The Keepers (2017)- Netflixing – Crítica
Posters para "The Keepers"

The Keepers estreou sem muito alarde na Netflix, no último mês de maio. Trata-se uma série documental sobre o assassinato da freira Cathy Cesnick, em Baltimore, em 1969- crime ainda sem solução. Quase meio século depois, duas de suas ex-alunas decidem dedicar-se a descobrir quem assassinou sua professora no High School.  Se, à primeira vista, o tema de The Keepers indica um seriado investigativo típico da TV aberta, com as “maravilhosas” dramatizações, consultas a especialistas e todos os recursos investigativos clássicos, os primeiros minutos do piloto desfazem essa falsa impressão. Com uma linguagem narrativa e visual bastante cinematográfica, The Keepers causa o mesmo impacto que Making a Murderer.

 

 

The Keepers tem uma narrativa densa e pesada, mas necessária para a imersão no público na história do assassinato de Cathy Cesnick e de seus desdobramentos. Ao acompanharmos a jornada das ex-alunas em busca da verdade sobre o assassinato, descobrimos, junto com elas, a ligação entre o desaparecimento e o posterior assassinato de Cathy e uma série de abusos sexuais na escola em que Cathy lecionava, o Archebisp Keough. O padre acusado era Joseph Maskell. Essa descoberta não é nem incidental nem narrativamente programada: acontece ao longo das gravações da série e muda os rumos da narrativa. A partir de então, passamos a acompanhar tanto a busca do assassino de Cathy quanto a histórias dos sobreviventes e os desdobramentos dos casos de pedofilia envolvendo a igreja católica (usei minúscula propositalmente).

 

 

Com depoimentos das vítimas de abuso de Maskell, amigos, parentes e antigos suspeitos do assassinato de Cathy, construímos, lentamente, uma teia de fatos e relações que ligam os dois crimes. Ao mesmo tempo, ficamos estupefatos com a negligência da igreja católica e da polícia, com a culpabilização das vítimas e com o processo de acobertamento das acusações de pedofilia contra o Padre Maskell, que remontam a…1967. Provas desaparecidas, negação de fatos, recusa de entrevistas, contradição dos agentes públicos envolvidos nas investigações, intervenção da igreja nos processos, tudo isso faz parte desse roteiro de fatos tão reais quanto dramáticos.

The Keepers envolve, emociona e revolta ao mesmo tempo, e nos faz pensar muito – e mais uma vez – sobre o papel da igreja católica no acobertamento dos casos de pedofilia e em como essa decisão implicou a multiplicação de casos semelhantes nas décadas seguintes. Em 1992, uma década antes do caso revelado pela equipe do Boston Globe, muito bem dramatizada no vencedor do Oscar de 2015 Spotlight: Segredos Revelados, a arquidiocese de Baltimore já enfrentava as primeiras acusações e o primeiro processo no caso conhecido como Doe/Roe  contra Maskell. Infelizmente, a influência da arquidiocese, associada à conivência as autoridades públicas, evitou que o caso fosse a julgamento, resultando em impunidade e indiferença em relação ás vítimas de um padre pedófilo.

 

 

Em The Keepers, destaca-se o depoimento de Jane Doe, a primeira vítima a fazer as acusações, em 1992 – cerca de vinte anos depois dos fatos. O depoimento de Jane Doe emociona são somente pela veracidade, mas também ela forma como elabora e expressa sua dor e seu pontos de vista, após mais de quatro décadas sofrendo com as consequências do abuso. Jane Doe cumpre a função mais importante da narrativa, como esteio emocional e elo entre ambos os crimes. O relato de Jane Doe relaciona diretamente o Padre Maskell ao assassinato de Cathy Cesnick.

 

 

Em The Keepers, acompanhamos uma verdadeira luta entre o cidadão comum, a igreja e o Estado –  supostamente laico – em busca de justiça, uma justiça que não alcança as instituições mais poderosas. A vida das vítimas é menos importante que a reputação de uma instituição que acobertou criminosos e estupradores. A relação entre o assassinato de Cathy e os casos de abuso na escola em que lecionava devia, no mínimo, ter sido levada muito mais sério pelos investigadores, quando o caso foi reaberto, em meados da década de 1990. Em vez disso, o que se viu foi uma série de recusas a prestar informações, desaparecimento de provas e poucas explicações. O mais revoltante de tudo é saber que as pessoas que acobertaram esses crimes – e muitos dos criminosos – andam livremente pelas ruas, como se nada tivesse acontecido.

Cathy Cesnick e as vítimas do Padre Maskell ainda não tiveram justiça.

The Keepers é mais que uma denúncia, é mais que um grito por justiça, é mais do que uma investigação: é uma obra necessária para os nossos tempos. Parabéns a Ryan White e à Netflix pela coragem.

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The Keepers

Overview

Irmã Cathy Cesnik, uma freira e professora muito querida por todos, desapareceu em novembro de 1969. Seu corpo só fora encontrado dois meses depois, e trouxe à tona diversos segredos envolvendo a Igreja e uma série de crimes que aconteceram na cidade de Baltimore, nos Estados Unidos.

Metadata
Director Ryan White
Writer
Author
Runtime
Release Date 19 maio 2017
Actors
Starring: —

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