O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (2016) – CRÍTICA

Gênero: Fantasia
Direção: Tim Burton
Roteiro: Jane Goldman
Elenco: Asa Butterfield, Eva Green, Ella Purnell, Terence Stamp, Judi Dench, Samuel L. Jackson, Aiden Flowers, Allison Janney, Chris O’Dowd, Rupert Everett,, Kim Dickens, Ella Wahlestedt, Finlay MacMillan, Georgia Pemberton, Hayden Keeler-Stone, Lauren McCrostie, Milo Parker, O-Lan Jones, Pixie Davies, Rafiella Brooks,  
Produção: Jenno Topping, Peter Chernin
Fotografia: Bruno Delbonnel
Montador: Chris Lebenzon
Trilha Sonora: Michael Higham , Matthew Margeson
Duração: 127 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 29/09/2016 (Brasil)
Distribuidora: Fox Film
Estúdio: Chernin Entertainment / Tim Burton Productions
Classificação: 12 anos
Sinopse: O jovem Jacob investiga o passado de seu avô e descobre o Lar da Srta.Peregrine para Crianças Peculiares, dotadas de habilidades surpreendentes.
Nota do Razão de Aspecto:
Criticar um filme baseado em um livro que não se leu traz a desvantagem impossibilitar uma avaliação sobre a qualidade de sua adaptação para as telas (esquecendo aqui qualquer paranoia sobre fidedignidade). Por outro lado, oferece a terra fértil de não trazer qualquer expectativa a priori. Em “O lar das crianças peculiares”, o cineasta Tim Burton adapta para as telas o romance “O orfanato da Srta.Peregrine para crianças peculiares”, primeiro livro de uma trilogia (até o momento) escrita pelo norte-americano Ransom Riggs.
Na trama, após a morte de seu avô Abe, em estranhas circunstâncias, o jovem Jacob viaja até o País de Gales (<suspiro de amor por Gales>) com o objetivo de conhecer o orfanato sobre o qual tantas histórias eram contadas em sua infância:  uma casa que acomodava crianças com características muito… peculiares: uma jovem que tinha de usar sapatos de chumbo para não sair voando; um menino dentro do qual viviam milhares de abelhas; uma menininha mais forte do que dez homens, e por aí vai. Todas elas cuidadas pela Srta.Peregrine, capaz de se transformar em ave.
É claro que Jacob encontrará o local, e irá interagir com a Srta.Peregrine e com os Peculiares. Ele aprenderá também mais sobre o passado de seu avô, sobre loopings temporais, e sobre os Etéreos – peculiares capazes de fazer experiências medonhas em busca de seus objetivos – numa das várias referências ao nazismo que permeiam todo a obra.
Burton é um cineasta cuja carreira evoca muito mais o deleite visual do que propriamente filmes com roteiros espetaculares. Possivelmente com a exceção de “Peixe Grande”(2003), filme genial no todo, o brilhantismo de Burton está mais ligado à capacidade de criar uma espécie de estética gótica atualizada, que evoca ao mesmo tempo a fantasia e a escuridão, a cor e sua ausência, o lirismo e o terror.
Aqui, o diretor não foge a regra: Com um domínio e uma certeza cada vez maior em mostrar a beleza no estranho, no sinistro, no incomum. Assim como em “A noiva cadáver” (2005), o mundo “normal” ganha uma paleta acinzentada e sem graça, enquanto a cor e a alegria sincera estão reservadas para o ambiente do diferente, do incomum, do incompreendido. É uma enorme carreira falando sobre pertencimento. 

E é impressionante que, mesmo trabalhando com diretores de fotografia diferentes ao longo da carreira, Burton consiga imprimir uma assinatura visual tão sua em seus filmes (resultado, entre outras coisas, da décima-primeira parceria com a figurinista Collen Atwood). Por falar em parceria, este é apenas o terceiro filme de Burton sem trilha sonora de Danny Elfman.

Nesse intento, Burton reúne um elenco caprichado:  Asa Butterfield (de “Hugo” e “Ender’s Game”), Terence Stamp, Lady Judi Dench, Rupert Everett, Samuel L. Jackson e uma trupe de atores jovens e mirins que dão conta do recado (com a exceção, talvez, de Finlay MacMillan, careteiro demais como Enoch, peculiar capaz de dar vida a bonecos inanimados). A alma do elenco, entretanto, é Eva Green, a Srta.Peregrine.

Green retoma a pegada da Srta. Yves da primeira temporada de Penny Dreadful (leia a crítica aqui): uma mulher inglesa misteriosa, cheia de segredos, que mistura sentimentos de disciplina e carinho pelas crianças. Ela se encaixa perfeitamente no tipo de “musa”de Burton: em momentos bela, em outros esquisita – seguindo as pegadas de Winona Ryder, Christina Ricci e Helena Bonham-Carter.
Por outro lado, os Etéreos são liderados por Baron, um Samuel L.Jackson absolutamente afetado, que destoa demais do filme, e que não consegue – por problemas dele e do roteiro – construir um antagonista realmente amedrontador. Jackson tem seu fã-clube automático, mas é inegável que já está se esgotando a capacidade de fazer vilões/codjuvantes malas metidos a engraçados. Aqui, ele repete o cacoete da língua presa de Kingsman (2014), e soa repetitivo, em seu oitavo filme em dois anos. Não há motherfucker jedi que dê conta.

“Parem de me escalar por uns teeeeeemposss !!!!”
Um segundo problema do filme diz respeito a seu equilíbrio:  mais da metade do filme é dedicado a criar a ambientação, a apresentar a trama básica e os personagens principais – e isso feito com muita explicação nos diálogos e muito pouca ação. A partir de determinados acontecimentos, a ação começa, e já mais para o fim tudo parece um pouco abrupto.
Por fim, parece haver uma certa indecisão sobre o público-alvo do filme: se, por um lado, é um pouco longo e de resolução complicada para uma criança, a parte da ação, especialmente no clímax, é meio bobinha para um adulto. Apesar disso, o deleite visual e o afeto entre os Peculiares – em contraste com a frieza dos adultos do mundo “normal” – garante o interesse.

Não acredite nas comparações com X-Men, embora pareça uma associação óbvia. O filme tem muito menos ação do que a franquia dos mutantes, e dialoga muito mais com a própria carreira de Burton e com filmes que usam a fantasia e a maleabilidade do tempo como recursos narrativos.
“O lar das crianças peculiares” é um filme visualmente delicioso, mas com problemas de ritmo, e representa um olhar de Burton sobre temas e escolhas estéticas da própria carreira. Meia estrela a mais ou a menos na nota vai depender das peculiaridades do seu gosto pela obra do cineasta. Resta saber se ele voltará para eventuais continuações.
por D.G.Ducci
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