Roda Gigante (Wonder Wheel, 2017) – Crítica
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Woody Allen realizou mais de cinquenta filmes e nunca conseguiu fazer somente um filme ruim. Na pior das hipóteses, fez alguns filmes medianos. Como o próprio diretor afirma, modestamente, em Woody Allen: Um Documentário, as estatísticas o favorecem: com tantos filmes no currículo, alguns seriam necessariamente bons. Se, na frieza dos números, Allen tem razão; no calor das narrativas, o que temos é um diretor talentoso, com visão de mundo única, capaz de realizar alguns dos melhores filmes da história do cinema em diferentes gêneros, da comédia mais trivial , como em Dirigindo no Escuro e Trapaceirospassando obras com alta densidade intelectual e emocional, como Annie Hall, Manhattan, Interiores e Meia Noite em Paris, pelos dramas densos, Como Hannah e Suas irmãs e Crimes e Pecados, até o suspense de MatchpointCada uma de suas obras tem marca própria e nos dá muito o que pensar.

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Em Roda Gigante, Woody Allen realiza seu melhor filme desde Blue Jasmineapós o bom Magia ao Luar, o mediano O Homem Irracional e o muito bom  Café Society. Ambientado na Conney Island dos anos 1950, lugar onde o diretor passou grande parta da sua infância e da sua adolescência, Roda Gigante é um drama familiar centrado na infelicidade de Ginny e nas consequências de seus atos para as que pessoas que a cercam.

Claramente inspirado nas peças de Eugene O’Neal – neste caso, didaticamente apresentado no filme – e Tenessee Willians – o que justifica a semelhança com Blue Jasmine, por exemplo -, Roda Gigante concentra-se nas questões existenciais e na busca, sem sentido, do ser humano pela felicidade, em um contexto no qual a pobreza, o alcoolismo e a completa falta de perspectivas levam os sonhadores e os ambiciosos ao desespero. Para Ginny, o adultério parece ser a saída daquela vida infeliz; para Mickey, seu amante, aquela aventura encaixa-se no que considera a vida do que escritor que gostaria de se tornar; para o filho de Ginny, Richie, a piromania é a válvula de escape; para Carol, uma nova paixão pode ser o recomeço e para Humpty, bem, parece não ver saída. Com esse conjunto de personagens complexos, Woody Allen desenvolve um drama envolvente.

Se o texto e a estrutura da história dentro da história, narrada pelo pretenso escrito Mickey, são funcionais, são as atuações, especialmente a de Kate Winslet, no papel da desesperada Ginny, que tornam Roda Gigante uma experiência poderosa e, por que não dizer, devastadora quanto a falsas esperanças. Kate Winslet nos leva aos pontos mais sombrios da natureza humana com naturalidade, ao interpretar as difíceis escolhas de uma mulher sem alternativas, aprisionada pelo machismo, pela dependência material e pela fantasia de ser salva daquele mundo limitado. Sim, é possível afirmar que Roda Gigante trata, em grande medida, da posição da mulher naquela sociedade, e Kate Winslet dá uma verdadeira aula de imersão na personagem. A atriz tem sido cogitada como forte candidata à indicação ao Oscar de melhor atriz, e, sinceramente, espero que a consiga. Woody Allen já teve seus filmes premiados quatro vezes com o Oscar de melhor atriz por personagens femininas fortes, e torço para que Kate Winslet seja a quinta a consegui-lo.

Para além da narrativa, Roda Gigante é tecnicamente impecável e visualmente exuberante.  A fotografia de Vittorio Storaro é um espetáculo visual, não somente pelos belos enquadramentos, mas também, e principalmente, pelo jogo de luzes e pelo bom uso da paleta de cores. Ao explorar o vermelho, o amarelo e o azul em sincronia com as emoções dos personagens, Vittorio Storaro cria um ambiente quase onírico, mas, ao mesmo tempo, aconchegante para o espectador – quase como se estivéssemos no teatro, muito próximos do palco. Ao mesmo tempo, esse eco teatral, embora tênue, jamais rompe os limites da linguagem cinematográfica. Somente por esse trabalho de iluminação com clara função narrativa, Storaro mereceria a indicação ao Oscar, mas a considero difícil em um ano com tantos filmes visualmente exuberantes.  Somado à fotografia impecável, o trabalho de direção de arte de Santo Loquasto – parceiro habitual de Allen até a metade dos anos 1990, que retornou em suas últimas produções, duas décadas mais tarde -, recria a Conney Island dos anos 1950 com uma beleza inocente, decadente e, ao mesmo tempo, onírica, despertando um grande sentimento de nostalgia mesmo nas pessoas que nunca estiveram naquele lugar. Para não me restringir apenas aos elogios, a trilha sonora de Roda Gigante é repetitiva e fraca, embora a letra da música tema tenha relação direta com trama- o que se perde para aqueles que não compreendem inglês.

Roda Gigante prova que, aos 82 anos, Woody Allen ainda é capaz de realizar grandes filmes e provocar reflexões importantes sobre a vida. Desta vez, o pessimismo característico da visão de mundo do diretor está cru, sem nenhuma maquiagem de sarcasmo ou bom humor. A falta de sentido na busca da felicidade e a desesperança refletem-se com intensidade nessa narrativa, resultando em um filme marcante, mas que pode precisar de um pouco mais de experiência de vida, por parte do espectador, para ser compreendido totalmente.

 

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Wonder Wheel

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