AQUARIUS (2016) – CRÍTICA
Gênero: Drama
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Buda Lira, Carla Ribas, Daniel Porpino, Fernando Teixeira, Humberto Carrão, Irandhir Santos, Julia Bernat, Maeve Jinkings, Paula De Renor, Pedro Queiroz, Rubens Santos, Sonia Braga, Thaia Perez
Produção: Emilie Lesclaux, Michel Merkt, Saïd Ben Saïd
Fotografia: Fabrício Tadeu, Pedro Sotero
Duração: 142 min.
Ano: 2016
País: Brasil / França
Cor: Colorido
Estreia: 01/09/2016 (Brasil)
Distribuidora: Vitrine Filmes
Estúdio: Cinemascópio Produções / SBS Productions
Sinopse: Clara vive sozinha num apartamento à beira-mar do prédio Aquarius. Ela já se recuperou de um câncer, tem uma vida estabilizada como crítica de música e como mãe de três filhos. Entretanto, sua vida sossegada pode estar com os dias contados depois que uma empreiteira compra todos os apartamentos e tenta convencer Clara a vender o seu. Ela se nega, mas não sabe a dor de cabeça que isso lhe dará.
Nota do Razão de Aspecto:
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Aquarius tem sido muito discutido pela repercussão das posições políticas do diretor Kleber Mendonça Filho e de sua equipe. Seja pelo chamado ao boicote, promovido pelos apoiadores do processo de impeachment, seja pelo chamado a apoiar o filme, promovido pelos atuais oposicionistas, a polêmica em torno do filme tem pouca relação com seus méritos ou deméritos cinematográficos. A discussão sobre se devemos, ou não, julgar a obra pelo autor renderia uma texto específico, por isso, vou-me resumir a afirmar que minha opção é a de julgar apenas a obra. Deixarei minhas simpatias ou antipatias políticas fora deste texto – pelo menos na medida do possível, considerando que toda opinião tem fundo político, intencional ou não intencionalmente.
Como obra cinematográfica, Aquarius é um filme para marcar época, para fazer escola, para tornar-se uma das mais importantes realizações do cinema brasileiro. Depois do maravilhoso O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho comprova ter domínio total, completo e absurdo da linguagem cinematográfica, com um roteiro sofisticado, direção sutil e, ao mesmo tempo, sempre presente, e um desenvolvimento narrativo envolvente.
Com uma narrativa simbólica, Aquarius nos mostra como tempo, espaço, memória e subjetividade se misturam. Clara é o seu apartamento, o apartamento é Clara, Clara e o apartamento são as memórias, boas e más, daquele lugar, cada um deles é um ente autônomo, mas, simbolicamente, formam o mesmo corpo e a mesma história de vida.  O equilíbrio é perdido quando há intervenção naquele espaço simbólico: a construtura que pretende derrubar o prédio e construir uma versão moderna dos espigões à beira-mar.
Aquarius é um filme sobre a geografia do espaço. Nesse ponto, trata-se de um filme que representa  o conceito de Milton Santos de que o espaço é a acumulação desigual de tempos. Se, para Milton Santos, a acumulação desigual de tempos se refere ao resultado intervenção humana no território – representada, no filme, pelo avanço da construtura e da especulação imobiliária -, Kleber Mendonça Filho dá um novo sentido a esse conceito, ao tratar da acumulação desigual de tempos no espaço interior, naquele espaço da subjetividade, no qual se misturam presente, passado e futuro nas memórias e nos traumas relacionados ao lugar. Enquanto o tempo avança sobre o espaço físico, ele é contido, ou, quem, sabe, retraído no espaço interior da protagonista, o que resulta em um conflito intenso e, ao mesmo tempo, comovente.
Nesse embate entre o espaço exterior e o espaço interior, o filme desenvolve uma narrativa simbólica: a memória é representada por uma cômoda, que se torna referência ao sexo e ao prazer, o tempo é representado pela fotografia, que, em diversos planos, mostra os diferentes tempos do mundo e da protagonista no mesmo espaço, o espaço é representado pelo prédio, Aquarius, e a subjetividade é representada pela autoimagem de Clara e por seus fantasmas do passado.
Aquarius surpreende, porque toda essa complexidade temática, narrativa e simbólica é executada de forma sutil e compreensível a qualquer espectador. Nenhum aspecto do filme é ininteligível, incompreensível ou incoerente. Além disso, o filme não se torna chato por um segundo sequer: Kleber Mendonça Filho consegue construir uma atmosfera de tensão crescente com os mais diferentes conflitos: os familiares, os de classe, os geracionais, os econômicos e os interiores. Neste ponto, Aquarius é superior a O Som ao Redor.
Por fim, Sônia Braga está exuberante, em uma atuação memorável – uma das melhores de toda a sua carreira. A atriz leva ao público uma personagem complexa, cujos conflitos, contradições e convicções são verossímeis. Trata-se de uma personagem com quem realmente nos importamos.
Aquarius é mais que um filme, é uma obra de arte, um ensaio sociológico e psicológico sobre o Brasil moderno. Um filme obrigatório. Esqueçam as polêmicas extra filme e aproveitem a experiência. Se este não for o filme indicado para concorrer ao Oscar pelo Brasil, a razão terá sido política, e não artística. Nenhum filme brasileiro da última década se compara a Aquarius.
por Maurício Costa
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