SEVERINA (2018) – Uma paixão Romântica e o amor pelos livros.

O fim de março e o início abril deste ano foram meses especiais nos cinemas brasileiros para os amantes dos livros. Em 22 de março, estreou A Livraria, uma boa adaptação do romance de Penelope Fitzgerald para os cinemas (cuja crítica injusta de Lucas Albuquerque para o Razão você lê aqui – eu avaliaria o filme entre 3,5 e 4 estrelas). Em abril, é a vez de Severina, coprodução uruguaio-brasileira, escrita e dirigida por Felipe Hirsch, com base em romance do escritor guatemalteco Rodrigo Rey Rosa.

Ambos os filmes tem boas doses de bibliofilia. Entretanto, enquanto a obra baseada na escritora inglesa concentra-se na intolerância e no jogo de poderes locais em uma pequena vila, que espelham a perversidade da sociedade inglesa interiorana da época, o filme latino-americano é mais intimista, Romântico e literário.

 

Felipe Hirsch, influente diretor de teatro brasileiro, é mais conhecido no audiovisual pela premiada série A menina sem qualidades (2013), exibida na extinta MTV. Assim como na série, temos em Severina personagens densos e algo misteriosos. Também como na série, os livros, a leitura e a literatura ganham papel de força influenciadora nas reflexões dos personagens. Está de volta também o ator argentino Javier Drolas, que havia participado do primeiro episódio da série, e que é mais conhecido pelo seu papel no filme Medianeiras (2011).

Hirsch conta que o filme nasceu como um entre vários projetos sobre literatura brasileira criado para a Feira do Livro de Frankfurt, em 2013.O diretor tem trabalhado, nos últimos cinco anos, em obras para o teatro (A tragédia e a comédia Latino Americana), cinematográficas (como Severina e um curta metragem ainda inédito), e numa série escrita com 20 escritores latino-americanos contemporâneos.

Em Severina, Drolas interpreta um livreiro solitário e melancólico. Ele administra sua livraria em um bairro antigo de Montevidéu e tem um sonho parado de escrever um romance. Sua rotina é a de atender a clientes cada vez mais raros (embora, como ele mesmo identifique, consegue manter a livraria porque “surpreendentemente, as pessoas ainda leem”) e a de organizar leituras com aspirantes a filósofos e literatos, porque “não tinham nada melhor a fazer e eram viciados em livros”. Essa calmaria é abalada pelo aparecimento da jovem Ana (Carla Quevedo, de O segredo de seus olhos) que passa a frequentar a livraria para roubar livros. Encantado por ela, o livreiro finge não perceber os roubos para que ela sempre retorne.

A partir dessa premissa o filme mescla literatura, paixão amorosa, paixão pelos livros e até uma dose de suspense. Quem será essa moça? Por que ela rouba livros e o que faz com eles? Quem é o estranho homem na vida de sua musa? Um namorado? O pai? Seria essa mulher real ou fruto de sua imaginação/desejo de encanto? Do ambiente ao mesmo tempo fechado e receptivo da livraria La Entretenida, que ao mesmo tempo preenche e preenche os personagens, até as ruas vazias do bairro, o protagonista embarca em uma busca quase(?) obsessiva por sua musa, entre aproximações e distanciamentos.

Colaboram para essa química as interpretações dos atores. Drolas mistura um ar de cachorro abandonado com a intensidade de quem se apaixona, enquanto Quevedo convence como mulher misteriosa e repleta de camadas e mistérios mal explicados. Destaque também para Alejandro Awada, no papel de Ahmad, também livreiro, e que ajudará a dar pistas sobre a enigmática de Ana.

Tendo como locação originalmente planejada a cidade de Porto Alegre, com elenco brasileiro, Hirsch teve problemas com os investidores originais e acabou estabelecendo parceria com o Uruguai, tendo atores argentinos e chilenos. A história, entretanto, poderia se passar em qualquer cidade: o encanto pelos livros e pela musa misteriosa, a mistura de charme e decadência das livrarias de bairro e o poder do perdão – evocado pela epígrafe do escritor estadunidense William Carlos Williams, que abre o filme – tem traços universais.

Se, em A menina sem qualidades, havia um certo artificialismo nos diálogos – filosóficos e literários demais para soarem reais, como em tantas outros filmes latino-americanos – aqui o incômodo é menor: a maioria dos diálogos em Severina é natural, deixando os textos mais elaborados e rebuscados reservados para os debates na livraria ou para a leitura de trechos de livros. Mesmo conseguindo um efeito mais orgânico do que na série, existe ainda um peso no texto, em especial próximo ao final, em trecho excessivamente explicativo.

Severina é ao mesmo tempo realismo e delírio. Indicado para apreciadores de cinema latino-americano, duplamente indicado para quem gosta de dramas Românticos (a letra maiúscula é proposital), e obrigatório para bibliófilos (some meia estrela na nota, se for seu caso).

 

por D.G. Ducci

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Severina

20171 h 43 min
Overview

A vida de um livreiro, melancólico e aspirante a escritor, é abalada pelas aparições e desaparições de sua nova musa que rouba na sua livraria. Logo, ele descobre que ela rouba nas livrarias de outros livreiros também. Então, ele começa a viver um delírio amoroso, na fronteira entre a ficção e a realidade. No entanto, quanto mais se aproxima dela, mais indescritível ela se torna. Ele enfim conseguirá ocupar um lugar na vida dela, ao mesmo tempo em que se afasta de sua própria vida? Seleção Oficial do Festival de Locarno 2017.

Metadata
Director Felipe Hirsch
Writer
Author
Runtime 1 h 43 min
Country  Uruguay Brazil
Release Date 21 agosto 2017

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