A Garota no Trem (The Girl on the Train,2016) – Crítica
A Garota no Trem deve concorrer ao Oscar de melhor roteiro adaptado e outras premiações.

Gênero: Suspense/Drama
Direção: Tate Taylor
Roteiro: Erin Cressida Wilson, Paula Hawkins
Elenco: Allison Janney, Athena Stuebe, Danielle M. Williamson, Darren Goldstein, Édgar Ramírez, Emily Blunt, Frank Anello, Haley Bennett, Justin Theroux, Lana Young, Laura Prepon, Lisa Kudrow, Luke Evans, Marko Caka, Nicole Bonifacio, Rebecca Ferguson, Ross Gibby, Tod Rainey
Produção: Marc Platt
Fotografia: Charlotte Bruus Christensen
Montador: Michael McCusker
Trilha Sonora: Danny Elfman
Duração: 116 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 27/10/2016 (Brasil)
Distribuidora: Universal Pictures Brasil
Estúdio: Amblin Entertainment / DreamWorks SKG / Marc Platt Productions / Reliance Entertainment
Classificação: 14 anos

Sinopse: a vida de três mulheres são interligadas a partir, principalmente, de um confuso ponto de vista da alcoólatra Rachael. O desaparecimento de Megan torna a vida da Rachel ainda mais instável, quando esta é acusada de estar envolvida na questão.

Nota do Razão de Aspecto: 

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“Mulheres fortes”. Você tem ouvido essa expressão algumas vezes nos últimos tempos. Do ano passado para cá tivemos a Rey em Star Wars, Michelle em Rua Cloverfield, 10, Imperatriz Furiosa em Mad Max, só para citar algumas…. Em A Garota do Trem vemos em paralelo Rachel (Emily Blunt), Anna (Rebecca Ferguson) e Megan (Haley Bennett), mulheres complexas que transitam entre a fragilidade e o ímpeto.

Rachel passa todo dia de trem pelas casas das outras duas. Da janela da locomotiva ela contempla a vida daquelas personagens e se projeta nelas. O que ocasiona um sofrimento, dado que Rachael é ex-mulher do atual marido de Anna – que era amante de Tom (Justin Theroux) quando este era casado com Rachel. Anna é mãe, não mais trabalha para cuidar da criança e aparenta algum transtorno. Já Megan é a babá da filha de Anna e também não está no melhor momento, ela se consulta com um psicólogo e relata questões sexuais. Como se não bastasse, para deixar a história ainda mais complexa, Megan desaparece e Rachel é a principal suspeita.
A apresentação das três é bem pontuada com cenas iniciais para cada uma. O desenvolvimento delas nos mostra aos poucos a personalidade e ajuda a construir o intrincado quebra-cabeças. Eu me peguei tendo opiniões diversas sobre os caracteres delas conforme a coisa avançava. As viradas na trama são bem conduzidas na medida que pistas são colocadas, mas sem ficar óbvio. A conclusão portanto é coerente e arrebatadora. Não li o livro da Paula Hawkins, então não sei o quanto o filme foi fiel. Mas fato é que a expressão cinematográfica funcionou muito bem no que tange ao roteiro. O diálogo final, por exemplo, ecoa outros momentos da trama de forma precisa e bela. Além disso, temas como depressão, relações abusivas, alcoolismo, maternidade e arte são abordados em A Garota do Trem. Todos, em maior ou menor grau, repercutindo atitudes passadas e anseios futuros, no tempo presente. As opções de cada um e como os outros as enxergam geram boas reflexões nos personagens e no público. Incrível como o filme consegue dar conta de tudo. 
Se o texto está impecável não podemos dizer o mesmo da direção. Tate Taylor (do ótimo Histórias Cruzadas) falha em vários quesitos. As transições temporais são explicitadas de modo confuso. Para apresentar as personagens aparece uma tela preta com o nome delas, recurso piegas. E os flashbacks não entram nos momentos devidos, cansando o telespectador. Mas ele teve dois grandes méritos. Um foi o de usar muitas cenas de nudez, necessárias diga-se de passagem, sem apelar. Em momento algum os corpos das mulheres são vistos como objetos. Há cenas de sexo, banho e carícias, todavia não vemos o mamilo das atrizes, por exemplo, e isso é feito sem perder a força do momento – pelo contrário mostrou uma consciência muito bem-vinda.O outro acerto é exatamente em tirar das atrizes o melhor que elas podem oferecer, em especial Blunt – que corre por fora na disputa do Oscar, ela que também estava cotada no ano passado por Sicário. Como há uma dose generosa de melodrama, os sentimentos poderiam ser transmitidos de forma exagerada e fora do tom. As atrizes e a direção souberam dosar esse aspecto. A insanidade de Rachel é visceral. A mudança física é claramente percebida. As explosões, choros, gritos, confusão mental, atitudes desesperadas, tudo é posto em tela pela atriz. Haley Bennett tem uma sensualidade poderosa e igualmente convincente. Rebecca Ferguson passa uma instabilidade que fica ali na corda bamba, a ponto de explodir e ao mesmo tempo muito contida, vemos isso em especial no último arco. O trio masculino também vai bem, sendo firmeza a melhor palavra para defini-los. 
O ritmo é muito cadenciado. No começo e meio a coisa é vagarosa para podermos sentir aquele ambiente e as divagações das personagens, em especial Rachel e Megan. A parte final explode – como a história pedia. A fotografia alterna tons frios e vivos de acordo com o foco narrativo. Além disso, planos mais fechados ressaltam o drama vivido. A trilha é embalada por tons mais melancólicos. Esses três aspectos, portanto, dialogam muito bem com a narrativa. 
A Garota no Trem é pesado, sem espaço para alívios cômicos. Não é um longa fácil de assistir e digerir. Sei que a temporada de Oscar não esquentou de fato aqui no Brasil, mas tal como Kubo e as Cordas Mágicas, também sinto cheiro de premiação neste drama/suspense primoroso. 

Por Lucas Albuquerque

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