OS OITO ODIADOS
Gênero: Faroeste
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Belinda Owino, Bruce Del Castillo, Bruce Dern, Channing Tatum, Craig Stark, Dana Gourrier, Demián Bichir, Gene Jones, James Parks, Jennifer Jason Leigh, Keith Jefferson, Kurt Russell, Lee Horsley, Michael Madsen, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Walton Goggins, Zoe Bell
Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher
Fotografia: Robert Richardson
Montador: Fred Raskin
Trilha Sonora: Ennio Morricone
Duração: 182 min.
Ano: 2015
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 07/01/2016 (Brasil)
Distribuidora: Diamond Filmes
Estúdio: Columbia Pictures / The Weinstein Company
Sinopse: Em Wyoming, Estados Unidos, após a Guerra Civil norte-americana (1865), um grupo de caçadores de recompensa transporta uma perigosa prisioneira, mas são surpreendidos por uma nevasca e precisam parar em uma estalagem. Isolados e obrigados a conviver por mais tempo do que gostariam, o grupo acaba se envolvendo em uma trama de traição, desilusão e ódio.
Nota do Razão de Aspecto:
 
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Quentin Tarantino nunca fez um filme ruim. Na verdade, ele também nunca fez um filme mediano. Se pensarmos bem, Tarantino nunca fez um filme sequer bom. Todos os seus filmes são, no mínimo, muito bons, e alguns deles se aproximam da genialidade. Os Oito Odiados mantém o nível da produção do diretor e roteirista, mas fica ofuscado pelas realizações imediatamente anteriores de Tarantino: Bastardos Inglórios e Django Livre.  Claro, minha afirmação não significa que Os Oito Odiados seja um filme esquecível ou descartável, mas, em comparação ao histórico de Tarantino, se situa entre o muito bom e o genial, no mesmo nível de excelência de Jackie Brown e Cães de Aluguel. 
 
Tem-se buscado diversas comparações para definir a estrutura de Os Oito Odiados. Algumas pessoas o comparam a Festim Diabólico, outras a Os 7 Suspeitos. A melhor comparação a ser feita vem da própria filmografia de Tarantino: Os Oito Odiados é uma versão western da estrutura de Cães de Aluguel. Se, neste, grande parte da ação se passava dentro de um galpão, após a fuga de um assalto mal sucedido, onde se buscava descobrir quem era o policial infiltrado, em Os Oito Odiados o centro da ação se passa dentro do Armarinho da Minnie, local onde os personagens se encontram presos em função de uma nevasca, quando precisamos descobrir qual dos personagens finge ser quem não é, para libertar a prisioneira interpretada por Jennifer Jason Leigh.
O ponto mais forte do filme está nas atuações, especialmente do núcleo central da narrativa: Samuel “mother fucker” L. Jackson, no papel do Major Marquis Warrens, Kurt Russel, no papel  do caçador de recompensas Jon Ruth, Jennifer Jason Leigh, interpretando a prisioneira Daisy Domergue, e Walton Goggins, como o Xerife Chris Mannix.
Se o quarteto (não fantástico, felizmente, porque o filme foi ainda pior do que seria esse trocadilho) cria personagens tarantinescos carismáticos, não se pode deixar de afirmar que Jennifer Jason Legih rouba a cena, quase literalmente, com uma atuação digna de indicação de premiação como atriz coadjuvante a todo e qualquer prêmio existente ou imaginável na face da Terra. Parece exagero, mas não é – a atriz nos apresenta uma mulher dura e masculinizada, um vilã que não faz uso da feminilidade como forma de sedução. Ela simplesmente parece não se importar com seu destino nem como os maus tratos do seu “carrasco” (neste caso, não literalmente, já que temos um carrasco de verdade nos Armarinhos da Minnie) – e a razão dessa postura de “foda-se” é que dá o mote da narrativa.
