Silêncio (Silence, 2016) – Crítica
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O novo filme de Martin Scorcese não decepciona quem gosta de cinema de arte.

Seria muito provável que Martin Scorsese figurasse em qualquer lista dos melhores diretores em atividade. Prestes a completar 75 anos, o cineasta norte-americano possui uma carreira de mais de 50 anos, e bastante diversificada. Se, em um primeiro momento, seu nome pode ser associado automaticamente a filmes urbanos e violentos, como Taxi Driver, Os Bons Companheiros (provavelmente o melhor filme sobre máfia não dirigido por Francis Ford Copolla) e Os infiltrados (que ganhou o Oscar de Melhor Filme), Scorsese tem uma filmografia extremamente variada – e quase sempre de excelência.

Ele já dirigiu dramas de box (Touro Indomável), romances históricos intensos (A época da inocência), uma fantasia em homenagem ao próprio cinema (A invenção de Hugo Cabret), suspenses espetaculares (Cabo do Medo, Ilha do Medo) a biografia de um ícone americano (O Aviador) e de um surtado da bolsa de valores (O Lobo de Wall Street) e até um video-clipe de Michael Jackson (Bad). Não há como falar de cinema desde a década de 1970 sem passar pelo nome de Martin Scorsese.

Outra vertente temática a que o diretor retorna de tempos em tempos tem a ver com a construção e o questionamento da fé, e da possibilidade de redenção por meio dela. Foi assim no espetacular A Última Tentação de Cristo – filme extremamente polêmico, que gerou protestos de grupos católicos, atritos com Franco Zefirelli e até o incêndio de um cinema – e com Kundun, biografia do atual Dalai Lama da infância até o exílio na Índia e filme indispensável para quem se interessa pelo budismo tibetano.

Em Silêncio, o novo filme do cineasta, baseado no romance homônimo de Shusaku Endo, a religião e a fé retomam o centro da narrativa. Na trama, os dois padres jesuítas portugueses Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) são enviados ao Japão, no século XVII, para descobrir o que aconteceu com o padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), mestre e inspiração de ambos, e que aparentemente renunciara à fé católica. O detalhe é que, na época, o cristianismo havia sido proibido no Japão, e as vilas eram vigiadas por homens do temido “Inquisidor”.

Essa premissa é construída com lentidão e maestria, e não há contradição entre as duas coisas. A narrativa de Silêncio necessita de desenvolvimento compassado, não somente para aprofundar os personagens e seus dramas, mas, principalmente, para imergir o espectador no Japão do século XVII. Naquele universo, Scorsese constrói uma narrativa no melhor estilo de Ingmar Bergman. Trata-se de um filme para ser digerido e admirado por amantes do cinema, e não como mera forma de entretenimento. E não estamos fazendo juízo de valor contrário ao entretenimento, mas apenas constatando que este drama religioso, de 2h40min, ambientado no Japão feudal não se presta a uma diversão escapista. Nele, discutimos fé, orgulho, convicção, preconceito e violência.

Há quem possa criticar Silêncio como um filme parcial ou racista, por tratar os japoneses como vilões. A bem da verdade, os japoneses também são vítimas, afinal de contas, os japoneses cristãos também são perseguidos, torturados e mortos. Os vilões não são os japoneses como povo, mas, sim, os senhores feudais, os poderosos que definiam que religião os camponeses deviam ou não seguir, a custo da própria vida. Trata-se de um crítica reducionista, mesmo considerando que, enquanto os cristãos eram perseguidos no Japão, a Santa Inquisição corria solta pelo mundo ocidental. O filme não era sobre o cristianismo onde ele dominava – é um filme sobre o cristianismo onde ele não floresceu. Além disso, a própria narrativa de Silêncio demonstra a arrogância, o orgulho, a falta de empatia e de compreensão dos jovens padres naquela país inóspito, tão distante de sua cultura.

Como obra cinematográfica, Silêncio é quase irrepreensível. A fotografia mereceu a indicação aos Oscar, por saber explorar a exuberância dos cenários em contraste com o intimismo dos personagens, com uma paleta de cores frias que dão o tom melancólico e trágico de toda a jornada. Direção de arte, figurino e trilha sonora são tão bem executados que, por vezes, é impossível perceber que se trata de uma obra de ficção. Basta comparar com algumas tentativas fracassadas de reproduzir o Japão medieval que resultaram em pastiche.

