49o FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO – DIA 4
O quarto dia do Festival de Cinema de Brasília (terceiro da Mostra Competitiva) foi também o último dia da Mostra “A Política no mundo e o mundo da política”. Por limitações de pessoal, o Razão não teve condições de cobrir todos os selecionados dessa Mostra. Mas vamos ao menos para dois deles.

Os últimos dois filmes da mostra foram “A cidade do futuro”, de Cláudio Marques e Marília Hughes, e “Entre os homens de bem”, de Caio Cavenchini e Carlos Juliano Barros.  Durante a exibição de “Entre os homens de bem” o Festival pode contar com a presença do Deputado Jean Wyllys, personagem central desse documentário.

A CIDADE DO FUTURO

Dos mesmos diretores de “Depois da chuva”, “A cidade do futuro” relata a história de três jovens que vivem em uma cidade do norte da Bahia, e são rejeitados pela comunidade local por causa do preconceito com a sexualidade deles. Temos um casal de homens homossexuais e uma mulher bissexual que está grávida do filho de um deles. Eles tentam construir um núcleo familiar em comum, mas sofrem pressões externas e internas.

Aniello Greco:

O filme se destaca pela sensibilidade e delicadeza em que aborda os três personagens principais, ao mesmo tempo em que não tem pudor em mostrar cenas claras da sexualidade de cada um deles. O retrato do preconceito vindo tanto dos outros como em parte deles mesmos é bem comovente e realista. Contudo, as interpretações são um tanto fracas, e temos também uma discussão quanto a história da cidade onde o filme se passa, criada via migração forçada para a construção da barragem de Sobradinho na época da Ditadura Militar, que não consegue se inserir na trama dos protagonistas.  Então temos um filme que levanta dois temas em paralelo, ambos interessantes e dramáticos, mas sem convergir e dar unidade ao filme. Nota: 3/5

ENTRE OS HOMENS DE BEM

É um documentário que acompanha a carreira política de Jean Wyllys nos seus dois mandatos de Deputado Federal pelo estado do Rio de Janeiro, enfocando principalmente sua relação com os auto-intitulados “homens de bem”, principalmente as bancadas evangélica e ruralista. 

Aniello Greco:

Jean Wyllys é uma das figuras políticas no Brasil em que é quase impossível ser indiferente a ele. A maioria ou o ama ou o odeia. Em termos de gostar ou não deste documentário, tudo vai depender desta questão, pois em nenhum momento o filme esconde sua simpatia pelo Deputado Federal, e em nenhum momento os diretores optaram por dar um ar de neutralidade. Isso por mim é um mérito, uma escolha clara, feita para polemizar e defender seu ponto. Gostando ou não de Jean Wyllys, é inegável que é uma figura carismática, e esta é a principal força do documentário: o personagem principal sabe usar a câmera em seu favor. Contudo, o fluxo narrativo do filme é fragmentado, em parte por opção dos diretores, que não tentam construir propriamente uma narrativa. Com isto o filme se torna um tanto repetitivo em seus temas. Além disto há pouco conteúdo novo, próprio, e não se mostra um ângulo diverso sobre a questão além daqueles já expostos na mídia pró ou contra o deputado. Devido a isto, é um filme cansativo e dispensável. Nota: 2,5/5


MOSTRA COMPETITIVA

A mostra competitiva teve duas sessões. Na primeira sessão foram exibidos o curta-metragem “Solon”, de Clarissa Campolina, e o longa “O último trago”, de Luis Pretti, Pedro Diogenes, e Ricardo Pretti. Encerrando o dia tivemos a exibição do curta “Constelações”, de Maurílio Martins, e do longa “A cidade onde envelheço”, de Marília Rocha.

SOLON

Um curta alegórico que aborda a relação entre o homem e o meio-ambiente, e tenta sonhar com um mundo sustentável. O filme começa com uma criatura meio monstro, meio humano, interagindo com um ambiente árido e estéril. A medida que a criatura aprende a se mover, água começa a jorrar de seus membros, trazendo vida ao ambiente e transformando a criatura em uma mulher.



Aniello Greco:

A escolha do título parece ser uma referência ao filósofo e poeta grego Solon, que defendia que a arrogância e ganância dos cidadãos da Grécia teriam escravizado Gaia. Solon defendeu reformas políticas, econômicas e morais na cultura grega, buscando um estilo de vida mais democrático e harmônico. O primeiro impacto visual é bem forte, me relembrando o polêmico filme “Beggoten”, porém não tão violento. Infelizmente o impacto visual se perde um pouco quando a câmera se aproxima da criatura, pois o estranhamento visual criado pelo traje diminui quando percebemos claramente que há um humano por debaixo dos panos. A transformação da criatura em mulher é bem feita, e a transição do deserto ígneo para oceano convence. A fotografia da primeira parte do filme e a coreografia da criatura são realmente muito bonitas. Infelizmente o filme se alonga um pouco demais para pouco conteúdo, se tornando um tanto cansativo. Mas ainda assim, um belo curta. Nota: 4/5




Maurício Costa:


Curta metagrem alegórico bem executado. 3,5/5

O ÚLTIMO TRAGO

Uma alegoria sobre o empoderamento feminino, que contra a história de diversas mulheres em um ambiente dominado por homens, tendo em comum a figura de uma indígena de nome Valéria.

