DESERTO É O CAMPEÃO MORAL DO 49º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO.
Júri, crítica e público encerraram o 49º Festival de Brasília divorciados.
Maurício Costa

Os prêmios para “Rifle”, em especial o prêmio da critica, foi justo.
“Rifle” é
um filme perturbador e incômodo, mas que tem uma
linguagem narrativa original.  Não se trata de um
filme para ser campeão de bilheteria, mas de um filme que tem relevância
cinematográfica e que inova na linguagem. “Martírio”, por sua vez, recebeu prêmio
especial pelo grande trabalho no uso de imagens de arquivo sobre a questão indígena.
Prêmio indiscutível.
A premiação do júri,
por sua vez, destoou das expectativas da crítica. “A Cidade Onde Envelheço”,
embora seja um bom filme, sequer é uma narrativa sobre o Brasil, não inova em nada
da linguagem e pouco acrescenta ao cinema brasileiro. Mais destoante ainda
foram as premiações de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante para este filme.
Não existe nível de comparação possível com as atuações de Magali Biff e Cida
Moreira em “Deserto”, seja pela originalidade, seja pelo grau de
dificuldade. O prêmio de melhor direção e de melhor fotografia também destoam,
considerando o quanto “Deserto” é claramente superior na técnica a todos
os outros filmes do Festival, e não somente aos da Mostra Competitiva
Por fim, os quatro prêmios para “O
Ultimo Trago” são inexplicáveis, tamanha a disparidade de opinião entre
público, critica e júri. O filma traz uma narrativa sem nenhuma coerência, com
uma montagem confusa, roteiro fraco e interpretações artificiais. Não há como
concordar com essas escolhas. Citando Pablo Villaça, em sua crítica a
“Cemitério do Esplendor: “Para isso, basta criar algo suficientemente genérico e vazio para permitir que
cada um projete ali o que julga relevante e/ou belo. E quanto aos que descrevem
o que é feito pelo tailandês como um cinema de ´sensações´, só posso responder
que a sensação imperante em sua obra é a de profundo tédio”. No
caso de “O Último Trago”, predomina a irritação. Não se trata de qualquer
problema com o tema do filme – que, segundo a discurso inicial da equipe, é o empoderamento
-, mas, sim, da execução da obra cinematográfica. Todas as questões das
minorias oprimidas são mais bem desenvolvidas e interpretadas em
“Deserto”. Para o Razão de Aspecto, esses dois filem representam os polos
opostos do que significa um filme de arte.
“Deserto”
foi o melhor filme do festival, mas
recebeu apenas o prêmio de direção de arte. O resultado não muda a
qualidade das performances consagradoras da equipe. “Deserto”
encerrou o #FestivalDeBrasíliaDoCinemaBrasileiro
como campeão moral.
Daniel GuilarducciEm um misto de surpresa e decepção, terminou a primeira cobertura do Razão de Aspecto a um festival. Nossa experiência com o 49o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deixou boas lembranças de parcerias (valeu Lucas/Cinem(ação)!), alguns filmes muito bons e a constatação de que o júri do evento tem um viés nem sempre ligado a qualidade cinematográfica dos concorrentes.

Qualquer premiação do público é compreensível. A reação do público é mais emocional, mais apaixonada, e influenciada mais pelos temas/histórias/personagens do que pela análise de como os elementos de criação resultaram naquele produto final.

Não é à toa que, ainda no meio da sessão de “Martírio”, eu cantei a pedra de que seria o vencedor do prêmio do júri popular. É um filme  que traz, possivelmente, o tema social mais importante dentre os concorrentes. Além disso, tem recursos originados por financiamento coletivo e por ONGs, cujos participantes são, por definição, muito engajados aos temas que defendem e capazes de grande mobilização de público.

Do júri se esperaria, entretanto, mais análise e menos emoção. A impressão geral é que, em muitos casos, premiou-se o tema mais tocante, mesmo que o filme tenha sérios defeitos em sua realização. “Catadores de Histórias” é um desses exemplos. A vida de catadores de lixo, obviamente, toca à audiência menos psicopata, mas o filme é muito fraco, piegas, e sem qualquer inovação em relação ao fazer cinematográfico. Ter “O último trago” – um filme sem pé nem cabeça, com ares, no máximo, de trabalho final de disciplina acadêmica – como um dos filmes mais premiados da noite dá a noção do que foi a noite. Aqui, de novo, um tema socialmente relevante – o empoderamento feminino – levando a um produto final tão pretensioso quanto vazio. E Wenderson Neguinho como ator coadjuvante?  Vejam o filme e me digam se não foi um prêmio dado pela simpatia e não pela atuação. Qualquer ator de qualquer outro longa da Mostra fez um trabalho mais elaborado.

