Star Wars – Os últimos Jedi – I have a bad feeling
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E finalmente chegamos ao episódio VIII de Star Wars. O Razão de Aspecto, assim como quase todo mundo que gosta de cinema, tem um carinho especial pela franquia. Tanto que o novo filme merece mais de uma crítica. A primeira crítica, de nosso colega Daniel Guilarducci, sem nenhum spoiler, você pode conferir aqui. Nesta crítica eu me permitirei comentar detalhes do filme que é melhor não saber antes de assistir pela primeira vez. Você foi avisado: ESTE TEXTO CONTEM SPOILERS. Se ainda não viu o filme, sugiro ler apenas nossa primeira crítica.

Mas antes de começar a minha crítica queria comentar rapidamente sobre a experiência fora do filme. Uma das maiores diferenças da franquia Star Wars para as demais franquias de sucesso é como ela vai muito além do cinema. Não são apenas 9 longas metragens. Temos animações, videogames, livros, quadrinhos, brinquedos, acessórios, e o mais importante de tudo, uma comunidade de fãs que conseguiu manter a faísca acessa por longos períodos sem nenhum filme (de 1983 a 1999, e de 2005 a 2015).

Como um leve depoimento pessoal, já me embrenhei em uma viagem de microônibus com mais trinta malucos, de Brasília a São Paulo, ida e volta em apenas um dia, para participar de um musical (e eu odeio musicais) fantasiado de Chewbacca. Creio ter sido um dos piores Chewies de todos os tempos, mas lembro com carinho da experiência.

Ir a uma pré-estreia de um filme de Star Wars é um evento independente do filme. Fãs compram os ingressos com meses de antecedência, e chegam horas antes da estréia, muitos deles fantasiados. Sempre. Em qualquer pré-estreia. E dentro da sala de cinema o entusiasmo é tanto que temos aplausos, gritos de apoio, uma enorme catarse.  O carinho do público, mais do que qualquer outra coisa, faz de Star Wars uma franquia única no cinema.

Mas todos já sabem disto, estou chovendo no molhado. Com todo histórico de Stars Wars por trás, como Os últimos Jedi se sai? Infelizmente, não muito bem. É o ponto mais fraco da franquia desde os desastrosos A ameaça Fantasma O ataque dos clones. Se este episódio for exemplo de uma nova tendência adotada pela Disney, confesso que eu tenho um mal pressentimento sobre isto. Para começar é o primeiro filme da franquia em que nenhum personagem fala este frase. Grave erro.

O lado sombrio

Com 2 horas e 32 minutos de duração, Os últimos Jedi é o episódio mais longo da franquia, e infelizmente isto pesa bastante. Um dos maiores pecados que um filme pode cometer é se alongar em cenas desnecessárias. E aqui temos arcos narrativos alongados demais, e um deles chega a ser irrelevante tanto para a trama central, quanto para o desenvolvimento dos personagens. Excetuando as cenas entre Luke Skywalker e Rey, todo o segundo ato do filme precisa ser enxuto, e muito.

Todo o arco do motim de Poe Dameron, e a missão fracassada de Finn e Rose não mudam em nada o desenrolar da história, sem consequências nem para a trama, nem para os personagens. Com isto temos três novos personagens  com muito tempo em tela mas pouco peso dramático. A Almirante Holdo (Laura Dern) tem uma certa relevância em suas últimas cenas, mas a mudança de vilã incapaz para legítima substituta de Leia é feita de modo abrupto. E antagonismo dela com Poe é incompreensível com o final da personagem.

DJ (Benicio Del Toro) e Rose (Kelly Marie Tran) não são apenas personagens rasos e caricatos, mas também são desnecessários. Se DJ é realmente um zero a esquerda para a história, Rose ao menos salva Finn de fazer um sacrifício heroico em mais uma missão que se descobre desnecessária. Parece uma habilidade deles neste filme: se envolver em missões vazias. Mas ela não impede o sacrifício por saber que a missão era inútil, e sim por um suposto amor vindo sem preparação dramática alguma, e sem nenhuma correspondência da contraparte. O beijo cai de paraquedas, e a frase chavão que o acompanha não ajuda.

