Soundtrack – Crítica – Um filme sobre música, foto, isolamento e tolerância.
Posters para "Soundtrack"

Soundtrack não é um filme fácil de assistir, tampouco um filme que atrairá grandes plateias. É um filme lento, com pouca ação, e que depende quase exclusivamente da interação dos cinco atores e o cenário. Não há um grande mistério, não  há vilões ou heróis, não há nada de épico, tenso, ou grandiloquente. Mas mesmo assim um dos melhores dramas que vi recentemente.

É o longa-metragem de estréia da dupla 300 ml, os publicitários Bernardo Dutra e Manitou Felipe. Eles já haviam dirigido Selton Mello e Seu Jorge  no curta Tarantino’s Mind, e chamaram os mesmos atores para seu primeiro longa.

Selton Mello interpreta Cris, um fotógrafo brasileiro que consegue uma autorização para passar 12 dias em uma estação polar para realizar um projeto de arte envolvendo fotos e música. Lá ele tem de conviver com Cao (Seu Jorge), Rafnar (Lukas Loughran), Huang (Thomas Chaanhing) e Mark (Ralph Ineson). Todos cientistas que sacrificam o convívio com seus familiares para passarem semanas ou meses em meio ao nada, em nome de pesquisas ecológicas e temas afins.

A diferença de mentalidades, junto com o isolamento e o frio mortal, são o centro dramático do filme. Este conflito entre ciências e artes, entre razão e emoção, acaba por revelar como, se nos distanciarmos o suficiente, ambos são apenas a mesma busca pela beleza, pela compreensão e pela expressão. Com um material dramático tão abstrato, o sucesso da narrativa depende e muito da qualidade das atuações e do uso do cenário exótico e extremo para conseguir criar uma história que valha a pena. E consegue, com sobras.

Todos os atores estão bem, mas os destaques vão para Selton Mello e Ralph Ineson (se você não associa o nome a pessoa, você vai lembrar de Ralph Ineson como o pai fundamentalista em A bruxa). Ineson consegue transmitir uma mescla de raiva, solidão, preocupação e, em especial, no fim do filme, amizade. E isto sem diálogos grandiloquentes, mas com palavras secas e gestos simples. Mello alterna uma timidez e um senso de inadequação junto com uma repressão emocional que incomoda, o tempo todo. Mas é nos momentos em que Cris está sozinho com sua câmera que a interpretação de Mello atinge o ápice.

O projeto do personagem Cris é uma metáfora do próprio filme. Assim como na instalação que o fotógrafo pretende criar, imagens e sons só podem ser compreendidos inteiramente quando em conjunto, e abrem uma janela para as mentes dos personagens. A música é um personagem a parte. Quando diegética, faz parte da narrativa, com os personagens usando de músicas para criar laços e transmitir emoções. Quando ambiental, é uma poderosa mistura de ruídos brancos e música propriamente dita, e carrega tanto a poesia quanto a mortalidade do isolamento polar. A fotografia é impressionante. A neve e o frio e a amplitude branca do pólo em contraste com os espaços mínimos e impessoais da instalação levam ao misto de isolamento e liberdade. A fotografia é tão impressionante que eu tinha certeza que as filmagens ocorreram em algum lugar realmente gelado. Fiquei muito surpreso ao descobrir que tudo foi feito em estúdio. Parabéns aos 300 ml pela poderosa ilusão visual.

Como disse logo no início: Soundtrack não é fácil de assistir. É um filme lento, denso, e sutil. Mas é um dos melhores filmes nacionais deste ano, junto com Comeback e Deserto (este, infelizmente, sem data prevista de estréia). Uma poderosa história sobre tolerância.

Not rated yet!

Soundtrack

Overview

Cris é um fotógrafo que consegue uma autorização para passar 12 dias em uma instalação polar de pesquisa para executar seu novo projeto de arte. Mas o isolamento e o conflito com os cientistas que habitam a base vão cobrar seu preço.

Metadata
Director 300ml
Writer
Author
Runtime
Country
Release Date 6 julho 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 1    Média: 5/5]