Houve coisas boas, e vou destacar o prêmio para Renato Novais Oliveira como melhor ator, e para a direção de arte para Renata Pinheiro, pelo “Deserto” – filme mais injustiçado da noite, e anos-luz melhor do que muitos dos premiados.

Enquanto isso, me digam, senhores do Júri. Daqui a vinte anos, quando olharmos para traz, será o “A cidade onde envelheço” o filme que desejaremos lembrar?  O que ele nos fala sobre o Brasil? Um filme bom, mas totalmente esquecível, que poderia se passar em Belo Horizonte ou em qualquer lugar. E depois de premiar tantos filmes engajados, dar o prêmio máximo para um filme socialmente inócuo?


Lucas Albuquerque


Foi absolutamente assustador ver filmes como “O Último Trago” e “Catadores de História” levando prêmios e “Deserto”, “Antes o Tempo Não Acabava”, “Cora Coralina”, “Constelações” sendo quase que ignorados.

Alguns filmes marcaram positivamente: “Quando os Dias Eram Eternos” foi exibido no primeiro dia da mostra competitiva e já saímos com a sensação de que estávamos diante do vencedor (que felizmente se confirmou). O curta não deixa em nada a desejar em relação aos curtas do Oscar.

“Solon” foi uma experiência abstrata, ousada e muito bem feita. “Constelações” e “Rosinha” foram dois que me deixaram hipnotizado.

Vários documentários tratando de temas importantes como a questão dos Guarani Kaiowá em “Martírio”, uma atleta apagada pela ditadura em “Procura-se Irenice”, a política externa brasileira em “#EraDosGigantes” e uma preciosidade no documentário encenado “Cora Coralina – Todas as Vidas”.

Pontos negativos: a praça de alimentação tinha poucas opções, houve alguns atrasos nas exibições, fomos agredidos fisicamente, o público se manifestava em horas indevidas e faltou disponibilizar wi fi no local.

Em contrapartida desses percalços, alguns destaques positivos: foi a minha primeira cobertura de Festival e acompanhar a sequência de filmes não foi fácil, porém gratificante. Ver a produção nacional a todo vapor faz muito bem aos amantes da sétima arte.

Além, é claro, do longa “Deserto”. Ver esta obra Prima vale qualquer esforço e vence qualquer cansaço. Beira a perfeição estética e narrativa. Tornar-se-á a síntese do nosso país e referência para os futuros estudiosos. Parabéns Guilherme Webber e equipe pelo trabalho.

Agradeço ao pessoal do Razão de Aspecto pelo convite e vamos esperar uma 50ª edição ainda melhor….


