PORQUE O BEN-HUR DE 2016 NÃO É UM REMAKE





Gênero: Drama

Direção: Timur Bekmambetov
Roteiro: John Ridley, Keith R. Clarke
Elenco: Alan Cappelli Goetz, Ayelet Zurer, David Walmsley, Haluk Bilginer, Jack Huston, Julian Kostov, Marwan Kenzari, Moises Arias, Morgan Freeman, Nazanin Boniadi, Pilou Asbæk, Rodrigo Santoro, Sofia Black-D’Elia, Toby Kebbell, Yasen Atour
Produção: Duncan Henderson, Joni Levin, Mark Burnett, Sean Daniel
Fotografia: Oliver Wood
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 18/08/2016 (Brasil)
Distribuidora: Paramount Pictures
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Paramount Pictures / Sean Daniel Company
Sinopse: A família Ben-Hur, membros da aristocracia judaica na Jerusalém bíblica, acolhem o romano Messala como um de seus membros. Contudo o destino de Judah Ben-Hur, o primogênito, entre em conflito direto com o destino de seu irmão adotivo. Judah é acusado injustamente pelo próprio irmão de traição e Roma, levando ele a escravidão e sua família a ruína. Mas Judah Ben-Hur fará de tudo para conseguir reconquistar o que lhe é de direito.

Nota Razão de Aspecto:

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As décadas de 1950 e 1960 foram pródigas para filmes épicos religiosos. Em menos de vinte anos, filmes como Quo Vadis (1951), Os dez mandamentos (1956 – não, não é o spin off da novela), Rei dos Reis (1961), A maior história de todos os tempos (1965) e outros menos conhecidos marcaram seu lugar na história do cinema. Dessa época, o mais famoso e premiado foi Ben-Hur (1959, cuja crítica do Razão você pode ler aqui), que ganhou onze estatuetas do Oscar, número igualado, mas não ultrapassado até hoje.

Com todo este passado, a pergunta que todos faziam antes de assistir a quarta versão de Ben-Hur para o cinema (sem falar na série para TV e na animação) era “qual a necessidade de se fazer um remake, em especial se considerarmos que o filme de 1959 continua atual e presente”?

A pergunta tem seus méritos, mas o fato é que o filme de Bekmambentov (diretor de “Guardiões do Dia” e “Guardiões da Noite”) não é um remake do clássico de 1959, e sim uma nova adaptação do romance de Lew Wallace, lançado em 1880. Isto dá um certo fôlego para o filme atual não naufragar diante do peso enorme que é competir com um dos melhores e mais aclamados filmes da história do cinema. Apesar da carruagem do novo filme não capotar, ainda assim o clássico chega com folga na frente.
Mas para o espectador realmente apreciar o novo, tem que esquecer um pouco o velho. O Ben-Hur de Bekmambentov não é um épico, e sim um drama de ação. Nada no filme é tão grandioso, intenso e e exuberante quanto no seu famoso ancestral. E há uma mudança forte na temática do filme, em especial na resolução do conflito central entre Judah e Messala.

A modernização se faz sentir para o bem e para o mal. Temos um roteiro menos ingênuo, temos um Messala mais complexo, a ponto de nos identificarmos um pouco com sua raiva contra Judah. Temos um melhor entendimento de como os romanos pensam. O visual do filme ficou mais “sujo”, sem o brilho pasteurizado dos cenários de 1959. Mas a dimensão menor dos cenários, das tomadas, e a narração retiram bastante da dimensão dos personagens. Judah Ben-Hur deixa de ser a representação do mundo judeu em colapso com Roma e o surgimento do cristianismo e passa a ser uma figura humana em conflito com seu mundo.
A direção de Bekmambentov é bastante competente em prender e cativar o espectador, mas não tão eficiente nas cenas de ação, que abusa da câmera nervosa e dos cortes rápidos, fazendo com que muitas vezes o que acontece na tela não fique tão claro assim. Funciona para causar tensão, mas também causa certa confusão visual. Isto é especialmente notável na cena da corrida de cavalos no circo, que ficou mais acrobática e exagerada que a do filme de 1959, mas mais confusa e menos tensa.

Não temos neste filme grandes atuações. Jack Houston (American Hustle) não foi a escolha mais feliz para o papel principal e, apesar dele não cometer nada grave, não consegue ter a energia e o ódio necessários ao personagem. Toby Kebbel (Planeta dos Macacos: o confronto) tem a melhor atuação do filme, mas nada brilhante, e Morgan Freeman (Seven) é o destaque negativo. Além do visual de Ilderim ter ficado bem questionável, o público já viu filmes suficientes com o Morgan Freeman fazendo o velho calmo e sábio com voz penetrante e tranquilizadora.  Rodrigo Santoro (300) é um Jesus convincente para a história, mas o papel é pequeno demais para podermos comentar mais que isto.

A parte religiosa é menos presente que no filme de 1959, mas ainda é um dos fios condutores, de forma sutil, na maior parte do tempo. Algumas falas foram dadas ao personagem Jesus, e há um debate entre as visões romana, judaica e cristã, em especial no início do filme, que dão uma dimensão a mais para a resolução final entre Judah e Messala. Contudo, ao optar por menos cenas religiosas, o impacto da subtrama ligada à lepra ficou menor, e a resolução desta subtrama fica um tanto irrelevante e gratuita. Em nada ajuda a opção por usarem a voz de Morgan Freeman em uma narrativa em off para explicar e contextualizar este subplot, em especial por não ser uma narrativa cabível ao personagem Ilderim.
De qualquer forma, os méritos do filme superam seus problemas. Temos uma história forte e dramática, conflitos intensos e personagens que crescem e se modificam com a história. E é isto no final das contas que um bom drama tem a oferecer: uma história envolvente e comovente, e se possível, profunda. E o novo Ben-Hur nos oferece isto, não como um novo épico, mas em uma narrativa mais pessoal, porém ainda forte.

por Aniello Greco
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