Victoria e Abdul: O confidente da rainha (2017) – Crítica
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Se não tivesse realizado qualquer outro filme na carreira, o diretor inglês Stephen Frears já mereceria um local no coração de todos nós pela sensacional adaptação para o cinema do livro Alta Fidelidade, de Nick Hornby, em filme homônimo de 2000. Mas Frears tem uma carreira bem mais longa e interessante que apenas aquele filme. Tendo iniciado sua carreira ainda no fim da década de 1960, Frears já nos presenteou com pérolas como Minha adorável lavanderia (1985), Ligações Perigosas (1988) – que levou os Oscar de Roteiro Adaptado, Direção de Arte e Figurino, e traz um show de interpretação do trio John Malkovich-Glenn Close-Michelle Pfeiffer -, Os imorais (1990), sua primeira indicação como Melhor Diretor, O segredo de Mary Reilly (1996) releitura de O médico e o monstro pelos olhos de uma criada -, Sra.Henderson Apresenta  (2005), O retorno de Tamara (2010), Philomena (2013) – indicado ao Oscar de Melhor Filme, Atriz, Trilha Sonora e Roteiro Adaptado -, e Florence: quem é esta mulher? (2016), cuja crítica do Razão de Aspecto você pode ler aqui.

Além esses filmes mencionados, Frears já mergulhou na vida e intimidade de uma soberana britânica em 2006, no filme A Rainha, indicado a seis Oscar, e que deu a Helen Mirren o merecido prêmio de Melhor Atriz. Daquela vez, a rainha sob os holofotes era Elizabeth II, atual monarca do Reino Unido. Em 2017, Frears se dedica à indefectível Rainha Victoria, cujo nome praticamente é sinônimo do século XIX.

Victoria é interpretada por ninguém menos que Judi Dench – experientíssima dama do teatro e do cinema inglês, já experiente no “cargo” de rainha, tendo interpretado Elizabeth I em Shakespare Apaixonado (1998) – papel que lhe rendeu o Oscar de Atriz Coadjuvante por apenas seis minutos em tela – e a própria Victoria, em Sua Majestade, Mrs.Brown (1997), filme pelo qual foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Aliás, este Victoria e Abdul: O confidente da rainha pode ser, tematicamente, considerado uma continuação do filme de 1997: viúva do Príncipe Albert aos 42 anos, Victoria não voltaria a se casar, e teve em duas amizades improváveis – o cocheiro John Brown e o indiano Adbul Karim – companheiros para amenizar a solidão – e irritar profundamente a Corte à sua volta. 

Victoria e Abdul começa de forma vibrante: nos primeiros quinze ou vinte minutos de filme, o filme faz a plateia gargalhar com o jeito debochado pelo qual os realizadores mostram toda a pompa e cerimonial de uma recepção com a presença da mulher mais poderosa do mundo em seu século. Uma revoada de criados correndo para aprontar tudo a tempo, enquanto dois indianos (o Abdul do título e seu conterrâneo Mohammed) convocados para entregar uma medalha comemorativa à rainha tentam entender aquilo tudo. Frears aqui dá um pequeno show, com rimas visuais, movimentos de câmera e enquadramentos bem pensados e um tempo de humor perfeito – créditos para a montagem de Melaine Oliver, de A garota dinamarquesa (2015), Les misérables (2012) e Jane Eyre (2011). O choque inevitável entre as culturas é tratado de forma humorística, com destaque para a exclamação de um dos indianos de que o Reino Unido seria um país bárbaro, porque usa vacas na alimentação. Também já no início o filme mostra que é candidatíssimo a indicações nas áreas de Desenho de Produção e Figurino – algo de que filmes de época bem feitos tendem a aproveitar.

