em algumas situações o desenvolvimento soa forçado e de gosto bem duvidoso.

Se alguns personagens poderiam ser melhor trabalhados, o mesmo não se pode dizer dos atores. Estes apresentam um trabalho impecável. Cada um cumprindo bem o papel designado e por vezes tirando leite de pedra. O já citado Ícaro Silva mostrou um amadurecimento impressionante, tanto nas cenas mais cotidianas, quanto em um momento capital. Andrea Beltrão, Thelmo Fernandes e Stepan Nercessian dão um peso e experiência aos personagens, eles também têm um cena de impacto que entregam com pouco gestos o vigor necessário. Marjorie Estiano é mais uma com uma personagem com cenas estranhas (a primeira dela com um paciente no meio do salão, beira a vergonha alheia), mas que sabe se posicionar bem e marca presença. Contudo é Júlio Andrade, como Evandro, que brilha. Com ele, o título do filme faz todo sentido. A cada cena parece se afundar mais nos dilemas e complexidade das tensões. Sem dúvidas a nota mais positiva aqui.

O ritmo quase não permite que o público respire. As inúmeras viradas e problemas atrás de problemas deixam o espectador constantemente inquieto, boa analogia com o protagonista. No entanto, como a coisa toda ficou condensada em 1h30, soa quase absurdo que tanta desgraça ocorra de uma vez. Em alguns casos, o exagero é bem-vindo para realçar um ponto, porém aqui dá algumas derrapadas. Dava para cortar alguns dramas, principalmente os pessoais, e obter um resultado mais preciso. Isso sem falar que é um tanto inverossímil que a nata da medicina esteja naquele hospital….


A atenção aos detalhes, o design de produção convence, contrasta com a falta de sutileza – a cena final é um exemplo. O chamado redundante pelo nome de uma das médicas assistentes, a Keiko, irrita. Nunca vi um nome ser tão utilizado em um filme. E o pior: a função dela é incerta, uma faz tudo basicamente. Há também uma certa pieguice e clichê na resolução de algumas ações. Outras, mesmo com esse elementos, acabam funcionando – novamente aqui o drama do Evandro se destaca positivamente. 
Sob Pressão critica de forma (quase) eficaz as condições de trabalho dos nossos médicos, possui algum valor de entretenimento – mesmo tendo cenas pesadas – e falha em excessos e no romance piegas (responsável sozinho, com uma cena, por baixar a nota do filme). A avaliação geral, contudo, é positiva e valeria uma franquia ou série. 
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ALERTA: Esta crítica contém spoilers. Proceda à leitura por própria conta e risco. Confira a ficha técnica do episódio aqui – Nota do Razão de Aspecto:   ——————————————————————————————– No...