A CAPITAL DOS MORTOS 2: MUNDO MORTO

O crítico Tiago Belotti lançou em seu canal, o Meus 2 Centavos, seu segundo longa-metragem, A Capital dos Mortos 2: Mundo Morto. Com baixo orçamento – muito diferente de uma Invasão Zumbi, por exemplo – e muita coragem, Belotti fez um filme de um gênero pouco explorado no cinema brasileiro, o terror, e de um subgênero ainda menos mainstream por aqui, os filmes de zumbi. O lançamento do filme no Youtube, aberto para todo o público, ensejou minha revisão da crítica que publiquei em 2015, por ocasião da sessão de lançamento no Cine Brasília. Confira o filme completo no vídeo abaixo e a crítica revisada!

Para além de Hollywood, do cinema europeu e do cinema independente estadunidense, temos de dar o devido valor ao cinema independente brasileiro, principalmente quando de trata de um filme de gênero como A Capital dos Mortos: Mundo Morto. Um filme de terror sobre zumbis não está exatamente na crista da onda do cinema brasileiro, e a ousadia de produzi-lo merece que o público e a crítica lhe dispensem atenção. Isso não significa que serei condescendente na crítica e que as 3/5 estrelas sejam uma nota generosa. Pelo contrário, considerando todas as limitações da produção, o 3/5 constitui uma nota que reflete o resultado deste filme denso, tenso e angustiante.
O roteiro de A Capital dos Mortos 2: Mundo Morto é bem construído, por optar por um menor número de diálogos e por apostar na construção da atmosfera opressora daquele mundo desolado, quando acompanhamos a jornada da protagonista interpretada por Lorena Aloli, e as subtramas dos demais personagens. O primeiro ato é ágil e assustador: o filme nos dá um verdadeiro tapa na cara, ao colocar o espectador na obrigação de compreender a escolha feita já na primeira cena. No segundo ato, a trama quase se perde, quando apresenta novos personagens e aposta em um alívio cômico que soou um tanto artificial. Paradoxalmente, embora esse alívio cômico tenha ficado deslocado, confesso que senti falta de uma proporção maior de comicidade que contribuísse para dar um descanso ao público, desde que esse alívio cômico fosse mais, digamos, orgânico, é claro. No terceiro ato, o filme retoma a força da narrativa e leva o público ao desfecho inescapável. Um ponto fraco do roteiro é o uso recorrente de narração, mas devo ponderar que essa fraqueza tem relação com outro ponto fraco do filme, sobre o qual discutirei mais adiante neste texto. A montagem de ritmo acelerado de Tiago Esmeraldo dá uma grande contribuição para que o roteiro de Belotti funcione como narrativa,  apoiado por uma trilha sonora que mantém o espectador permanentemente atento ao desenvolvimento da ação.
A direção de arte do filme tem suas limitações, mas as limitações do seu resultado são muito menores do que a limitação do orçamento para a produção do filme.  Os zumbis são críveis, assim como o são os efeitos visuais e práticos das cenas violentas. Há problemas que poderiam ter sido evitados, como nas cenas em que se tentou simular o princípio tempestade sobre a imagem de um céu que não correspondia a esse objetivo – o que tira o espectador do filme, em função da artificialidade da imagem- há soluções técnicas, baratas e viáveis, que chegariam a um resultado melhor. De forma geral, os problemas da limitação orçamentária são resolvidos de forma eficiente e inteligente pelos enquadramentos e pelos ângulos de filmagem, demonstrando que a falta de dinheiro não significa incompetência. Quantos filmes hollywoodianos com orçamentos milionários não cometem erros primários, têm direção de arte péssima e se dedicam a contar histórias ruins?
As atuações não são o ponto alto do filme, embora não cheguem a comprometer o desenvolvimento da narrativa. Lorena Aloli e Gustavo Serrate não comprometem na interpretação do núcleo central da trama. Entretanto, é bastante incômoda a narração, porque é evidente para o espectador que aquele texto está sendo lido e não interpretado. A artificialidade da narração compromete o conteúdo do que está sendo narrado, que é fundamental para o entendimento da trama que nos está sendo apresentada na tela do cinema. Nas atuações, destaco a da personagem da mãe em busca de sua filha adolescente, que nos transmite a angústia e o medo mais críveis de todo o elenco.
Neste ponto do texto, você deve estar-se perguntando como o filme recebeu 3/5 se ainda nada foi dito que possa fazer acreditar que se trata de um filme que e destaque. A resposta é simples: deixei o melhor para o final.
As locações do filme são maravilhosas. Que cenário desolado e, ao mesmo tempo, tão Distrito Federal!
Saí da sala de cinema impressionado coma cinematografia de A Capital dos Mortos 2: Mundo Morto. Gabi Cerqueira fez um trabalho magnífico de fotografia na escolha dos planos, dos ângulos e, acima de tudo, do uso que soube fazer luz natural de Brasília em contraste com os ambientes fechados escuros e opressores. A combinação de planos abertos à luz do dia com planos-detalhe da paisagem para a ambientação daquele mundo desolado foi eficiente, competente e esteticamente impressionante. Além disso, Gabi Cerqueira nos premiou com um plano magnífico dos zumbis sob a lua cheia, cujo design preenche a tela do cinema e causa, digamos, uma forte impressão no público. Em 2015, eu já assisti a 404 filmes, e poucos foram planos que me deixaram impressão tão forte. Esta imagem remeteu-me quase imediatamente a alguns planos de Melancolia. Trata-se de trabalho profissional de altíssimo nível, que “puxa pra cima” a qualidade de toda a produção, porque, ao mesmo tempo, constrói a ambientação, eleva a tensão, os enquadramentos ajudam as atuações e, por fim, resolve a maior parte dos problemas da direção de arte.
Tiago Belotti foi corajoso ao escrever e dirigir esta história de abuso, machismo – sim, no mundo pós-apocalíptico, os homens são ainda mais brutais
-, desespero e morte. Belotti fez um bom trabalho de roteiro e direção, apesar de todas as limitações, e levou ao público um filme maduro e consistente na estrutura e na execução. Não há alívio. Ao sair da sessão, cheguei à seguinte conclusão: e se Lars Von Trier resolvesse fazer um filme de zumbis? A Capital dos Mortos 2: Mundo Morto seria um excelente ponto de partida.
Aproveitem e confiram nossa entrevista com o diretor na estréia do filme, no dia 21 de dezembro, curta o vídeo e assine nosso canal no Youtube!

Sinopse: Cinco anos após os eventos ocorridos em A Capital dos Mortos (2008), Lucas une forças com a traumatizada Denise. Juntos eles tentam manter a sanidade, e sobreviver num mundo onde há coisas muito mais perigosas que zumbis.

Gênero: Drama, Horror
Ano: 2015
Duração: 71min
Formato: Digital
Classificação: 16 anos

Direção: Tiago Belotti
Roteiro: Tiago Belotti
Produção Executiva: Tiago Belotti e Tiago Esmeraldo
Produtor: Tiago Esmeraldo
Edição e Efeitos Visuais: Tiago Esmeraldo
Música: Tiago Esmeraldo e Muhr
Fotografia: Gabi Cerqueira
Coprodutor e Consultor Criativo: Rodrigo Huagha
Assistente de Direção: Hugo Casarisi

Elenco:
Lorena Aloli
Gustavo Serrate
Jessica Vasconcellos
Marília Mangueira
Morgana Santos Gama
Nobu Kahi
Ana Flavia Garcia

Maquiagem:
Mariana Elisa
Mari Campelo
Nany Nery
Yohanna Japiassu

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