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Confira a lista dos premiados!
PRÊMIOS OFICIAIS
FILME DE LONGA-METRAGEM
Melhor Filme de longa-metragem – R$ 100 mil
A cidade onde envelheço, de Marília Rocha
Melhor Direção – R$ 20 mil
Marília Rocha, por A cidade onde envelheço
Melhor Ator – R$ 10 mil
Rômulo Braga, por Elon não acredita na morte
Melhor Atriz-  R$ 10 mil
Elisabete Francisca e Francisca Manuel, por A cidade onde envelheço
Melhor Ator Coadjuvante – R$ 5 mil
Wederson Neguinho, por A cidade onde envelheço
Melhor Atriz Coadjuvante – R$ 5 mil
Samya de Lavor, por O último trago
Melhor Roteiro – R$ 10 mil
Davi Pretto e Richard Tavares, por Rifle
Melhor Fotografia – R$ 10 mil
Ivo Lopes, por O último trago
Melhor Direção de Arte – R$ 10 mil
Renata Pinheiro, por Deserto
Melhor Trilha Sonora – R$ 10 mil
Pedro Cintra, por Vinte anos
Melhor Som – R$ 10 mil
Marcos Lopes e Tiago Bello, por Rifle
Melhor Montagem – R$ 10 mil
Clarissa Campolina, por O último trago
Prêmio Especial do Júri Oficial:
Pelo rigor na abordagem e contextualização de uma tragédia brasileira que dura séculos, pela emoção no desenho de uma etnia espoliada e desterritorializada, tema da curadoria desse festival, o prêmio especial vai, por unanimidade, para “Martírio”, de Vincent Carelli em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita
FILME DE CURTA OU MÉDIA-METRAGEM
Melhor Filme de curta ou média metragem – R$ 30.000,00
Quando os dias eram eternos, de Marcus Vinicius Vasconcelos
Melhor Direção – R$ 10.000,00
Fellipe Fernandes, por O delírio é a redenção dos aflitos
Melhor Ator – R$ 5.000,00
Renato Novais Oliveira, por Constelações
Melhor Atriz – R$ 5.000,00
Lira Ribas, por Estado Itinerante
Melhor Roteiro – R$ 5.000,00
Fellipe Fernandes, por O delírio é a redenção dos aflitos
Melhor Fotografia – R$ 5.000,00
Ivo Lopes Araújo, por Solon
Melhor Direção de Arte – R$ 5.000,00
Thales Junqueira, por O delírio é a redenção dos aflitos
Melhor Trilha Sonora – R$ 5.000,00
Dudu Tsuda, por Quando os dias eram eternos
Melhor Som – R$ 5.000,00
Bernardo Uzeda, por Confidente
Melhor Montagem – R$ 5.000,00
Allan Ribeiro e Thiago Ricarte, por Demônia – Melodrama em 3 atos
Premio Especial do Júri
Estado Itinerante, de Ana Carolina Soares
PRÊMIO DO JÚRI POPULAR
filmes escolhidos pelo público, por meio de votação em cédula própria:
Melhor Filme de longa-metragem – R$ 40 mil
Martírio, de Vincent Carelli em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita
Melhor Filme de curta ou média-metragem – R$ 10 mil
Procura-se Irenice, de Marco Escrivão e Thiago Mendonça
OUTROS PRÊMIOS
TROFÉU CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL – JÚRI OFICIAL
Melhor Filme de longa-metragem: R$ 80 mil
Catadores de história, de Tânia Quaresma
Melhor Filme de curta-metragem: R$ 30 mil
Rosinha, de Gui Campos
Melhor Direção: R$ 12 mil
Vladimir Carvalho, por Cícero Dias, o compadre de Picasso
Melhor Ator: R$ 6 mil
Edu Moraes, de A repartição do tempo
Melhor Atriz: R$ 6 mil
Maria Alice Vergueiro, de Rosinha
Melhor Roteiro: R$ 6 mil
Vladimir Carvalho, por Cícero Dias: o compadre de Picasso
Melhor Fotografia: R$ 6 mil
Waldir de Pina, de Catadores de história
Melhor Montagem: R$ 6 mil
Marcius Barbieri, Rafael Lobo e Santiago Dellape, por A repartição do tempo
Melhor Direção de Arte: R$ 6 mil
 Andrey Hermuche, de A repartição do tempo
Melhor Edição de Som: R$ 6 mil
Micael Guimarães, de Cora Coralina – todas as vidas
Melhor Trilha Sonora: R$ 6 mil
Dimir Viana, André Luiz Oliveira, Renato Matos, Claudio Vinícius e GOG, por Catadores de história
TROFÉU CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL – JÚRI POPULAR
Melhor filme de longa-metragem: R$ 20 mil
Cora Coralina – todas as vidas, de Renato Barbieri
Melhor filme de curta-metragem: R$ 10 mil
Das raízes às pontas, da diretora Flora Egécia
PRÊMIO ABCV – ASSOCIAÇÃO BRASILIENSE DE CINEMA E VÍDEO
Conferido pela ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo a profissional do audiovisual do Distrito Federal
Mallu Moraes (atriz)
PRÊMIO CANAL BRASIL
Cessão de um Prêmio de Aquisição no valor de R$ 15 mil e o troféu Canal Brasil
Melhor Filme de curta-metragem selecionado pelo júri Canal Brasil
Filme: Estado itinerante, de Ana Carolina Soares
PRÊMIO ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema)
Melhor Filme de longa-metragem
Pela hábil conexão entre a gramática do documentário e da ficção. Pelo retrato que conjuga a perspectiva de um personagem com as transformações de um Brasil rural. Pela apropriação original da estética do western e o uso potente do som.
Filme: Rifle, de Davi Pretto
Melhor Filme de curta-metragem
Pela sensibilidade na forma com que filma os espaços urbanos. Pela qualidade do trabalho das atrizes, com experiência profissional ou não. Pela forma com que retrata uma violência física e simbólica, valorizando o que está fora de quadro.
Filme: Estado Itinerante, de Ana Carolina Soares.
PRÊMIO SARUÊ
Conferido pela equipe de cultura do jornal Correio Braziliense
No apanhado de filmes selecionados pelo festival, vimos de catadores de lixo a imigrantes em crise, a questão do empoderamento feminino e de gênero, passando por índios batalhadores e artistas órfãos de público. Não faltaram também a disputa pela terra e os cubanos num país em transição. Foi, entretanto, outro grupo de excluídos que chamou a atenção da equipe do Correio: o mérito de melhor momento do festival agrupou libertários representantes da terceira idade, com enorme capacidade de amar, de resistir ao descaso social.
Gui Campos, pelo curta Rosinha!
PRÊMIO MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES
Conferido pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro para o filme que melhor utilizar material de pesquisa cinematográfica brasileira
Filme:  Martírio, de Vincent Carelli em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita
PRÊMIO CONTERRÂNEOS
Troféu oferecido pela Fundação CineMemória
Melhor Documentário do Festival
Filme: Vinte anos, de Alice Andrade

 

E que venha a 50ª edição do Festival! 2017 nos espera!
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