O ponto mais anto de Silêncio , sem dúvida, são as atuações. Andrew Garfield tem uma atuação comovente, muito melhor do que aquela que lhe rendeu a indicação ao Oscar por Até o Último Homem. Liam Neeson faz uma participação importante e intensa, e o elenco japonês é de um nível muito alto, especialmente os intérpretes de Inoue, o Inquisidor, e Kichihiro, o personagem dúbio, que faz as vezes de alívio cômico, mas no tom certo. Adam Driver, por sua vez, não acrescenta nem prejudica.

Se Silêncio tem um ponto fraco, é o excesso de narração. Embora esteja refletindo o pensamento do personagem e, algumas vezes, a suposta voz de Deus, o uso do recurso é excessivo. Cinema é uma arte audioVISUAL, e a narração acaba se sobrepondo mesmo aos diálogos como forma de desenvolver a história. Porém, esta é uma falha menor em uma obra que merecia mais atenção da crítica, embora seja de difícil assimilação pela maior parte do público. Felizmente, Scorsese já alcançou um patamar no qual não precisa se preocupar com o sucesso de bilheteria.

Por Maurício Costa e D.G Ducci.

Not rated yet!

Silêncio

20162 h 41 min
Overview

No século XVII, dois padres jesuítas vindos de Portugal - Sebastião Rodrigues e Francisco Garrpe - viajam até ao Japão, sob ordens da igreja, na esperança de encontrarem o seu mentor, o padre Cristóvão Ferreira, que alegadamente cometeu apostasia. Nas terras nipónicas sob o regime Xogunato Tokugawa, que baniu o catolicismo e quase todo o contacto com o estrangeiro, os dois jovens religiosos testemunham a perseguição dos japoneses cristãos pela mão do seu próprio governo. Eventualmente, o par separa-se com Rodrigues a viajar até ao campo, interrogando-se sobre o silêncio de Deus face ao sofrimento dos seus filhos.

Metadata
Director Martin Scorsese
Writer
Author
Runtime 2 h 41 min
Country  Mexico Taiwan United States of America
Release Date 22 dezembro 2016

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 6    Média: 4.3/5]
  • Lucas Albuquerque

    O que vocês acharam da última cena do filme?
    (saliento que este comentário, e a resposta dele, podem ter spoiler)

    Se fosse só o plano detalhe ok. Se fosse tudo, menos o plano detalhe, mais ou menos ok (deixando subentendido).
    Tendo os dois, aí pesou… e ficou piegas, explicativo e bobo até.

    O lance da transição dos idiomas não foi um problema para vocês?

    • Daniel Guilarducci

      Não tive problemas com os idiomas não… A cena final… verdade, ela poderia ser sido um pouco mais enxuta. Pela sobriedade do filme, o travelling (com um efeito especial não tão perfeito assim) pareceu um pouquinho demais – mas nada hediondo também…

      O que me incomodou no filme está aí no texto: a narração explicando o que está sendo visto. “E então a aldeia ficou triste” e mostra o povo triste. Tivesse tirado a narração em alguns momentos, o filme teria sido mais próximo da perfeição (vale dizer que eu teria dado 4,5). Era preciso mais silêncio em Silêncio. 🙂

      • Aniello Greco

        Eu gostei bastante da transição dos idiomas. Feita no tempo certo, e temática com a percepção que vamos ganhando do Japão ao longo do filme.

        Eu não me incomodei com a cena final visualmente. A narrativa em off é desnecessária e até intrusiva, mas a finalização com o funeral e o plano detalhe acrescentou dubiedade sobre o sentido da apostasia, e dos momentos em que Deus “fala”.

      • Maurício Costa

        Mas a nota não foi 5, foi 4,8, a mais próxima da média entre a minha e a sua. 🙂
        Veja que as estrelas não estão cheias. hehe

    • Bruno Castro

      Aquela imagem do final de algum modo me impressionou bastante, e essa mudança repentina de plano não chegou a me assustar, mas sim me impressionar (era sobre isso q vc se referia? Pq tenho a memória bem fraca haha) Quanto à questão da transição de idioma, não tive problema – pelo contrário, até admirei, por ser gradual e não mudar tanto o tom que o filme seguia até então. Sobre a narração, cheguei a notar que havia em excesso, mas só pelo olhar crítico mesmo, pois apreciei isso também. Achei que deu uma profundidade maior ao personagem. Uma profundidade que a gente geralmente só procura e encontra em livros, mas sem parecer aquela coisa robótica que roteiros de má qualidade reproduzem.
      Ah! E que crítica, hein Maurício? Boa demais! Parabéns!