Netflixing: A sociedade literária e a torta de casca de batata (2018) – Crítica

Baseado no romance histórico “The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society”, publicado em 2008 e de autoria de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, A sociedade literária e a torta de casca de batata, novo original do Netflix, teve seu roteiro escrito por Don Roos, Thomas Bezucha e Kevin Hood (sendo este último roteirista também de filmes encantadores como Amor e Inocência e Uma noite real). Para a direção, foi escolhido o veterano Mike Newell, realizador sempre competente e com talento para entregar filmes ao mesmo tempo leves e profundos, com sensibilidade especial para relações humanas.

Se não, vejamos: Newell realizou diversos trabalhos para a TV na Inglaterra, desde a década de 1960, mas entrou definitivamente no imaginário dos cinéfilos ao dirigir, em 1994, Quatro casamentos e um funeral, filme que catapultou Hugh Grant ao estrelato e foi indicado e Melhor Filme e Melhor Roteiro Original no Oscar.  Jogos de Ilusão (1995) é uma pequena pérola pouco conhecida de sua filmografia, e traz um estudo da Inglaterra do pós-guerra pelos olhos de uma menina que entra para uma trupe de teatro.  Em 1997, Newell fez Donnie Brasco, filme biográfico-policial excelente e surpreendente na carreira do diretor, em princípio fora de seu ambiente mais confortável de sensibilidades britânicas.

Em O sorriso de Monalisa (2003), Newell faz uma espécie de versão feminina de Sociedade dos poetas mortos, novamente demonstrando um olhar sensível e preciso sobre a aprendizado e o estabelecimento de opiniões próprias. Newell consegue, ainda, adaptar para o cinema clássicos como O amor nos tempos do cólera (2007) e Grandes esperanças (2012) sem passar vergonha. Longe de serem obras-primas, como seus contrapartes literários, ambos os filmes são transposições mais do que dignas das páginas dos livros para o cinema.

Mesmo em filmes mais voltados ao grande público, como Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005) ou Príncipe da Pérsia: as areias do tempo (2010), Newell consegue manter seu bom padrão – e caiu como uma luva para o diretor fato de o quarto episódio da série de Harry Potter envolver os primeiros “sintomas” mais óbvios, nos três personagens principais, das paixões da adolescência.

Filmes históricos, com personagens femininas de destaque e boas doses de sensibilidade não-apelativa: as forças de Newell estão todas presentes na A sociedade literária e a torta de casca de batata. Não se engane com o título exótico: não se trata de uma comédia pastelão, mas de um drama/romance histórico que aproveita a ocupação, por parte dos soldados alemães, da pequena ilha de Guernsey, situada no English Channel (algo que aconteceu na vida real), para mostrar o impacto da presença de uma nação inimiga no cotidiano dos insulanos e, ao mesmo tempo, apresentar uma deliciosa história de amor aos livros.

Resultado de imagem para guernsey literary and potato peel pie society Jessica Brown Findlay

O filme se passa em 1946, com alguns flashbacks para o período da Segunda Guerra. Vivendo em uma Inglaterra com ares de reconstrução e – finalmente – de algum otimismo, a escritora Juliet Ashton (Lily James) alcançou o sucesso durante a guerra ao escrever colunas cômicas sob o pseudônimo de Izzy Bickerstaff. Bem sucedida, ela tem como editor Sidney Stark (Matthew “Ozymandias” Goode) e namora um rico diplomata estadunidense (Glen Powell). Contatada pelo jornal The Times para escrever artigos sobre leitura, Juliet começa a receber cartas de um certo Dawsey Adams (Michiel Huisman), que pede ajuda para saber mais sobre um autor e conta que participa de uma sociedade literária (a que dá título ao filme), criada durante a ocupação alemã da pequena ilha de Guerney. Intrigada pelo curioso nome da sociedade (cuja origem é revelada para os espectadores logo na primeira cena do filme), ela inicia uma troca de cartas com Damsey e decide conhecer pessoalmente a pequena localidade.

A partir daí temos um filme que mistura o estranhamento e o fascínio mútuo entre a famosa visitante e os habitantes da ilha. Ao participar de uma reunião da sociedade literária, Juliet percebe que há mais histórias a serem descobertas e contadas do que ela imaginava.

Com personagens cativantes e verdadeiros – em contraste com a futilidade da elite londrina no meio da qual a protagonista se sente totalmente deslocada – a pequena Guerney seduz tanto Juliet quanto os espectadores do filme. Tudo isso tendo como molas propulsoras do roteiro o livro e a escrita: seja pela figura da protagonista-escritora, seja pela sociedade literária na qual os livros funcionam como construtor de elo de afeto entre pessoas muito diferentes, seja pela motivação de Juliet em registrar a cativante história da ilha, e o que isso revelará em sua própria personalidade.

Para os fãs saudosos de Downton Abbey, A sociedade literária… traz, além da própria Lily James (consolidando uma carreira cada vez melhor) e de Matthew Goode, as atrizes Jessica Brown Findlay e Penelope Wilton. Completam o elenco principal Tom Courtenay (responsável pelo correios e pela torta de casca de batata), Kit Conor como o jovem Eli, Katherine Parkinson (no papel de Isola, uma carísmática solteirona romântica) e Bronagh Gallagher (atenção fãs de The Commitments, lembram dela?).

É claro que o filme tem alguns probleminhas. Um pouco longo em suas duas horas, o filme ganharia com alguns minutos a menos para alcançar um ritmo perfeito. Além disso, há um certo grau de previsibilidade no desenrolar da história – algo que, se não prejudica muito a experiência, também não colabora para qualificar ainda melhor a obra.

Em meio a tantas produções originais do Netflix de qualidade duvidosa, A sociedade literária e a torta de casca de batata é uma belíssima exceção à regra, e entra no rol dos filmes obrigatórios para os bibliófilos e para os apaixonados pelas sensibilidades britânicas.

 

por D.G.Ducci

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A sociedade literária e a torta de casca de batata

20182 h 04 min
Overview

Após a II Guerra Mundial, escritora se interessa pelos residentes da pequena ilha de Guernsey e sobre sua sociedade literária, e decide escrever um livro sobre a experiência local com a ocupação nazista durante o conflito.

Metadata
Director Mike Newell
Writer Thomas Bezucha, Don Roos, Kevin Hood
Author
Runtime 2 h 04 min
Release Date 19 abril 2018

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