Fear and Desire (1953) – O filme que Kubrick queria que você não visse
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Cenas da crítica anterior:

 

Na primeira parte  de nossa análise da obra completa de Kubrick conhecemos os três curtas documentários do diretor. Aprendemos que um jovem fotógrafo promissor resolveu abandonar sua carreira para tentar a sorte no cinema. Com três curtas produzidos em três anos, Kubrick demonstrou grande entendimento de fotografia, mas também dificuldades de encontrar sua voz como diretor, bem como de fazer sua carreira decolar. O primeiro curta, Day of the fight, foi inspirado, mas ainda imperfeito. Seus dois outros curtas foram mais exercícios de aprendizado onde os interesses dos produtores definiram os rumos mais que a vontade do diretor. Encerramos o texto no ano de 1953, onde nosso herói cinematográfico ainda não tinha encontrado seu talento, e estava sem dinheiro, e sem nenhum grande filme em seu currículo.

 

Fear and Desire (1953)

O primeiro longa dirigido por Stanley Kubrick é um filme amador. Foi financiado por familares e amigos do diretor, que juntaram um total de aproximadamente U$ 10.000,00. A equipe do filme se resumia a apenas 15 pessoas. Devido as limitações de orçamento, muito do equipamento foi improvisado. Por exemplo, um carrinho de bebê foi utilizado como trilho de câmera para os travellings.  Trata-se de uma obra feita por um diretor iniciante, sem equipe, sem equipamento adequado e sem atores profissionais.

Na primeira cena um narrador nos conta que a história se passa em uma guerra genérica, em um país indefinido. Quatro soldados sofrem um acidente de avião e se vêem isolados em território inimigo. Obrigados a se esconderem na floresta, traçam planos para retornar a território amigo, mas acabam tendo que se confrontar com inimigos internos e externos.

O resultado? Um filme bastante irregular. Os atores são sofríveis, em especial Paul Mazursky ao tentar interpretar insanidade. Virginia Leith sai-se bem, mas lembremos que ela nada fala e fica quase o tempo inteiro amarrada. Até Frank Silveira, um ótimo ator, está sem nenhuma emoção, talvez devido a sua inexperiência. E o próprio Kubrick reconhece que, à época, nada entendia sobre direção de elenco. O que temos então é uma coleção de atuações similares a peças de teatro de escolas de ensino médio.

A premissa do roteiro se sustenta por muito pouco. A insanidade de Sidney acontece abruptamente, e o plot do assassinato do general é um tanto artificial. Esta falta de substância de roteiro é em parte contornada com narrações em off. As falas internas dos personagens são um tanto pomposas, mas ajudam a nos aproximarmos deles, e nos importamos com eles. Em especial Mac, o personagem de Frank Silveira.

A melhor escolha de roteiro foi os personagens de Kenneth Harp. O ator interpreta dois oficiais: o tenente que comanda o grupo perdido e um general inimigo, que é antagonista e MacGuffin. Usar o mesmo ator para ambos os lados serve de metáfora ao absurdo da guerra. Bem como, em um nível mais figurado, a ideia da guerra interna do soldado, e do ser humano. Um pequeno indício do uso da violência como manifestação de nossos próprios demônios, presente em quase toda obra de Kubrick.

Outro dos temas tipicamente kubrickiano também aparece: a sexualidade, na sua forma incômoda e doentia. Não é a toa que as duas cenas mais criativas em termos de linguagem de câmera e fotografia são o auge da violência (o combate na cabana) e o auge da sexualidade (o assédio de Sidney a garota). Em ambas Kubrick usa de planos detalhes entrecortados e breves, mostrando pouco e sugerindo muito.

Temos então algumas características bem kubrickianas: violência e sexualidade flertando com a loucura, o ambiente revelando o pior e o melhor do humano. Movimentos de câmera e iluminações elaborados (considerando os limites de equipamento) e extrema preocupação com a fotografia. Mas Kubrick ainda não tinha aprendido a importância da atuação de qualidade, e não era ainda um bom contador de histórias.

Nada que justifique, no entanto, o tanto de desprezo que o diretor tinha por seu primeiro longa. Mesmo tendo recebido alguns elogios da crítica, Kubrick tentou tirar o filme de circulação, comprando todas as cópias que teve acesso. Mais de uma vez Kubrick definiu Fear and Desire como uma história chata e pretensiosa repleta de más atuações. Parte disto sem dúvida é seu famoso perfeccionismo. E parte devido ao fracasso financeiro que o filme representou. Mas Fear and Desire tem seus méritos, em especial nas cenas da garota na árvore e no combate na cabana. É um bom filme, mas imperfeito.

Cenas da próxima crítica

Após o fracasso financeiro de Fear and Desire, Stanley Kubrick novamente precisa de fazer uma vaquinha entre familiares e amigos, mas desta vez para um filme mais comercial. Com isto nasce A morte passou por perto, um filme noir que narra a aventura amorosa de um lutador de boxe em fim de carreira e uma dançarina. Com uso de câmera nada convencional para filmes noir, o segundo longa de Kubrick é sua primeira obra com acabamento profissional e sem defeitos óbvios. Ainda distante de ser um sucesso ou uma grande obra, A morte passou perto ainda representa mais um aprendizado para Kubrick atingir o seu ápice. Mas seu retrato de Nova Iorque e a forma como ele retrata o boxe deixou influências duradouras.

 

 

 

 

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Medo e Desejo

19531 h 02 min
Overview

Quatro soldados sobrevivem à queda do pouso de seu avião para se encontrar em uma floresta de seis milhas atrás das linhas inimigas. O grupo, liderado pelo tenente Corby, tem um plano: fazer seu caminho para um rio próximo, construir uma jangada e, em seguida, à noite, flutuar de volta para território amigo. Seus planos para voltar com segurança são desviados por uma jovem mulher que se depara com eles.

Metadata
Director Stanley Kubrick
Writer Howard Sackler
Author
Runtime 1 h 02 min
Release Date 1 abril 1953

Nota do Razão de Aspecto

 

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