Uma Mulher Fantástica (2017) – Crítica

Uma Mulher Fantástica traz à tona um tema sensível, porém sem nunca perder o viço cinematográfico.

Marina (Daniela Vega) se relaciona com Orlando (Francisco Reyes). Ele é muito mais velho que ela. Já quebrando o primeiro preconceito, vemos um sincero amor entre aquele senhor e Marina. Afastamos logo um relacionamento por interesse (mesmo vendo que ele tem um certo dinheiro). Fora essa questão, polêmica para alguns, Orlando veio de um casamento ainda presente e Marina é trans.

Esse trabalho da direção é feito de forma sutil, em duas ou três cenas. Uma delas a capital: Orlando morre. Tal acontecimento não é tão spoiler, pois ocorre no começo da história e é o mote do filme. As repercussões da morte de um homem, sob a ótima de uma mulher trans junto ex-família do amado.

Aqui há traço zero de caricatura. Vemos uma mulher trabalhando, tendo amigos, fazendo sexo. Outros filmes poderiam colocar a personagem à margem. Nesse sentido, Uma Mulher Fantástica se aproxima do nacional Corpo Elétrico.

Mas se no filme brasileiro praticamente não há a questão do preconceito envolvida, aqui a coisa muda de figura. De maneira drástica até. A violência é sentida de várias formas. E como facilmente nos envolvemos com a protagonista, a empatia é certeira.

A violência aqui parte da ignorância. Mas ela se desmembra em vários seguimentos: o médico que não sabe lidar com o nome social, a culpabilização pela morte do companheiro e a agressão física. Não duvido que a agressão psicológica seja tão ruim quanto, porém o impacto visual causado pela outra é um choque que me fez segurar a respiração.

Na camada mais explícita do roteiro vemos uma motivação à la John Wick. Mais do que dinheiro, reconhecimento e até respeito, é o cachorro que torna Marina irracional. Cão dado pelo parceiro e a outra banda da família dele não queria ceder. Esse arco dá ainda mais verdade.

Não tão na superfície, alguns signos corroboram com o título. Cenas que Marina projeta o ex-companheiro. A repetição da chave (e o que ela abre) e o detalhe do colar. A questão da água, presente logo no começo de formas variadas. Enfim, é uma obra rica nesse sentido. Capaz de ao revermos notarmos mais coisas…

Agora, o espelho é um elemento fundamental aqui. Diversas cenas reforçam essa imagem do duplo, complexidade tal que é condizente com a personagem. Vemos no meio da rua um espelho que reflete uma imagem bem distorcida de Marina, em momento preciso da trama. Mais para o final, temos Marina ante dois espelhos e cada um revela um lado dela.

Agora o ápice desse uso merece um parágrafo à parte. Vemos um pequeno espelho tampando a genitália de Marina. Há tanta coisa nesse pequeno detalhe que me fez derramar uma lágrima. Além de preservar, como deve ser, a intimidade (não sabemos se ali há um pênis ou se a operação foi feita), temos no reflexo, o rosto. Mostrando que o vale naquela questão é como ela se enxerga. Aplausos.

Quem também merece as palmas é Daniela Vega. A atriz, se houvesse justiça no Oscar, deveria ser indicada. Uma presença firme e segura de cada passo. Um olhar dos mais recheados de dores, sensações e decisão. Por também ser trans, Vega conseguiu dar um peso natural sem parecer pesado. Uma cena, apenas uma, há uma explosão (ela ela sobe em um local e grita). Esse rompante, que em outros filmes poderia soar um desvio fora do tom, aqui é essencial, cirúrgico.

As cenas finais quase me fizeram lamentar. Um corte perfeito poderia ser dado na conclusão da sauna. Porém o filme continuou, e quase me perdeu. Contudo, o que veio a seguir me impediu de traçar qualquer linha contrária.

O riquíssimo Uma Mulher Fantástica, portanto, só pode ser definido com o trocadilho simples: é um filme fantástico.

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Una mujer fantástica

Overview

Metadata
Director Sebastián Lelio
Writer Sebastián Lelio, Gonzalo Maza
Author
Runtime
Country  Spain Chile Germany United States of America
Release Date 25 janeiro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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