War Machine (2017) – Netflixing – Crítica
Posters para "War Machine"

Não se fazem mais guerras como antigamente. Na Segunda Guerra tinhamos grandes causas, um choque claro de ideologias, vilões terríveis e sacrifícios imensos para impedí-los. Na Guerra do Vietnã tinhamos um sistema perverso, um imperialismo falido com a hipocrisia substituindo a ideologia, um lamaçal onde homens comuns morriam inutilmente e onde todos os lados pareciam vilões. Cenários de grandes paixões, de emoções intensas, e de grandes filmes.

E as guerras atuais? Como tentar fazer um grande filme de guerra sobre, por exemplo, a ocupação americana no Afeganistão? Na era do pós-pós-modernismo, que história de guerra pretendemos contar? Se War Machine  (filme que estreou hoje, 26 de maio, na Netflix) for uma resposta para esta pergunta, então a resposta é que a história moderna de guerra é aquela onde apenas o absurdo resta. Onde nem mesmo a revolta contra a futilidade da guerra tem sentido.

Estamos acostumados a filmes de guerra que falam de heróis (como em Até o último homem ou Sniper Americano) ou denunciam a carnificina e a catástrofe humana (como em Platoon ou Além da linha Vermelha). Inclusive a Netflix já fez dois excelentes longas “anti-guerra”: Beasts of no Nation (eleito pelo Razão de Aspecto um dos melhores filmes de 2015) e The siege of Jadotville. Mas War Machine não se assemelha nada com eles.

E também não se assemelha com a maioria das comédias de guerra, como Trovão tropical, M.A.S.H. ou Bom dia Vietnã. Normalmente uma comédia de guerra é uma sátira ao cinema de guerra, um pastiche dos clichês do gênero. War machine é uma comédia e uma crítica a guerra, um gênero pouco explorado (lembro de cabeça apenas de Dr. StrangeloveArdil 22). Mas mesmo nestas comédias de humor negro de crítica a guerra, é comum termos grandes vilões ou no mínimo um sistema absolutamente vilanesco. E mais uma vez, não vemos isto em War Machine.

Então, do que se trata o novo filme da Netflix? Difícil descrever sem entregar parte das surpresas, mas basicamente é um filme sobre o prolongamento da Guerra no Afeganistão, e de como o circo de guerra americano é uma máquina que se auto-alimenta. Baseado no livro The Operators, de Michael Hastings, que narra uma versão fictícia, porém bem próxima do teatro de operações militares dos Estados Unidos no Afeganistão em 2009/10, War Machine é uma incômoda paródia, bizarra mas infelizmente verossímil, acerca da máquina militar americana e o sistema político que a justifica.

Na direção e no roteiro temos David Michôd, um diretor relativamente inexpressivo, conhecido principalmente por Reino Animal A caçada, dois filmes que nunca vi. Em War Machine Michôd parece saber de suas próprias limitações e não tenta reinventar a roda. O filme é linear, simples e eficiente. Segue a clássica estrutura de 3 atos, muito bem divididos. Apresenta seu protagonista logo no ínício, usa de clichês na medida certa, e aposta na qualidade da história e dos atores para fazer o filme funcionar.

E funciona. Bradd Pit (de Aliados) lidera o elenco em uma atuação atípica. Seu personagem é o anti-glamour, similar em alguns aspectos a sua atuação em Queime depois de ler. Fisicamente estranho, sem carisma, completamente estereotipado. Perfeito. Outros atores de renome aparecem em papéis menores: Ben Kingsley (Gandhi) e  Tilda Swinton (Dr. Estranho) fazem pequenas pontas, com a qualidade de sempre. Os demais atores cumprem seu papel. Mas mesmo com atuações de boas a ótimas, há um grande problema nos personagens: não conseguimos nos identificar com ninguém. O General Glen McMahon de Pitt é o único que consegue cativar o público, de uma forma torta e incômoda. Percebemos que ele está destinado ao fracasso já no início do filme, e acompanhamos atento a sua queda, de uma forma distanciada, sem muito envolvimento. Falta paixão para nos envolvermos. Mas é proposital e parte da narrativa, é um dos efeitos que o filme se propõe. Não há heróis ou vilões, e tentar se tornar um deles seria um esforço patético.

A trilha sonora é extremamente eficiente, com um tema que cola na cabeça e vira pano de fundo, parte do cenário. Há um pouco de excesso na repetição do tema, em especial nas marchas de “sou militar fodão”, o que gera uma comicidade mas também um certo enfado.  E curiosamente para um filme de guerra, temos praticamente nenhuma ação, e quando ela acontece, é melancólica, estranha, quase uma farsa.

War Machine é um filme bastante diferente comparado com as histórias de guerra que estamos acostumados. Anda na beira do abismo na difícil missão de contar uma história de personagens sem carisma fazendo ações sem sentido e mesmo assim prender a atenção do espectador. Há momentos em que o filme quase fracassa. Mas no final temos um filme estranhamente engraçado, até o momento em que deixa de sê-lo. E quando percebemos que estamos  rindo de algo que não deveria nos fazer rir é que o filme atinge seu principal mérito. Não é um grande filme, mas é uma história pertinente e que precisa ser contada. A história de uma guerra quase inexistente, mas que mata como todas as outras guerras.

Not rated yet!

War Machine

Overview

O General Glen McMahon recebe a missão de sua vida: liderar as forças aliadas na ocupação do Afeganistão em 2009. Uma guerra impossível de se vencer. E graças a sua capacidade de organização e o valor de suas idéias, ele levará a guerra a seu fim inevitável.

Metadata
Director David Michôd
Writer David Michôd
Author
Runtime
Release Date 26 maio 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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