Torquato Neto – Todas as horas do fim
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Na minha adolescência e juventude escutei muita MPB. E a Tropicália era um dos meus movimentos favoritos. Caetano, Gil, Mutantes, Tom Zé e Torquato Neto fizeram parte do meu amadurecimento artístico. Isto já no final dos anos 80 e início dos 90, ou seja, época em que a Tropicália já não era mais notícia nem risco.

Em parte por a Tropicália já ter saído de cena, em parte pela distância cronológica, mas principalmente pelo pouco material preservado, eu conhecia quase nada acerca de Torquato. Era o letrista de algumas grandes músicas, como Geléia Geral, um poeta de poemas que não li, e um artista que se matou quando jovem, no auge da Ditadura Militar.

Então quando recebi o convite para uma pré-estreia de Torquato Neto – Todas as horas do fim, fiquei bastante animado. Uma oportunidade de conhecer um pouco mais sobre um dos heróis desconhecidos da cultura brasileira.

Esta expectativa ficou em parte suprida, e em parte não. Conheci mais de Torquato. Descobri que ele teve envolvimento com o cinema, em especial o Cinema Novo. Descobri que ele criou para si um personagem, o Nosferato. E mais alguns outros detalhes interessantíssimos de sua biografia, que não conhecia. Por outro lado, Torquato Neto – Todas as horas do fim conta muito do artista, mas mostra pouco dele.

Uma das maiores dificuldades de Eduardo Ades e Marcus Fernando foi exatamente dar voz e espaço a Torquato, visto não haver quase nenhum registro audiovisual disponível hoje sobre o artista. Há apenas uma entrevista gravada com ele (e usada no filme). A solução? Colocar textos de seus poemas (lidos pelo ator Jesuíta Barbosa), de suas músicas, fotos da época, e depoimentos pessoais.

A alternância entre texto-foto-depoimento-música é um tanto compassada, formulaica. Creio que Torquato chamaria de careta. “Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela… “Torquato Neto – Todas as horas do fim assume poucos riscos, experimenta pouco, e com isto não consegue berrar.

Os melhores momentos são exatamente os mais arriscados, os mais tropicalistas.  Quando Eduardo Ades e Marcus Fernando escolhem usar cenas de clássicos do Cinema Novo (Macunaíma, O Demiurgo, Deus e o diabo na Terra do Sol, entre outros) para ilustrar pensamentos e textos de Torquato se cria um excelente intertexto.

A trilha sonora é essencial. Não apenas dá ritmo e lirismo a narrativa, mas principalmente cria uma ponte indispensável entre o público e o filme. Praticamente a única coisa que o público de hoje conhece de Torquato são suas letras de música (na maioria sem saber a autoria). Mas infelizmente não há destaque claro entre as músicas ligadas diretamente ao artista e outras, apenas da mesma época.

Juntando isto a identificação pouco clara das personalidades que dão depoimento, o público não familiarizado com a arte brasileira dos anos 60 e 70 se sentirá sem referência. Apenas Caetano e Gil são hoje figuras presentes na mídia, e os demais participantes são bem obscuros para a maioria. Além disto, cada personalidade é identificada apenas uma vez, apenas pelo nome. E muitas vezes temos um depoimento oral, sem imagem, de alguém que não conseguimos resgatar quem seja. Nomes de pessoas, até do pai e da mãe do poeta, são citados sem explicação. Isto gera o risco de alienar o público das referências citadas.

Mesmo com estes pequenos problemas Torquato Neto – Todas as horas do fim cumpre sua missão. É um filme alegre, positivo. Até mesmo nos momentos em que aborda o manicômio e o suicídio não há uma rendição a melancolia fácil. E com isto saímos com fome e sede de Torquato. Saímos querendo canibalizá-lo.

Faixa Bônus – Nosferatu no Brasil

Na página do Facebook do documentário encontramos o link para assistir Nosferatu no Brasil. O curta de 1971 tem como protagonista Torquato Neto, interpretando seu personagem, o Nosferato. É filmado em 8mm, e é uma obra bastante experimental, típica da época, com clara influência do Cinema Novo. Para a platéia de hoje pode ser pouco palatável, mas se você vestir o espírito da época, é um curta delicioso. Com a participação especial da garrafa de ketchup que serviu de dublê de sangue. Não serei careta de dar nota a este filme.

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Torquato Neto - Todas as Horas do Fim

Overview

Uma biografia do poeta maldito da Tropicália. Poeta, letrista, cineasta, uma das mais importantes personalidades da arte brasileira dos anos 60 e 70. E relativamente esquecido.

Metadata
Director Eduardo Ades, Marcus Fernando
Writer
Author
Runtime
Country  Brazil
Release Date 11 outubro 2017
Actors
Starring: Jesuíta Barbosa

Nota do Razão de Aspecto

 

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