Uma Família de Dois (Demain tout commence, 2016) – Crítica

Se você gosta de dramédias familiares este é o longa para você.  Uma Família de Dois é o remake francês do mexicano Não Aceitamos Devoluções. Como não vi a expressão latina, vou me ater apenas à análise do europeu, deixo para os fãs as possíveis comparações.

Como obra única, Uma Família de Dois funciona moderadamente. Nem de longe soa ofensivo como cinema e nem fará você rasgar dinheiro. Há sim problemas narrativos, no entanto temos méritos que farão uma tarde/noite gostosa de quem assistir.

A história gira em torno de Samuel (o excelente Omar Sy, Intocáveis, Samba, Chocolate). Ele é um bon vivant que trabalha na riviera francesa. Um dia, ele recebe a visita de Kristin (Clémence Poésy, a Fleur Delacour da saga Harry Potter), com quem ele tivera uma noitada meses antes. Ela larga a filha do casal nos braços de Samuel e some no mundo. A trama é Samuel, que se muda para Londres, tentando criar a filha Glória da melhor maneira possível.

Há algumas viradas (parte delas reveladas no trailer) que irei me furtar de contar para ti, amigo leitor. Mas elas são responsáveis por transições entre a comédia e o drama. Uma cena, logo no começo, é uma das sínteses do filmes – não há spoiler na descrição a seguir: Samuel encontra o empresário Bernie (Antoine Bertrand) em uma escada rolante e acaba esquecendo o bebê no local. O momento tem risos, uma certa tensão branda dramática, algum absurdo – principalmente no que tange às atitudes das outras pessoas – e alguns movimentos improváveis. Além de vermos a torta relação daquele recente pai com a inesperada filha.

Por que esta situação é o resumo do todo? Pois todos aquelas emoções e ações são vistas, de outras maneiras, é claro, ao longo do filme. E isso inclui, problemas e méritos. Se a relação dos personagens principais convence, os coadjuvantes são previsíveis e só estão ali como parte do cenário e não como personas distintas e verossímeis. A exceção é o Bernie, que ajuda a trazer para o mundo atual o novo conceito de família.

O carisma de Omar Sy realmente é o ponto forte aqui. O ator encarna muito bem o personagem ao mergulhar em brincadeiras ou em explorar o já conhecido sorrisão seja para a genuína alegria (decorrente de um escorregador dentro de casa ou um bate bola com a filha), seja para demonstrar um certo “não sei o que vou fazer, então o sorriso é a saída”. Esse ar meio perdido ganha incríveis pontos no final e ressignifica todo o longa.

A filha de Samuel, a Glória (interpretada pela xará Gloria Colston) tem uma certa consciência que serve de contraponto para a fanfaronice do pai. Ao mesmo tempo tem uma inocência encantadora e é uma criança normal. Colston consegue se impor em cena e o filme não perde quando a atriz é exigida. Ela tem uma energia que equivale a de Sy e a dupla ganha quando está junta.

O ritmo é bem ágil, algumas vezes um pouco demais – passando um nadinha do tom. A fotografia sabe mudar de acordo com o ambiente, nada absurdamente sensacional. Mas facilmente percebemos o sentimento de cada locação.

A paternidade, obviamente, é o assunto central. Todas as minúcias dessa função são vistas em tela, além até do que aparenta em um primeiro momento. Ao longo do segundo ato, boa parte dessa criação é calcada em mentiras que Samuel cria pela ausência da mãe de Glória. A imaginativa história pode ser questionada: é justo privar a filha da verdade? Uma revelação final faz Uma Família de Dois crescer e gerar discussões sobre a criação dos filhos.

Um certo sentimentalismo de auto ajuda quase coloca o filme fora dos trilhos. Simplicidade e criatividade recuperam daquele desvio. Uma Família de Dois não tem grandes pretensões, contudo pode se tornar maior do que ele é.

Not rated yet!

Uma Família de Dois

2016Duration unknown
Overview

Solteiro e despreocupado, Samuel vive em Marselha (França), onde muda de emprego e de namorada com a  maior das descontrações. Mas essa tranquilidade altera-se quando Christine, uma mulher com quem teve um caso amoroso em Inglaterra, lhe aparece com um bebé de meses nos braços e o informa que é ele o pai. Depois dessa notícia aterradora, ela desaparece sem explicações. Em pânico, julgando-se incapaz de cuidar da criança, Samuel viaja para Londres, determinado a resolver o problema e devolvê-la à mãe. Quando percebe que não há forma de a encontrar, arranja emprego e decide criá-la sozinho.

Metadata
Director Hugo Gélin
Writer
Author
Runtime Duration unknown
Country  France
Release Date 7 dezembro 2016

Nota do Razão de Aspecto

 

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