Todo dinheiro do mundo – Crítica – Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)
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Se você tinha a curiosidade sobre quanto custou fazer Todo Dinheiro do Mundo, a resposta é: U$ 50 milhões. Ok, piada ruim, mas inevitável. Lembremos que U$ 10 milhões foram gastos para retirar Kevin Spacey e substituí-lo por Christopher Plummer. Se este filme serve como referência, 1/5 de todo dinheiro do mundo é gasto para lidarmos com escândalos.

Para quem não acompanhou as notícias, um resumo rápido: Todo dinheiro do mundo estava já pronto para lançamento, mas em outubro do ano passado, após as acusações de assédio sexual envolvendo Kevin Spacey, Ridley Scott decidiu substituir o ator e refilmar todas as cenas em que ele aparecia. Para tanto chamou quem era, segundo o diretor, sua primeira opção para o papel: Christopher Plummer. Spacey teria sido uma inclusão comercial dos produtores. Não sei se Scott foi sincero nesta declaração, mas sem dúvida a idade de Plummer era mais adequada ao papel. Nas cenas que já haviam vazado com Spacey notamos uma pesada maquiagem para envelhecê-lo.

O roteiro se baseou em um trecho do livro Painfully Rich: The Outrageous Fortunes and Misfortunes of the Heirs of J. Paul Getty (algo como Dolorosamente rico: As exorbitantes fortunas e infortúnios dos herdeiros de J. Paul Getty). Especificamente o trecho que conta o sequestro de John Paul Getty III, neto do então homem mais rico do mundo. Esta é uma daquelas histórias tão absurdas que só podem ser reais. Na década de 70 o neto do maior bilionário do mundo é sequestrado, e seu avô se recusa a pagar o resgate. O argumento do magnata: com 14 netos, se ele começasse a pagar resgates,  teria que lidar com 14 sequestros no futuro.

Com isto a narrativa se divide em 3 núcleos: de um lado temos o mundo surreal do magnata, com regras que valem apenas para bilionários. De outro temos o mundo do cativeiro de seu neto, com sequestradores, violência e desespero. E no meio, Gail Harris, nora do magnata e mãe do sequestrado. A personagem de Michelle Willians é o centro da história. Desesperada com o destino de seu filho, tem de lidar com os sequestradores, a polícia, e o império financeiro e a lógica cruel de seu sogro.

Talvez por causa do escândalo, a interpretação de Kevin Spacey Christopher Plummer tem recebido todos os holofotes, até mesmo uma indicação ao Oscar. Não que Plummer tenha feito um trabalho ruim, pelo contrário. Ele consegue dar humanidade e intensidade a um vilão que o roteiro retrata de forma bem unidimensional. Considerando que seu trabalho foi feito as pressas, após a conclusão do filme, isto demonstra o imenso talento do ator. Mas sinceramente o personagem é monotemático demais, e sem muita variação. Se eu fosse indicar alguma atuação de Todo dinheiro do mundo para o Oscar, indicaria Michelle Willians.

Quer ver a crítica dos filmes indicados ao Oscar? Confira a lista completa aqui.
Gail Harris é uma personagem muito mais complexa que Paul Getty, e Willians se mostra uma atriz à altura. A mãe que negocia com os sequestradores, a nora que negocia com o sogro, a vítima que lida com a polícia, a celebridade que lida com a imprensa, e ainda seu relacionamento ambíguo com Fletcher Chase: cada uma destas facetas se somam para uma atuação realmente brilhante. Seu melhor interlocutor, além de Plummer, é Romain Duris, que interpreta Cinquanta, um dos sequestradores. O arco dramático de Cinquanta é uma das partes mais interessantes da história, uma espécie de Síndrome de Estocolmo que afeta o sequestrador, e não a vítima.

Pena que Charlie Plummer faz um garoto sequestrado que permanece inalterado. Mesmo depois de meses de cativeiro e tendo sofrido castigos físicos e psicológicos intensos, continua parecendo o mesmo garoto inconsequente e charmoso. O diletante do início do filme permanece apesar de tudo. A falta de evolução de John Paul Getty III pode fazer com que a mudança de Cinquanta pareça inverosímel para alguns.  E Mark Wahlberg? Como sempre, parece perdido diante das câmeras, sem um direcionamento claro nem profundidade emocional.

Visualmente Todo dinheiro do mundo é imponente. Cenografia bastante complexa, com claras citações a Cidadão Kane quando aborda o mundo de Getty (acho que Scott até pesou a mão neste sentido). Temos palácios e mansões escuras, repletos de obras de arte e objetos exóticos. Espaços que gritam seu valor e sua inumanidade. Há uma alternância visual entre o mundo colorido de Harris e o mundo sombrio de Getty bastante interessante. A trilha reforça este contraste, dando pompa e circunstância, mas não de maneira óbvia, ao magnata.

Dois pontos incomodaram visualmente, no entanto. Em uma cena notamos claramente que Plummer foi inserido digitalmente.  E o retrato de Roma da década de 70 na primeira cena ficou estranho. A capital italiana me pareceu um tanto fantasiosa e cinematográfica demais, dando um tom de irrealidade, quase onírica. O que não combina em nada com o resto do filme.

Já narrativamente o filme sofre de alguns problemas sérios. As três estórias (garoto no cativeiro, mãe em luta e milionário exótico e cruel) não se juntam muito bem. Com isto acabamos por perder a referência emocional e a identificação com os personagens. A história de sequestro é narrada sem gerar nenhum senso de urgência. A falta de suspense é tanta que por vezes temos cenas onde apenas a trilha tenta dar tensão, sem muito sucesso. O resultado final é que acabamos por não nos importamos muito com o que acontecerá com o sequestrado, o que é frustrante.

O terceiro ato é um grande anticlímax. Temos uma perseguição esquisita e prolongada em excesso, e uma cena quase constrangedora de emulação de Cidadão Kane. Mas o que mais incomoda é o final feliz mal ajambrado, com uma solução forçada e esquisita.

Apesar destes problemas, o cuidado visual e as ótimas atuações fazem de Todo Dinheiro do Mundo um bom filme. Mas seria ótimo se conseguissem se focar em qual história eles queriam contar. O melhor filme de Ridley Scott de 2017 continua sendo Alien: Covenant (ok, só eu devo achar isto).

Nota do Razão de Aspecto

 

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