Gênero: Drama
Direção: Alceu Valença
Roteiro: Alceu Valença
Elenco: Ary de Arimatéia, Charles Teony, Hélder Vasconcelos, Hermila Guedes, Irandhir Santos, Khrystal, Servilio Horlanda
Produção: Tuinho Schwartz, Yanê Montenegro
Fotografia: Luís Abramo
Montador: Tuco
Trilha Sonora: Alceu Valença
Duração: 97 min.
Ano: 2014
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 24/03/2016 (Brasil)
Distribuidora: Tucumán Filmes
Estúdio: Focus Films / MV Produções
Classificação: 14 anos
Informação complementar: Longa-metragem de estreia do cantor e compositor Alceu Valença.
Nota do Razão de Aspecto:

O sertão figura profusamente em nosso cinema: “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, “Mandacaru Vermelho” (1961) e “Vidas Secas” (1963), ambos de Nelson Pereira dos Santos, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha, “Guerra de Canudos” (1997) e “Abril Despedaçado” (2001) saltam à memória. Tantas vezes retratamos o sertão que até se cunhou o neologismo nordestern, mistura estranha de “Nordeste” com western, para nomear nossos faroestes transplantados para a caatinga dos anos 50 a 70. Honrando o neologismo hollywoodiano, a maioria dessas fitas não fugia muito do esquema bandido-mocinho, representado pela díade cangaceiro-volante e temperado por retirantes, alguma crítica social e planos praticamente intermináveis de mandacarus e xique-xiques ardendo sob o sol inclemente.
Corta para 1996. Em Pernambuco, surge “O Baile Perfumado”, filme saído da ressaca do movimento manguebit e que inaugurou nova estética para o sertão no cinema brasileiro. Saíam de cena os travellings melancólicos da caatinga e a viola triste do retirante, entrava a guitarra nervosa dos mangueboys e a edição frenética dos videoclipes. Do filme dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas nascia uma nova paleta e uma nova trilha sonora para o semi-árido brasileiro, sem negar as origens mas tingindo-as de nova cor e linguagem. Curiosamente, o roteiro do “Baile” parte do que é um dos primeiros registros do sertão em nossas telas – a histórica filmagem que o caixeiro-viajante Benjamim Abrahão realizou de Lampião e seu bando em 1936, as únicas imagens em movimento existentes do cangaceiro – para reinventar a região e sua tradução visual.
Lembro-me, especialmente, dos belos planos do “Baile” que revelavam a nós, espectadores nordestinos porém urbanos, que a caatinga, nos meses de chuva, floresce e enverdece. As injustiças sociais e os desmandos dos coronéis ainda estavam lá, mas, desta vez, o sertão aparecia com novas cores. Essa descoberta do sertão verdejante veio aliada, para mim, aos repentes e desafios que eu ouvia na rua e na televisão; aos folhetos de cordel que eu descobria no centro do Recife; às xilogravuras inventadas e reinventadas pelos gravadores nordestinos. Esses pequenos relicários do tão próximo e tão distante sertão revelaram-me uma região mais lúdica, mais complexa, do que as imagens estáticas de mandacarus em filmes antigos deixavam antever.
Falar do primeiro filme de Alceu Valença, “A luneta do tempo”, é falar desse não-lugar mítico e onírico, um sertão imaginário que desafia estereótipos. É outro sertão verde, ainda mais lírico que o d’”O Baile Perfumado”, detentor de poesia e mística particulares.
“A luneta” é dos filmes mais poéticos de nosso cinema recente. Enquanto grandes filmes brasileiros como “O Som ao Redor” e “Casa Grande” se debruçam sobre questões sociais prementes de nosso tempo, o filme de Alceu segue na contramão. Trata-se de cinema de invenção e criação, em que o enredo não importa muito diante do sentimento lírico provocado pelas imagens. Nesse sentido, “A luneta” filia-se mais aos românticos do cinema údigrúdi dos anos 70, dos indefectíveis Carlão Reichenbach e Ozualdo Candeas, do que ao (excelente) cinema engajado de hoje.
O filme transborda coração, vontade de cantar. E como canta: os personagens-arquétipos d’”A luneta” não falam, recitam; não dialogam, entoam repentes. A primorosa trilha sonora de Alceu, praticamente uma ópera rock-neo-armorial que mereceria ser orquestrada em apresentação própria, é a condutora das imagens, por mais que a fotografia de Luis Abramo nos brinde com um visual correto e condizente com o tom do filme. Encena-se a vida e a morte de Lampião e Maria Bonita na que é provavelmente a mais bela representação cinematográfica do casal cangaceiro, o filme avança e retrocede no tempo para narrar a história de poetas de cordel, violeiros e tenentes de polícia, há muita coisa acontecendo. Os fragmentos de história, porém, mais servem para ilustrar a música do que o contrário. Também servem à música as atuações inspiradas de Irandhir Santos, Hermila Guedes e dos outros atores, mais vasos transmissores dos versos do cineasta-compositor do que artistas em pleno exercício de seu ofício. E tudo bem, pois o resultado é belo, é instigante, é tão idiossincrático quanto um diário íntimo e fascina tanto quanto uma noite no circo. 
“A luneta do tempo” é todo Alceu: uma digressão felliniana pelas memórias de sua cidade natal, a serviço de uma reinvenção criativa da cultura sertaneja. Possível traçar um itinerário sentimental do filme, perpassando Luiz Gonzaga, Ascenso Ferreira, Patativa do Assaré e pelo próprio imaginário do artista, calcado na linguagem circense e nos mitos do Nordeste. Também percorre o filme – e, vale dizer, toda a obra musical de Alceu – o tema da roda perenemente giratória do tempo. Nesse sentido, “A luneta” é irmã de fitas como “Kenoma” (1998) e “Narradores de Javé” (2004) – os dois estrelados, não à toa, pelo magnífico José Dumont, que teria feito bonito se tivesse sido escalado por Alceu -, títulos que, assim como “O Baile Perfumado”, rejeitam os estereótipos para cantar um sertão musical, dinâmico e, por assim dizer, “verde”. Não é filme convencional, diga-se, mas, ainda assim, acessível a todos que topem assistir a obra que rejeita as convencionalidades de um certo cinema brasileiro “de televisão” que tomou conta dos multiplexes. Pelo sertão de Alceu, tudo.

por Diogo Almeida

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