Quanto aos personagens já conhecidos, há alguns momentos em que o roteiro dá uma certa pausa para retratá-los de forma grandiloquente, quase cartunesca. Apesar do fã de Stars Wars dentro de mim delirar nestas horas pela referência, o crítico de cinema se contorce pela suspensão da descrença violada. A cena do Luke Skywalker fuzilado me arrancou aplausos, mas a quase morte da Leia, com seu vôo miraculoso, foi simplesmente vergonhosa, totalmente destoante da forma como a personagem foi retratada até então em toda franquia. Sim, ela é uma Skywalker. Não, ela nunca fez um uso tão extremo da força.

Temos ainda a cena na “caverna do lado negro”, que ressoa com a cena onde Anakin  confronta-se com ele/Vader em Dagobah. Mas aqui, ao invés do confronto do futuro Jedi com seus inimigos internos, temos um palavrório cansativo e sem drama sobre a revelação futura de Rey ser filha de ninguém.  E a solução sobre a paternidade de Rey, apesar de ser uma interessante descontração das famílias “sangue azul” dos Jedi, por ser feita quase a seco, gera uma insatisfação ao invés de desfecho do arco.

O humor, sempre presente em todos episódios, aqui está  desequilibrado. Os porgs cumpriram as expectativas de serem os novos ewoks, para o bem e para o mal. O riso e a fofura funcionam, mas em detrimento do ritmo e fluidez.  As várias cenas entre Chewie e os Porgs são boas cenas isoladas. Mas mesmo depois de inseridas no filme, continuam cenas isoladas.

Mas não são apenas os porgs que são uma fonte de riso mal quista. Assim como em Thor: Ragnaroktemos cenas hilárias, mas desconexas, coladas a cuspe na narrativa. Curiosamente um dos alívios cômicos de O Despertar da Força que melhor funcionou foi esquecido. Onde foi parar o lado cômico de Finn?

E assim como em despertar da Força, temos mais uma nota dissonante na carreira do genial John Willians. Não, a trilha não é ruim, longe disto. Mas o compositor parece estar adormecido, e deixou de tentar continuar fazendo o que sabe fazer de melhor: compor temas sonoros para ressonar em temas narrativos. Quando Willians cita os temas antigos, é genial, mas fora estas cenas temos músicas sem tanta personalidade. Não é exatamente um defeito, mas considerando o potencial do compositor, é frustante.

O lado luminoso

Mas nem tudo é escuridão em Os últimos Jedi. Ainda há esperança, ainda há luz. As primeira e última cenas de ação são de tirar o fôlego. Já no início somos arremessados em um combate de naves estonteante, dramático e heróico. O bombardeiro do Dreadnought é um excelente combate aéreo, e ver o quase fracasso dele dá um legítimo nó no estômago. Mas mais importante, isto gera consequências até o final do filme, em especial para Poe Dameron.

A última cena de ação me arrancou aplausos, mostrando algo ao mesmo tempo inédito e clássico para a franquia. Sim, é um Jedi usando a força no estilo clássico. Mas ao mesmo tempo o poder em si utilizado foi não apenas novo, mas completamente inesperado, e orgânico com a cena. Melhor momento do filme,  uma morte épica do personagem mais importante da franquia. E todos sabemos que ele voltará como um “fantasma da força”, não é mesmo?

A força é retratada em detalhes, assim como foi em O império contra-ataca. As cenas entre Mark Hamil e Daisy Ridley fariam Joseph Campbell sorrir contente. Luke Skywalker é um mestre jedi completamente diferente de Obi-Wan Kenobi ou Yoda. E Mark Hamill está em sua atuação mais convincente. Vejo hoje Luke Skywalker de um modo mais completo e rico do que antes, o que não é fácil com um personagem com tanto histórico.  O peso do fracasso dele como mestre de Kylo Ren e o pavor diante de um possível novo erro fazem dele mestre muito mais interessante que os quase budistas e quase perfeitos Kenobi e Yoda.

Adam Driver é uma grata surpresa. Muitos detestaram o Kylo Ren de O despertar da força, mas em Os últimos Jedi conseguimos ver o lado sombrio da força de um modo diferente. A ligação entre Kylo e Rey é um belo diálogo entre luz e sombras desorientados. Semelhantes e opostos. Andy Serkis continua sendo o nome absoluto para interpretar personagens digitais com capturas de movimento. Mas a morte prematura do líder supremo nos rouba o personagem. Oscar Issac continua roubando a cena. Mesmo com Poe Dameron perdendo boa parte do tempo com arcos supérfluos e irrelevantes, o ator consegue extrair drama e conflito do nada.  É o único personagem que cresce durante a fuga da rebelião, e se transforma.

