WESTWORLD (1.4) – DISSONANCE THEORY – SÉRIES E TV

ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS DO QUARTO EPISÓDIO DE WESTWORLD.
Leia a ficha técnica aqui
Nota do Razão de Aspecto: 
O quarto
episódio de Westworld (“Dissonance Theory”), se não foi, do ponto de
vista narrativo, tão preciso quanto seu predecessor, trouxe avanços
interessantes para o desenrolar da trama e deixou abertas quaisquer certezas sobre quem são os mocinhos e os bandidos nesse mundo nada simples ou simplório.
O episódio
abre com mais uma das sessões de diálogo entre Dolores e Bernard Lowe. A robô
continua em seu processo de aproximar-se cada vez mais da consciência. Indagada
sobre o desejo de esquecer sobre o assassinato dos pais, ela usa, ipsis litteris, a frase que Lowe usara
com sua esposa ao discutir a morte do filho. Ele pergunta se o breve monólogo foi
escrito para ela pelos programadores (“That’s
very pretty, Dolores. Did we write that for you?”
), e ela responde que o adaptou
de um script sobre amor. A cena
levanta vários pontos: em que momento temporal exatamente se passam essas
“sessões de terapia” entre Dolores e Lowe?  Como Lowe não se lembrou da própria frase que
usou?  Seria essa um pista nada trivial que
reforça a teoria de que Lowe é também um robô?
Além da
própria questão da autoconsciência de Dolores – que começa, inclusive a
questionar a própria sanidade, algo humano, demasiadamente humano – a cena nos
revela que Lowe sabe do labirinto e o aponta como possível caminho para a
liberdade, algo que Dolores expressa categoricamente desejar.

Ao despertar
na companhia de Billy e Logan com a arma ainda na mão, Dolores esfria um pouco
a teoria de duas linhas temporais distintas (apresentada pelo Razão aqui).
Aparentemente, a cena se passa mesmo no presente, tempo em que a robô se afasta
cada vez mais de sua programação de rotina e segue rumo à descoberta de novas
sensações, reflexões e decisões. Entre essas decisões, está a de não voltar
para o loop do rancho, quando o
parque tenta convencê-la a isso. Seu diálogo com Billy é claramente uma alusão
ao livre arbítrio, passo fundamental para a consciência dos Anfitriões (“I used to believe there was a path for
everyone but now I think I never asked where the path was takin’ me”
).
O Homem de
Preto talvez seja o personagem cuja imagem mais foi alterada nesse episódio. Em
primeiro lugar, passamos a saber que ele deseja fazer acontecer uma
“última história” deixada por Arnold (alguém que criou “a world where you could do whatever you
want, except one thing: you can’t die
“). Ele diz ter “lido todas
as histórias” daquele lugar, mas ainda que precisa saber o que essa última
significa. Para isso, ele faz um acordo com Armistice, a parceira de Hector
Escaton, dupla vista pela primeira vez no episódio de estreia da série. Em
troca de libertar Escaton, o Homem de Preto deseja saber a história da tatuagem
de cobra de Armistice, por entender que seria a próxima peça do quebra-cabeças
que o levará ao labirinto. Ainda sobre o Homem de Preto, uma cena bastante
breve, mas reveladora, acontece quando um Visitante parece reconhecê-lo de fora
do parque. Ao declarar-se seu fã e de sua “fundação”, o rapaz é
rispidamente interrompido e lembrado que aquele ali é o momento de férias de
seu interlocutor.

O “lado
de fora” do parque é também tema de uma conversa entre Logan e Billy. Pelo
que parece, a visita a Westworld é parte da avaliação da família de Logan (e de
Billy, por casamento) sobre sua capacidade e reações. Billy parece bastante
incomodado ao perceber a situação e a possibilidade de estar sendo
constantemente monitorado pelo parque, ao que Logan responde que “this is why the company needs to bump our
stake in this place
“. Temos que a visita dos dois não é apenas para
diversão, como supostamente poderíamos ter imaginado, e que existe todo um jogo
de interesse comercial fora dos limites que acompanhamos até agora. Após um
tiroteio, Logan toma posse de uma arma de anfitrião, o que pode levar a
consequências (literalmente) funestas em episódios futuros.
 
