BRANCO SAI, PRETO FICA
Gênero: Drama
Direção: Adirley Queirós
Roteiro: Adirley Queirós
Elenco: Dilmar Durães, Dj Jamaika, Gleide Firmino, Marquim do Tropa, Shockito
Produção: Adirley Queirós
Fotografia: Leonardo Feliciano
Duração: 93 min.
Ano: 2014
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 19/03/2015 (Brasil)
Distribuidora: Vitrine Filmes
Classificação: 14 anos
Sinopse: Tiros em um baile de black music na periferia de Brasília ferem dois homens, que ficam marcados para sempre. Um terceiro indivíduo vem do futuro para investigar o acontecido e procura provar que a culpa é da sociedade repressiva.
Nota do Razão de Aspecto:
 
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Em Conversas do Woody Allen, o consagrado diretor afirma que a
força da trama e a qualidade do diálogo são os fatores mais importantes para a
eficácia de um filme. Para ele, quando os diálogos são bons e a trama convence,
mesmo filmes com problemas de enquadramento, iluminação e outros problemas
técnicos acabam funcionando muito bem. O poder da narrativa, portanto, supera
qualquer regra formal que defina a qualidade de um filme – este é o princípio
que se aplica ao impressionante filme brasileiro Branco Sai, Preto Fica. 
Branco Sai, Preto Fica é um filme tecnicamente limitado – em função da clara escassez de recursos para sua produção, porém, a falta de recursos parece
não ter-se constituído um obstáculo para a criatividade do roteiro, da direção
de arte, da fotografia, e da montagem – ao que tudo indica, tornou-se um grande
incentivo à inspiração.
Para uma narrativa que se passa em uma distopia
futurista, que envolve documentário, viagem no tempo, atentados terroristas,
repressão política e policial, espera-se o alto custo recursos para a
elaboração de efeitos visuais. Em Branco Sai, Preto Fica, este problema é resolvido com
criatividade, como na máquina do tempo em formato de container, que, de forma
muito engenhosa, serve de disfarce, no presente, para o policial Dimas
Cravalanças, ao mesmo tempo em que ironiza, de forma sutil e inteligente, o
mercado imobiliário de Brasília. Trata-se de um dos recursos simples, porém
eficientes, que fazem o espectador criar empatia com filme, independentemente
de suas evidentes limitações.
A máquina do tempo:
Branco Sai, Preto Fica mistura documentário – os
personagens Marquim e Shokito realmente foram mutilados na invasão ao
Quarentão, em 1986, na Ceilândia -, ficção científica – com a viagem no tempo e
o planejamento de um atentado terrorista eletromagnético -, crítica política –
a história ocorre em uma distopia na qual a ditadura teria permanecido no
poder, o Plano Piloto se teria tornado uma zona de exclusão cujo
ingresso seria possível somente por passaporte, em uma metáfora genial sobre a
relação das cidades satélites do Brasília, e o Brasil do futuro deseja reunir
provas para indenizar as famílias das vítimas da invasão do Quarentão -,
reflexões sobre o apocalipse e o legado a ser deixado – os personagens criam um
arquivo de áudio que reúne todos os elementos da cultura do DF, da Dança do
Jumento do som ambiente da Feira dos Importados. Essa mistura parece indicar
uma história confusa e cheia de “furos”, mas, ao contrário daquilo
que se poderia esperar, resulta em narrativa coerente, bem conduzida, com boas
soluções para a trama. O filme foi todo realizado em locações simples e baratas,
que retratam o cenário muito realista da pobreza daquela cidade, mesmo que, na
vida real, a democracia tenha vencido.
A pobreza:
Branco Sai, Preto Fica tem alguns momentos memoráveis, dignos de entrarem para o
panteão das cenas mais impagáveis da história do cinema, entre elas a dança do jumento – cujo efeito se compara à apresentação de Pequena Miss Sunshine-, retratada como expressão da cultura
popular para o legado pós-apocalíptico, as viagens no tempo de Dimas
Cravalanças, que proporcionam alívio cômico eficiente, e , principalmente, a
sequência final, que nos surpreende com a simplicidade e a inteligência colocadas em prática para superar as limitações técnicas e financeiras. Se Adirley Queiroz fosse francês ou escandinavo, certamente seria reverenciado como um verdadeiro gênio do cinema.
O Coletivo de Cinema da Ceilândia merece
os parabéns, por provar que talentos verdadeiros e boas ideias podem
prosperar mesmo diante da carência de recursos, além de provar para o Brasil e
para o mundo que o nosso cinema tem qualidade, tem talento, e que é possível
fazer cinema independente na periferia do Brasil, na periferia do cinema
brasileiro, que, por sua vez, está na periferia do cinema mundial.  Branco
Sai, Preto Fica 
é um filme
inteligente, intrigante e poderoso na linguagem e na mensagem – um exemplo a
ser seguido pelo cinema independente brasileiro.
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