E claro, apesar de ser um recurso fácil e um tanto preguiçoso, as inúmeras referências e citações aos outros episódios fazem os fãs delirarem. Quase literalmente, em caso de uma sessão de pré-estréia. A aparição do Yoda, por exemplo, apesar de desnecessária, é mais que bem vinda.

Como fã de Star Wars assistir Os últimos Jedi é uma deliciosa experiência. Mas não é exatamente um bom filme. As qualidades superam os defeitos, mas estes cobram seu preço. Quem sabe com a volta de J. J. Abrams tenhamos um episódio IX mais equilibrado? Que a força esteja com ele.

Not rated yet!

Star Wars: Os Últimos Jedi

20172 h 30 min
Overview

Em Star Wars: Os Últimos Jedi, da LucasFilm, a saga de Skywalker continua, enquanto os heróis de “O Despertar da Força” se juntam às lendas galácticas, para uma aventura épica,que desvenda mistérios antigos da Força e revelações chocantes do passado.

Metadata
Director Rian Johnson
Writer
Author
Runtime 2 h 30 min
Release Date 13 dezembro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 6    Média: 3.8/5]
  • Rinaldi Maya Neto

    Star Wars realmente é algo diferente, mesmo sem o bad feeling concordo com muito do que você escreveu, o bom e o ruim. Para mim o saldo é muito positivo, talvez isso venha muito da minha expectativa que ressoou com os momentos em que Rian Johnson e John Williams citam a trilogia clássica e ao mesmo tempo a sensação de tabula rasa, de recomeço, que o final deste filme entrega. Na parte cinematográfica, talvez por ter tido overdose do estilo JJ nos últimos anos, curti muito mais a fotografia (o diretor de fotografia do Johnson provavelmente é o culpado) deste do que do episódio anterior, os planos abertos e também os closes, assim como as expressões dos personagens estão muito melhores aqui do que no VII. O roteiro poderia ser mais polido, mas ainda assim entrega uma experiência muito superior ao clone anterior (pun intended). Que venha o IX.

    • Aniello Greco

      Pois é, eu gosto mais do JJ que a maioria, pelo visto.

      E eu acho que o VII é um excelente filme, mesmo sendo meio estelionatário, xerox. Tem um roteiro bem fechado, apresenta excelentes personagens, etc.

      A parte técnica dos dois últimos episódios, e do Rogue One, são excelentes, mas este é o melhor neste aspecto. Mas a narrativa deixou muito a desejar.

      Acho que temos mais ou menos a mesma opinião sobre o VII, mas damos pessoas diferentes aos méritos e defeitos.

  • freds

    Discordo que a missão falhada do finn e da rose seja irrelevante pra trama afinal a razao pela qual o “império” percebe que os “rebeldes” estão fugindo para o que parece ser Hoth é porque o personagem de benicio del toro trai finn e rose dando informação para o “império”. Do contrario, pela expectativa dos “rebeldes” eles conseguiriam escapar com o sacrifício da nave principal. Foi uma forma bem tortuosa pela qual se explicou um quase furo da narrativa do “imperio” não poder detectar as naves pequenas fugindo da nave mae. E foi so por isso que a almirante holdo desiste de atrair para longe as naves do “imperio” e decide se sacrificar de forma grandiosa mas sem muito efeito.

  • Tania Ferreira

    Achei a origem da Rey desperdiçada. Estava ansiosa por respostas. Achei a morte do Snoke tbm desperdiçada. E quase tive um treco qdo leia quase morre daquele jeito. Assim como vc, achei o filme com vários furos. Não sou crítica de cinema e falo como fã mesmo: eu esperava mais… tão mais!
    Mas pelo menos pude ver o Mestre Yoda (personagem favorito do mundoooo meu) de novo, abrindo a boca pra falar só verdades em algo que eu considero um “budismo intergaláctico” e que eu me identifico tão bem (e chorei <3, como sempre). Luke enfrentando Kylo como vc bem disse “no estilo jedi clássico” aquilo sim foi de arrasar! Foram coisas que me fizeram chorar pra variar (rs), mas no geral mesmo? Faltou mto no filme =/

  • Seu Cuca

    Nunca imaginei que a Leia usar a força fosse incomodar tanto aos fãs. Foi um dos momentos grandiosos do filme e a muitos não gostaram. Vai entender.