O encontro
entre Ford e Theresa Cullen é possivelmente o momento mais forte do episódio.
Preocupada com o mau funcionamento recente de alguns anfitriões e,
principalmente, com a nova história em fase de criação por Ford, Cullen se
reúne com ele (não sem antes ganhar dicas de Lowe). Segundo ela, o “Conselho”
pode se manifestar a qualquer momento em razão do caos criado no parque pela
nova trama de Ford. O que testemunhamos, a partir daí, é uma demonstração
próxima da divindade por parte de Ford (com o direito de começar sua fala por
In the beginning…“). O
criador de Westworld, com o poder de parar os Anfitriões a bel prazer, mostra a
Cullen que nem ela nem os “endinheirados” têm noção do que é aquele
local: “you didn’t understand what
you were paying for.
It’s not a business venture, not a theme park, but an
entire world
“. Um
mundo em que Ford é onipotente, que conhece todas as informações não só sobre
Anfitriões, mas sobre Visitantes e empregados. É, portanto, melhor que Cullen e
o Conselho não se coloquem em seu caminho.
Em Sweetwater,
Maeve continua sua confusão mental, provocada por lembranças do serviço de
manutenção do parque. Ela está fixada na imagem de um homem de capacete – uniforme
dos técnicos de Westworld, o que é agravado pela descoberta de que os índios
locais cultuam a mesma figura como a dos emissários que estão “entre
mundos”, enviados do inferno, mestres que “manipulam” vidas. Sua
obsessão pelo assunto a leva, com a ajuda de Escaton, a perfurar seu abdômen e
encontrar um estilhaço em um local no qual se lembrada de ter sido alvejada em
outra de suas “vidas”. Com a comprovação de sua teoria, qual será o
destino de Maeve?  A primeira reação é a do niilismo: “I’m not crazy after all, and that none
of this matters
“.
Em Psicologia,
a teoria da dissonância cognitiva, de modo simplificado, fala da necessidade do
ser humano de encontrar consistência e continuidade entre seu conhecimento,
suas opiniões e suas crenças. Quando uma pessoa descobre que existe conflito
entre as atitudes ou comportamentos que acreditam ser corretos e o que de fato
praticam ocorre a dissonância. Além de explicar muito do Brasil dos últimos
tempos, a escolha do título do episódio refere-se, de imediato, ao processo
pelo qual passam os Anfitriões (em especial Dolores e Maeve), mas também ao
próprio espectador, que, graças à teia criada pelos roteiristas, não consegue
ainda ter certeza sobre coisa alguma na série.
 
O que mais
chama atenção nesse quarto episódio é a abundância de referências bíblicas.
Além do discurso de Ford, temos a Anfitriã mais antiga do parque em busca do
conhecimento, que pode levar a liberdade. Dolores é nossa Eva. A cobra de
Armistice como caminho para o conhecimento do Homem de Preto reforça a
simbologia. Resta saber o que existe para além do Éden que é Westworld – onde aos
Visitantes tudo é permitido (talvez com a exceção do verdadeiro
conhecimento…).
Ao deixar a
entender que pretende “libertar” Lawrence, estaria o Homem de Preto revelando
que quer libertar todos os Anfitriões (“You’ve
always been a prisoner.
What if I told you I’m here to set you free?”?  Nesse
caso, o que seria essa “liberdade” (da qual igualmente fala Lowe a
Dolores)?  Do ponto de vista dos robôs, o
Homem de Preto passaria a ser o “herói” da série, que, qual Teseu,
percorreria o labirinto para acabar com os sacrifícios demandados, loop a loop, pelo Minotauro-Ford.
Westworld
continua brincando com a percepção dos espectadores e parece ter muito mais
camadas narrativas do que se poderia imaginar.
por D.G.Ducci, com dicas de Maurício Costa
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