Spartacus (1960) – Eu sou Spartacus!
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Cenas das críticas anteriores

Acompanhamos o início da carreira de Stanley Kubrick, com seus três curtas-metragem, e seu mal sucedido longa de estreia. Vimos que após este início claudicante, Kubrick encontra seu caminho no cinema noir com A morte passou por perto e O grande golpe.

Em Glória feita de sangue Kubrick inicia uma parceria com Kirk Douglas, e produz seu primeiro grande sucesso. E graças a esta bem sucedida parceria o diretor é convidado a assumir o lugar de Anthony Maan na direção de Spartacus. Esta é a primeira superprodução na carreira do diretor, e a primeira e última vez que ele trabalha em um projeto de terceiros.

Spartacus

Este é o ponto mais destoante em toda filmografia de Stanley Kubrick. Conhecido por sua mania de controle, Kubrick sempre assumia a coordenação de seus filmes desde o início. Escolhia a história a ser contada, procurava quem iria ajudá-lo a criar o roteiro, corria atrás do financiamento, decidia o elenco, os equipamentos, etc.

Em Spartacus não. O projeto foi de Kirk Douglas. Frustrado por não conseguir o papel principal em Ben-Hur, Douglas compra os direitos do livro Spartacus, de Howard Fast. Após conseguir convencer a Laurence Oliver, Charles Laughton e Peter Ustinov a participarem do projeto, Douglas recebe o sinal verde da Universal para a produção.

Em uma escolha ousada, e de importância histórica para o cinema, Douglas escolhe Dalton Trumbo como roteirista. Trumbo estava na lista negra de Hollywood por seu envolvimento com o Partido Comunista. Ao chamar Trumbo como roteirista, Douglas e a Universal enfraquecem de forma significativa a censura política que havia sobre Hollywood à época.

Anthony Maan foi escolhido como diretor. Em menos de uma semana de filmagem, Douglas demite Maan, e convida Kubrick para assumir a direção. Todo o elenco já estava escolhido, o roteiro já estava pronto e até mesmo a cena inicial já fora filmada. Durante as filmagens Kubrick teve sérios conflitos criativos com Douglas, Russel Metty (diretor de fotografia) e principalmente, Trumbo. Kubrick reclamava da ausência de defeitos e falhas dos personagens do roteirista. Por estes e outros motivos, Kubrick renegou Spartacus como uma obra menor, assim como seu primeiro longa, Fear and Desire.

Mas diferente de seu filme de estreante, Spartacus não pode ser desprezado. Indicado a 6 Oscars, e vencedor de 4 (ator coadjuvante, direção de arte, fotografia e figurino), este é o filme dirigido por Kubrick mais agraciado pela Academia. Mesmo sendo sucesso de público e crítica, a aceitação do filme foi polêmica. Os grandes épicos de sandália e espada da época eram tipicamente conservadores, e repletos de referências bíblicas. Já Spartacus ressonava com as bandeiras liberais pelos direitos civis. E não há uma única cena referente a Bíblia. Apenas uma leve citação ao cristianismo na narração inicial. E isto piorava ainda mais com o nome de Trumbo envolvido.

O grande diferencial de Spartacus para filmes como Ben-Hur ou Os dez mandamentos é a ausência da glorificação dos valores cristãos em contraponto a decadência corrupta de Roma. Roma ainda é vilanizada, mas aqui a busca moral é contra a escravidão, e contra um império erguido graças ao trabalho de milhões de escravos. No texto inicial narrado na cena da pedreira, temos uma sutil apresentação da diferença. Apesar do narrador dar crédito ao cristianismo com responsável pela queda de Roma, aponta que a escravidão só pode ser superada 2.000 anos depois. Uma forte referência ao movimento dos direitos civis americanos.

A escala da produção de Spartacus é assombrosa. Temos diversas cenas em panorâmicas abertas e milhares de figurantes. A cena da batalha final entre Roma e o exército de Spartacus contou com 8.000 soldados espanhóis para fazer as legiões romanas (sem contar o exército de escravos). E com o nível de perfeccionismo de Kubrick. Por exemplo, o diretor determinou a marcação de cada um dos milhares de figurantes que representavam os escravos mortos. Um a um. O resultado são cenas verdadeiramente épicas. Panorâmicas fimladas em 70mm, altíssima definição. Podemos acompanhar cada passo de cada figurante.

As interpretações são primorosas nas cenas de intriga política, em especial nos personagens romanos. Olivier é uma presença de enorme carisma e poder, e somos convencidos tanto da determinação, integridade e ambição de Crassus. Charles Laughton e Peter Ustinov são deliciosamente imorais, corruptos, e comicamente decadentes. E ao mesmo tempo, humanos. Já os escravos são personagens sem muitas nuances, como bem apontou Kubrick. Kirk Douglas entrega bastante intensidade e fúria a Spartacus, mas é um tanto perfeito demais. E seu arco romântico com Varinia é compreensível para época, mas envelheceu mal.

O público hodierno pode sofrer com algumas características. Para começar, é um filme de mais de três horas de duração, e feito a moda antiga. Temos a abertura e o intermission, como era comum na época. Há uma certa ingenuidade em alguns diálogos dos heróis, que hoje pode soar artificial. A composição unidimensional do protagonista pode incomodar muitos.