Aniello Greco:


É difícil redigir uma crítica elaborada quando o crítico realmente detesta tanto o que vê na tela. Mas apesar dos enormes defeitos, “O último trago” carrega algumas qualidades que merecem destaque. Há um cuidado com a fotografia e também há uma clara dedicação emocional nos envolvidos com o filme. Infelizmente isto gerou um conjunto de alegorias desconexas, de monólogos pretensiosos e artificiais, e de excesso de arroubos criativos que se transformaram em uma “viagem na maionese” que acaba por perder o espectador e fazer com que rejeitemos qualquer mensagem que tentassem transmitir. Teatral, artificial e planfetário, mas o pior de tudo, pretensioso demais para conteúdo de menos. Nota: 1/5

Lucas Albuquerque – convidado do Cinem(ação)


O “Último Trago” tem uma proposta muito peculiar, experimental até. Não é um filme para ser entendido para além da mente do diretor. Há algumas cenas oníricas, psicodélicas ou só desconexas mesmo. Apesar de mostrar uma consciência no uso da câmera, linguagem cinematográfica e fotografia O Último Trago tem graves problemas narrativos. A cada minuto fica mais intragável e nem dá para dizer que perdeu o foco, pois parecer nunca ter tido. O simbolismo cede lugar a um filme vazio e que grita o tempo todo, sem nunca ser efetivo na mensagem. O pior filme da mostra e um dos piores de 2016. Nota: 1/5 (com um gostinho de meia)     

Maurício Costa:


Embora o filme comece com uma montagem interessante, a total falta de foco e de sentido o fazem fracassar miseravelmente como narrativa. 1/5




CONSTELAÇÕES


Duas pessoas de universos completamente diferentes se encontram em seu desespero e depressão. Um homem negro brasileiro, de origem humilde, dá carona a uma dinamarquesa que não fala português. Mas eles tem muito mais em comum do que as aparências mostram.

Aniello Greco:

Excelente curta-metragem, que aborda um tema delicado de forma muito sensível e tocante. O baixo orçamento com certeza foi um desafio, mas o excelente roteiro, os dois monólogos que constituem o centro do filme, e o impacto da cena final mais que compensam os limites em questão de iluminação, fotografia e limitações de equipamento. A câmera parada, estática, focando os dois atores sentados no carro, durante quase todo filme, pode incomodar alguns, bem como a suspensão de descrença quanto a como e porque os dois monólogos ocorrem de forma a gerar um quase diálogo. Mas esta é a proposta do filme e são dificuldades necessárias para fazer o desfecho impactante. Nota: 4/5




D.G.Ducci:


Um curta, acima de tudo, forte do ponto de vista emocional. Renato Novais Oliveira, que interpreta o protagonista, tem a melhor interpretação até agora dentre as obras do Festival. Lembra um pouco a temática de “Lost in translation“, mas de forma mais aguda e dolorida. Os planos muito longos e estáticos criam tensão, mas roubam um pouco do ritmo. Nota: 4/5


Maurício Costa:


Excelente curta metragem. Uma narrativa que mostra como a sensibilidade e a empatia independem de origem, cor, gênero ou classe. Melhor roteiro ate o momento, embora ainda não supere como filme o curta “Quando os dias eram eternos”. Nota: 5/5


A CIDADE ONDE ENVELHEÇO

Uma história sobre duas migrantes portuguesas residentes em Belo Horizonte, a amizade entre elas e a dificuldade de viver longe de sua terra natal.

Aniello Greco:

O ponto forte do filme são os excelentes diálogos, que conseguem dar uma naturalidade as cenas impressionante, tornando até mesmo conversas sobre os azulejos de um banheiro em algo interessante e ao mesmo tempo importante para a construção dos personagens. A interpretação das duas atrizes portuguesas está ótima, e a diferença entre elas e seus amores e amizades com brasileiros dá o distanciamento e a saudade que acabam por servir de união entre as duas portuguesas. Um filme fácil, agradável, despretensioso e simples, sem grandes mensagens, com uma ótima história. O que me faz pensar: será que é um filme para o Festival de Brasília? Mas de qualquer forma é o melhor longa que vi até o momento neste festival. Nota: 4/5.


D.G.Ducci:
Se “Constelações” foi sobre pessoas que não falam a mesma língua mas acabam se encontrando, “A cidade onde envelheço” fala um pouco sobre duas pessoas de mesmo idioma, mas que nem sempre conseguem estabelecer uma comunicação ideal. As duas atrizes portuguesas que protagonizam o filme (Elizabete Francisca e Francisca Manuel) conseguem dar total veracidade e naturalidade às relações de suas personagens. A amizade, o distanciamento, as distâncias (físicas e psicológicas) e as proximidades. O melhor do filme está nos diálogos, naturais e, quando cabível, divertidos. Mas há cenas meio desnecessárias e óbvias na construção das personagens, e a cena final traz uma metáfora bem óbvia e pouco criativa. Nota 3,5/5

Lucas Albuquerque:
“A cidade onde envelheço” traz protagonistas simpáticas, leveza na abordagem dos temas (amizade, choque cultural, descoberta) e diálogos afiados e reflexivos – à la Gilmore Girls“ou um Nelson Rodrigues sub 14. É parceria entre Minas Gerais e Portugal, mas tem uma cara que mistura cinema argentino e francês. Tecnicamente vale o destaque para a trilha diegética, mas basicamente só. Muito água com açúcar e até esquecível, porém gerando uma agradável sessão. Nao à toa foi, até agora, o longa mais palatável da Mostra Competitiva. Vale ser visto, todavia dificilmente revisto. Nota: 3/5

Maurício Costa:


Um filme sensível sobre encontros e desencontros, mas não é um filme sobre o Brasil. Não tem a cara e a expressão do Festival de Brasília. Nota: 4/5
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