Considerando um dos indianos “quite charming“, Victoria logo o traz para seu séquito pessoal. A partir dali, Abdul passará a ser seu “munshi”, espécie de professor particular, que a ensinará desde  a língua urdu até os hábitos e costumes de seu país de origem, para encanto constante da rainha. Estabelece-se aí a dobradinha Judi Dench-Ali Fazal, ator indiano que consegue convencer ser possível fascinar uma rainha, pelo carisma entregue ao personagem.  Assim como em Mrs.Brown, a Corte ficará, em um primeiro momento, chocada com essa proximidade entre servo e soberano, e o sentimento se intensificará ao longo dos anos e dos privilégios que Abdul começará a ter junto à Rainha. O mais incomodado é Bertie, o Príncipe de Gales (Eddie Izzard), que tentará desacreditar Abdul junto a sua mãe.

É interessante ver que a mesma atriz, no mesmo papel, mas em outro filme, traga uma Rainha Victoria diferente da mulher em luto, fechada e dolorida de Mrs.Brown. Seguindo a abordagem bem mais leve de Frears, Dench aqui mostra uma Victoria mais idosa e cansada – tanto do ponto de vista físico quanto no que diz respeito às rotinas, preceitos e adulações da corte. É impressionante como a atriz transmite as diferenças do estado de espírito da personagem para a linguagem corporal: reparem, por exemplo, quando, após uma discussão com Abdul, ela passa de uma idosa cheia de energia para uma curvada e vítima do peso do tempo. É bastante provável que Dench acumule mais uma indicação a Melhor Atriz.

O maior problema de Victoria e Abdul é sua inconstância: se no primeiro momento ele é leve e engraçado, as partes dramáticas começam a ganhar mais presença, e, em seu final, o filme já perdeu o viço de seu princípio.  O senso de passagem do tempo é impreciso, e é muito difícil algum espectador que já não conheça a história entender que a presença de Abdul na Corte durou 14 anos. Algumas subtramas que funcionam como boas piadas em seu início são deixadas um pouco de lado, levando ao questionamento sobre a necessidade de terem sido inseridas no filme, que acaba por parecer longo em seus 111 minutos. Para quem conhece a história, incomoda, ainda, que o filme trate muito superficialmente do lado negativo de Abdul – que, ao contrário de John Brown, usou a amizade com a Rainha para ganhos pessoais, e pese a mão no lado algo vilanesco do Príncipe de Gales, que por horas parece saído de um desenho animado.

Mesmo com suas inconstâncias, Victoria e Abdul não deixa de ser uma boa opção nos cinemas para o fim de ano – em especial para quem gosta de filmes de época -, e mais um bom filme na carreira de Stephen Frears. E deve ser bastante badalado em premiações em 2018 – afinal, o Oscar adora sua “cota britânica”.

PS: Não deixem de assistir Sua Majestade, Mrs.Brown, filme com menos momentos geniais mas mais regular.

Not rated yet!

Vitória e Abdul: O confidente da Rainha

20171 h 47 min
Overview

Baseado numa história verídica, “Vitória & Abdul” retrata uma amizade improvável durante os últimos anos do extraordinário reinado da Rainha Vitória. Quando Abdul Karim, um jovem empregado, viaja da Índia com o objetivo de participar no Jubileu de Ouro da Rainha, é surpreendido ao cair nas boas graças da Rainha. Enquanto a Rainha começa a questionar as constrições do seu já longo cargo, cria-se uma aliança inesperada entre os dois, sendo a lealdade que têm um para com o outro ameaçada tanto pela família como pelo círculo restrito da Rainha. À medida que a amizade se intensifica, a Rainha começa a ter uma visão diferente do mundo, recuperando o seu sentido de humanidade.

Metadata
Director Stephen Frears
Writer Shrabani Basu
Author
Runtime 1 h 47 min
Release Date 14 setembro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 2    Média: 2/5]
  • Lucas Albuquerque

    Melhor filme sobre a Rainha Victoria feito este ano

  • Maurício Costa

    Gostei bastante do filme. Leve, inteligente, irônico e com uma direção de arte incrível!