Mesmo assim, é um dos épicos sandália e espada que envelheceram melhor. Mesmo com os limites criativos impostos, Kubrick conseguiu impor alguns de seus temas prediletos. Temos o treinamento quase pavloviano que transforma o homem em um animal, tema que reaparece em Laranja Mecânica Nascido para matar. Temos o uso do sexo como modo de domínio e poder. Temos o uso da fotografia em close nos figurantes para nos colocar junto a turba. As cenas sem diálogo são as que mais notamos a mão de Kubrick. Elas e a cena em que Kirk Douglas é usado como painel para ensinar os pontos de morte rápida, aleijamento, e morte lenta.

E o final é só superficialmente redentor. Além da derrota e terrível execução de Spartacus e seus companheiros, o resultado final não é nenhuma melhoria para os escravos. O grande líder escravo serviu apenas como trampolim político para Crassus. Mesmo a aparente vitória da liberdade pessoal de sua esposa e filho são apenas resultado da política romana. O belo ideal, o grande carisma e os méritos pessoais de Spartacus não o levam a nenhuma vitória.

Se Kubrick tivesse controle criativo sobre Spartacus, provavelmente veríamos mais fidelidade histórica. Um retrato mais preciso tanto do lado positivo de Roma quanto do negativo de Spartacus. Mas mesmo sendo o menos kubrickiano de todos os seus filmes, Spartacus entra para a história do cinema como um dos melhores épicos já feitos. E enquanto houver cinema, haverão pessoas dizendo: Eu sou Spartacus!

Cenas das próximas críticas

Kubrick conquistou fama, grana e poder com Spartacus. E uma grande lição: para fazer os filmes da forma como desejava, o diretor precisava ter completo controle sobre a produção de seus filmes. E se Spartacus representou o fim da parceria com Kirk Douglas, seu próximo filme inicia uma nova parceria com outro grande ator: Peter Sellers. De volta aos filmes preto e branco, por questões monetárias, seus próximos dois filmes contam com a participação do comediante. Lolita Doutor Fantástico ou como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba representam uma nova etapa na carreira do diretor. Kubrick se envereda agora para temas polêmicos, e os aborda com profunda ironia e despreendimento. E seus próximos filmes mudarão o cinema para sempre.

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Spartacus

19603 h 17 min
Overview

Roma: ano 73 A.C. Spartacus, um escravo de origem trácia, é comprado na Líbia pelo negociante Batiatus e ingressa numa escola para gladiadores. Aqui conhece Varinia, uma escrava da Bretanha, e apaixonam-se. Quando o treino de Spartacus está quase concluído, o ambicioso general Crassus faz uma visita à escola acompanhado pelo seu protegido Glabrus e ordena uma luta até à morte. Spartacus é escolhido para defrontar Draba, um gladiador etíope, que sai vencedor, mas recusando-se a matar Spartacus. Confrontado com a sua ânsia de liberdade, Spartacus escapa com alguns dos companheiros e torna-se líder da maior revolta de escravos alguma vez vista.

Metadata
Director Stanley Kubrick
Writer
Author
Runtime 3 h 17 min
Release Date 6 outubro 1960
Actors
Starring: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Nina Foch, John Ireland, Herbert Lom, John Dall, Woody Strode, Harold J. Stone, Charles McGraw, Joanna Barnes, Peter Brocco, Paul Lambert, Robert J. Wilke, Nick Dennis, John Hoyt, Frederick Worlock, Tony Curtis, Paul Baxley, Louie Elias, Brad Harris, Hubie Kerns, Gordon Mitchell, Regis Parton, Victor Paul, Jack Perkins, Wally Rose, Aaron Saxon, Tom Steele, Jerry Summers, Shari Lee Bernath, Bill Blackburn, David Bond, Polly Burson, Carol Daniels, Lila Finn, Harold Goodwin, Sol Gorss, Betty Harford, Harry Harvey Jr., Wayne Heffley, Lars Hensen, Charles Horvath, Shep Houghton, Pete Kellett, Joan McKellen, Eddie Parker, Gil Perkins, Chuck Roberson, Frosty Royce, Autumn Russell, Kay Stewart, Kay Stewart, Helen Thurston, Louise Vincent, Joe Canutt, Bill Catching, Chuck Courtney, Chuck Hayward, Robert F. Hoy, Valley Keene, George Kennedy, Cliff Lyons, Bill Raisch, Buddy Van Horn, Jack Williams, Paul E. Burns, Wayne Burson, Dick Crockett, John Daheim, Carey Loftin, Harvey Parry, Ronnie Rondell Jr., Don Turner, Peter Virgo, Fred Zendar, Ted de Corsia, Terence de Marney, Johnny Duncan, Roy Engel, Paul Keast, Kenner G. Kemp, Paul Kruger, Otto Malde, Scott Seaton, Richard Farnsworth, Logan Field, John Stephenson, Robert Fuller, Jeanne Gerson, Seamon Glass, Preston Peterson, George Robotham, James Griffith, Jack Grinnage, Anthony Jochim, Joe Haworth, Vinton Hayworth, Loren Janes, Jil Jarmyn, Aron Kincaid, Dayton Lummis, Bob Morgan, Tracy Olsen, Leonard Penn, Vic Perrin, Larry Thor, Dale Van Sickel, Carleton Young, Duke Fishman, Robert Stevenson, John Barton, Jerry Brown, John Benson

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