Kurt Russel, quem diria, também tem uma atuação digna de Oscar. Sim, é verdade (2016 é um ano no qual podemos ver a estatueta de melhor ator coadjuvante ser disputada por Kurt Russel, Sylvester Stallone e Harrison Ford). O personagem Jon Ruth oscila entre a paranoia, a gentileza e uma brutalidade aparentemente gratuita com sua prisioneira (logo descobrimos que não é tão gratuita quanto pensamos) com verossimilhança.  Walter Goggins cumpre o papel de alívio cômico naquele ambiente claustrofóbico com um Xerife Mannix racista, ex-confederado, com papel fundamental no desenvolvimento da trama.
Samuel “mother fucker” L. Jackson faz um grande trabalho como o Major Marquis Warrens, um ex-combatente negro da Guerra Civil, que ingressou na guerra somente para matar o maior número de brancos possível. Warren é um personagem ameaçador, que se impõe pela violência. Acho que não haverá dificuldades para nenhum espectador com um mínimo de conhecimento de história entender o quanto era difícil para um negro se afirmar na sociedade estadunidense pós-escravocrata. O Major Warren, agora um caçador de recompensas, embora seja ameaçador e violento, é o elo mais forte daqueles personagens com aquilo que se poderia definir como ética, e essa ética leva a trama ao já esperado desfecho violento e trágico (e isso não é spoiler, afinal, estamos discutindo um filme de Tarantino).
Completam o elenco principal Bruce Dern, como o General Sandy Smithers, Michael Madsen, como Joe Gage, Demián Bichir, como Bob, James Parsk, como O. B. Jackson, e Tim Roth, como o Carrasco Oswaldo Mobray. O filme também conta com Cristoph Waltz no papel de Oswald…ups, não, o filme não tem Cristoph Waltz no elenco, mas temos a sensação contínua de que eles está lá, em função da interpretação de Tim Roth. O ator, seja por opção própria, seja por opção do diretor, reproduz o mesmo estilo de atuação de Waltz em Bastardos Inglórios e Django Livre. Ao mesmo tempo em que essa familiaridade é agradável, o déjà vu permanente acaba se tornando um ponto fraco do filme.
Além das grandes atuações, Os Oito Odiados tem trilha sonora marcante e mais que funcional – não se poderia esperar algo diferente de Ennio Morricone, e fotografia que trabalha tanto os planos abertos na neve e os planos mais fechados dentro do Armarinho como forma de demonstrar o isolamento geográfico daqueles daquelas pessoas, o que não deixa de complementar, de certa forma, o isolamento social, renegados seja por sua cor, seja por sua condição social, ou o isolamento emocional dos personagens.
O contraste das cores entre o figurino e o branco da neve e das cores quentes do interior do Armarinho com o branco da neve e posteriormente, com a escuridão da tempestade cria um ambiente ao mesmo tempo claustrofóbico e aconchegante, que não demora a se transformar, claro.
Estruturado em forma de capítulos, Os Oito Odiados tem uma narrativa ágil no primeiro ato, muito mais em função dos diálogos e da apresentação dos personagens do que pela ação em si, mas que fica um pouco arrastada no segundo ato, chegando ao ponto de fazer uso de um recurso de filme baseado em livros de Agatha Christie – que, embora seja proposital e com clara intenção de fazer essa referência, acaba se mostrando desnecessário e preguiçoso. Felizmente, quando parece que a história começa a ficar arrastada, chegamos ao terceiro ato, que é rápido, ágil e brutal – daquele tipo que nos faz ficar grudados na cadeira sem perder a atenção por um segundo sequer. No roteiro, encontra-se o único ponto realmente fraco do filme: embora as quase três horas de projeção não sejam sentidas pelo público, o filme tem pelo menos um capítulo dispensável,  cuja exclusão tornaria a história mais instigante e o desfecho mais surpreendente, e cerca de trinta minutos de excesso.
Os Oito Odiados certamente marcará presença no Oscar 2016 como um dos principais contendores nas categorias de atuação e em algumas categorias técnicas, além de ser um forte candidato à indicação ao Oscar de melhor roteiro original e um candidato bem cotado, mas não favorito, à indicação ao Oscar de melhor filme. Se não é, nem de longe, o melhor filme de Tarantino, neste ano, poucos foram os filmes de Hollywood que chegaram ao nível do segundo western do diretor com o estilo mais inconfundível de Hollywood nos últimos vinte anos.
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