Se a Rua Beale Falasse (2018) – 3 Indicações ao Oscar – Crítica
Se a Rua Beale Falasse

Se a Rua Beale Falasse é o mais novo trabalho de Barry Jenkins, diretor do La La Land, ops, Moonlight, filme que venceu o Oscar há dois anos. Mesmo estando de fora das duas categorias principais agora, If Beale Street Could Talk, no original, está presente em 3 categorias (e poderia ter aparecido em mais), vindo forte em todas: Atriz Coadjuvante (Regina King), Trilha Sonora e Roteiro Adaptado (já que é baseado no livro do James Baldwin).

Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James) se conhecem desde crianças e desenvolveram uma ligação forte. Na vida adulta, o jovem casal passa por perrengues de várias naturezas, em especial por conta do racismo – que faz com que Fonny seja preso por um crime que não cometeu. A trama de Se a Rua Beale Falasse é a história dos dramas pessoais deles e da tentativa de Tish de conseguir justiça para o amado.

Se a Rua Beale Falasse

A história é contada de modo não linear em uma dinâmica muito fluida. O vai e vem temporal nunca soa cansativo ou com ritmo quebrado. Além disso, não há elementos muito expositivos, como letreiros na tela indicando “seis meses antes” ou algo assim, sem nunca soar confuso. Tudo é muito orgânico.

E orgânico também são os personagens. Há muita vida nos dois protagonistas. Percebemos os anseios, problemas e acima de tudo o amor entre eles. A relação deles com as outras figuras que os cercam ajuda a construir os caracteres que devemos apreender. Um recurso deixa um pouco a desejar. A narração, apesar de dar um efeito poético e de ser um reflexo do ar literário da obra original, guia o olhar do público, aqui sim de uma maneria expositiva.

Tal fator pesa negativamente, justamente por Jenkins ser muito inteligente, ou seja, por ele não precisar desses facilitadores, já que a mão do diretor/roteirista dava conta por si só. Repare em como a câmera usa planos detalhes para mostrar o olhar de Tish se apaixonando por Fonny. Ou então quando dos enquadramentos que colocam os personagens no centro da tela e olhando fixamente para a frente/para o espectador, sendo que a ferramenta é usada para denotar diferentes ideias.

Dos elementos técnicos, temos uma predominância de tons mais fechados, em especial um pastel, reforçando uma certa tristeza e ausência. O design de produção não grita, mas é muito eficaz para nos transportar para a época. E os figurinos também vão nessa linha mais sutil, o momento mais destacado é uma mistura de roupas azuis e amarelas dos protagonistas já na primeira cena, mostrando que um está no outro.

Se a Rua Beale Falasse

Todavia, o elemento mais poderoso é a trilha sonora. De fato uma das melhores, talvez a melhor da temporada. Dado o ar romântico e o drama pesado poderia ser tentador enveredar para um lado mais piegas. Mas Nicholas Britell (de vários trabalhos, como o próprio Moonlight) sabe dosar as entradas e soar constante sem ser incômodo, acrescentando à narrativa e não a sobrepondo. Uma cena em especial tem um belo trabalho sonoro: a cena de sexo se incia com uma trilha incidental, passa para um som mais cru (os barulhos da chuva, dos corpos) e termina em uma música diegética. Essa mudança acompanha o que acontece em tela de modo preciso.

Quem também é favorito ao Oscar é Regina King que faz a mãe de Tish. Ela tem pouco tempo em tela, porém em duas cenas mostra os motivos de estar tão falada. Quando ela precisa fazer um anúncio para a família no primeiro ato e quando ela tem uma conversa (e principalmente o depois da conversa) já mais para o final do filme. Nas duas cenas, seria comum haver um exagero na voz e nas expressões. King consegue segurar os sentimentos sem nunca parecer apática, muito pelo contrário há força sincera e potente. Pessoalmente eu prefiro a dupla do longa A Favorita (Emma Stone e Rachel Weisz), mas sou voto vencido e até pelas duas dividirem os votos, King ficará com o prêmio.

Veja todas as nossas críticas dos filmes indicados ao Oscar 2019

O caráter universal da história, reforçado pelo título Beale Street – que aqui vem como símbolo e não um lugar físico, algo que fica claro na citação do James Baldwin no começo do filme e os closes de Jenkins humanizam ainda mais aquelas figuras. Se a Rua Beale Falasse é delicado, mesmo trazendo uma das máculas da história estadunidense como um dos temas.

Confira também o vídeo onde o Maurício Costa comentou o filme no New Orleans Film Festival:

New Orleans Film Festival. If Beale Street could talk. Novo filme de Barry Jenkins. Forte concorrente ao Oscar.

Posted by Razão de Aspecto on Sunday, October 21, 2018

 

 

Not rated yet!

If Beale Street Could Talk

20181 h 59 min
Overview

Baseado no célebre romance de James Baldwin, o filme acompanha Tish (Kiki Layne), uma grávida do Harlem, que luta para livrar seu marido de uma acusação criminal injusta e de subtextos racistas a tempo de tê-lo em casa para o nascimento de seu bebê

Metadata
Director Barry Jenkins
Writer
Author
Runtime 1 h 59 min
Release Date 30 novembro 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 1    Média: 5/5]