Um lugar silencioso (A quiet place – 2018) – Crítica
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Fazer um bom filme de monstro, ao contrário do que a maioria pensa, não é simples. Não basta colocar uma criatura horrenda e monstruosa destruindo pessoas com requintes de sanguinolência. O que diferencia um filme como Alien, o oitavo passageiro ou Tubarão de coisas como A múmia (o de 2017, com Tom Cruise) são duas coisas aparentemente simples: o monstro tem que assustar, e nós temos que nos identificar com as vítimas. Um lugar silencioso atende a ambos os quesitos.

O conceito pode parecer simples, mas a execução nem sempre é. Um lugar silencioso resolve estes dois problemas de um modo criativo, mas bem temático. Ambos dilemas são associados a medos universais, que todos já vivenciaram em um sentido ou outro. O tema central do filme é incapacidade de se expressar e a vulnerabilidade que isto gera. O tema é abordado de maneira direta, básica. Os personagens de Um lugar silencioso não podem fazer barulhos. Qualquer barulho. Uma matilha de criaturas indestrutíveis, cegas e com audição apurada atacam a qualquer rompimento do silêncio.

Isto exige uma constante supressão de um de nossos instintos mais básicos, o de verbalizar. Não só palavras, mas também suspiros, gritos, gemidos. E não só, isto demanda um estado de constante vigilância. Até mesmo uma partida de Banco Imobiliário exige rolamento de dados no carpete e peças de pano silenciosas. Esta sensação de vulnerabilidade é ampliada com um detalhe pequeno, mas significativo: os pés descalços.

O ato de caminhar é arriscado, pois o barulho de pisadas, de uma tábua que range ou de uma folha seca representa risco de vida. Então os caminhos por onde se pisa tem de ser preparados. E nada de sapatos. Esta exposição constante de uma parte sensível do corpo, que costumamos a proteger facilmente, é usada com perfeição. Um simples prego solto em um degrau de escada se torna elemento de suspense terrível.

Além deste estado de constante vigilância e vulnerabilidade, temos os limites de comunicação. Os personagens são uma família, com uma filha surda. Por isto eles tem a vantagem de saberem se comunicar por sinais. Mas, mesmo com este recurso, os diálogos são curtos, e limitados. Os gestos são usados para mensagens básicas, com frases curtas, sem diálogo emocional. Somente nas poucas cenas onde a verbalização pode ocorrer é que eles conseguem expor seus sentimentos.

E com isto entra o segundo medo universal: a perda da família. Um dos medos mais apavorantes que a maioria de nós vivenciamos, cotidianamente, é o de não conseguir proteger nossos filhos. Tanto fisicamente quanto psicologicamente. A ameaça física que paira sob a família Abbott é bem óbvia. Já a ameaça psicológica é o isolamento, a falta de diálogo. A necessidade de suprimir qualquer som acaba por distanciar pais e filhos.  Simbolizando isto tudo a questão do parto, e do recém nascido. Imagine o que é parir uma criança em silêncio. Ou ter um filho que não pode chorar.

Note que até agora mal falei dos monstros, das criaturas. Durante boa parte da história, mal as vemos. Isto por que elas não são importantes como seres físicos. O importante é a ameaça, constante e invisível, de uma morte violenta e brutal. Somente quando a história se aproxima de sua resolução que as criaturas aparecem plenamente. Isto não apenas para gerar suspense quanto ao monstro, pois se assim fosse melhor seria nem mostrá-lo totalmente (como foi feito em Alien ou Tubarão). A criatura só é mostrada em sua plenitude quando a constituição física dela se torna um tema da narração.

As interpretações do quarteto de protagonistas está excelente. Milicent Simmonds consegue dar a Regan Abbott o tom certo de rebeldia adolescente. Ela precisa confrontar e se afirmar diante do pai, mas sabe que excesso de desobediência neste mundo implicaria em morte. Noah Jupe é um destes meninos de filmes do anos 80, que com sua percepção básica consegue mais profundidade emocional que os adultos ocupados com as grandes questões cotidianas. Emily Blunt faz enormidades para transmitir sua dor física e emocional de ver sua família despedaçando. Sua gravidez é um ícone de desespero em um mundo onde crianças tem de ser mudas. Mas a atuação que vai para o trono é a de John Krasinski (que acumula as funções de protagonista e diretor). Lee é um pai cansado, que gostaria de poder passar o fardo, mas sabe que sua missão não terminou. Sua família precisa dele. E sua filha está lhe escapando pelos dedos.

A edição de som é essencial para o filme funcionar. Como quase não há falas, ou mesmo ruídos de máquinas ou de atividade humana, o filme é repleto de ruídos da natureza. E também pequenos sons de pano raspando, passos abafados, objetos rangendo… E prestamos atenção a cada um destes ruídos. Até no leve zumbido de um aparelho de audição.

Mas a ausência de diálogos não realça apenas nossa audição, como também a visão. Cada movimento é uma ameaça, e cada som nos faz procurar em tela por sua origem. Aqui a fotografia também colabora e muito para a narrativa. O uso da luz como forma de comunicação, as cores quentes nos momentos de perigo, e a escuridão da noite quase viram personagens. E nos pegamos pensando o tempo todo em que tipo de ruído um objeto cenográfico pode gerar.

Se é verdade que alguns pontos no roteiro parecem quase colapsar se colocarmos alguma análise mais fria, o clima de tensão é tão intenso que não temos nem tempo nem equilíbrio para análises mais intelectuais. A história é um tanto frágil, mas a sensação de vulnerabilidade é tamanha que isto pouco importa para a experiência final. Um lugar silencioso pode não ser um filme de monstro perfeito, mas cumpre sua função de modo eficiente e criativo. Saí da sala de cinema sem palavras a dizer.

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Um Lugar Silencioso

20181 h 35 min
Overview

Em "Um Lugar Silencioso", uma família vive, em silêncio, ameaçada por misteriosas criaturas que caçam através do som.

Metadata
Director John Krasinski
Writer
Author
Runtime 1 h 35 min
Release Date 5 abril 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 8    Média: 4.5/5]
  • Maurício Costa

    Ficamos com a mesma nota e basicamente a mesma opinião sobre tudo. Normal em filmes de terror/suspense. heuehe