Robin Hood: A origem (2018) – Crítica

A primeira coisa que se deve ter em mente ao assistir a Robin Hood: A origem é que não se verá um filme preocupado com fidedignidade histórica. Os realizadores propositalmente decidiram fazer um misturado estético, em que o vocabulário utilizado, objetos de cena, cenário e figurinos tem um pé no medieval, um pé no contemporâneo e um pé no futuro (quantos pés tem esse bicho?). Essa ideia pode ter surgido com o propósito de trazer à nova versão da lenda ares transtemporais, como os bons mitos o são. Nas mãos de um bom roteirista e/ou diretor, poderíamos ter um filme em que a peraltice estética resultasse em algo sensacional. Entretanto, o que sobra na tela é uma aventura genérica, pouco inspirada e – por favor! – esquecível.

O mote dos cartazes tenta atrair o público com os dizeres “A lenda você conhece. A história não”. A partir daí já nascem dois problemas: o primeiro é que existem pouquíssimos elementos históricos consensuais para definir quem teria sido, de fato, o tal Robin Hood que roubava dos ricos para dar aos pobres. Há, inclusive, teorias que defendem não ter existido uma pessoa específica por trás dessa história, e sim um codinome utilizado por vários ladrões ao longo do século XII. O segundo problema é que o filme, como explicado, não tem a menor pretensão de se ater a fatos históricos.

Assim como no Robin Hood (2010) de Ridley Scott, o filme decide ser um prequel da lenda inglesa, e contar como se estabeleceu a figura do nobre destituído de seus bens, que reúne um bando de ladrões de fusô na floresta de Sherwood, enquanto tem um romance com Lady Marian e enfrenta seu arqui-inimigo, o xerife de Nottingham. À diferença daquele filme, que optava pelo realismo cinza da Idade Média, a versão de 2018, dirigida por Otto Bathurst, mistura uma estética de quadrinhos com um intuito de dialogar diretamente com os tempos contemporâneos, mas sem um pingo de sutileza.

Dessa forma, Robin de Loxley (Taron Egerton) vive feliz e contente como playboyzinho lorde, curtindo seu namoro com Marian (Eve Hewson), até que é convocado para lutar nas Cruzadas. Lá, ele conhece Little John (Jamie Foxx), muçulmano com quem irá estabelecer uma relação de amizade e de mestre/aluno. Ao retornar para a Inglaterra, descobre que tinha sido dado como morto e que suas propriedades foram usurpadas pelo Xerife (Ben Mendelsohn). No elenco principal, temos ainda F.Murray Abraham como um cardeal sem escrúpulos, James Dornan como Will Scarlet (em um arco(!) dramático beeem diferente do que na lenda tradicional), e Tim Minchin como um Frei Tuck magro e quase funcional como alívio cômico.

Algumas ideias tinham muito potencial. Os uniformes, o tipo de movimentação dos guerreiros e a fotografia das cenas nas Cruzadas evoca de forma interessante a ação dos soldados americanos em suas incursões no mesmo Oriente Médio e também na Ásia Meridional. O conflito entre os habitantes de Nottingham e os soldados do Xerife espelham, visual e tematicamente, os embates entre manifestantes e policiais durante os protestos nas grandes cidades atuais. Dito assim, o filme parece uma bela discussão sobre o mundo atual disfarçado de filme leve de ação. Infelizmente, não é o caso.

E seguem-se cenas com nobres de terno ou sobretudo – representando a elite –, trabalhadores de uma mina claramente inspirada em um chão de fábrica de siderúrgica, uma igreja de arquitetura medieval por fora e moderna por dentro, a camada mais pobre morando numa favela e Robin Hood com sua jaqueta da GAP, há um desfile de metáforas óbvias e rasas demais, apresentadas por um elenco com desempenho entre o caricatural e o sofrível.

Tenho muita curiosidade em ver Taron Egerton como Elton John na biografia cinematográfica do cantor (Rocketman) a ser lançada em 2019. Talvez ali eu consiga ver o talento do ator, muito fraco nos dois Kingsman (2014 e 2017) e pior ainda neste filme. Ao menos ele se salva nas cenas de ação, com uma fisicalidade e uso do arco bastante convincentes. Ben Mendelsohn tem de conversar com seu agente para conseguir papéis um pouco diferentes, sob o risco de virar ator de um papel só, o de vilão caricatural (estão aí Rogue One, Jogador nº 1 e este Robin Hood pra atestar). Jamie Foxx traz um Little John de uma nota só, que fala quase sempre da mesma forma enfática, sem variações, e obrigado a dizer frases com a mesma qualidade do filme (“você só é fraco se acreditar que é fraco”). Acho que o filme acreditou ser forte… não é.

A lenda de Robin Hood fala de resistência à tirania, de preocupação social e de fidelidade ao verdadeiro comandante cujo poder foi usurpado em sua ausência. Com essa linha básica, a história pode ser atualizada no cinema a cada geração. Infelizmente, deste vez, a geração recebe algo – que talvez mereça – bonitinho esteticamente, cheio de estilo e de marra, mas incoerente e muito raso.

 Robin Hood consegue um feito improvável: embora seja recheado de cenas de ação e não tenha grandes problemas de ritmo, tudo o que acontece na tela cativa muito pouco. À exceção da escolha de figurinos – que mistura inventividade e vergonha alheia -, nada é muito criativo ou marcante, e, quando, ao final do filme, percebe-se que há um gancho possível para uma continuação, já se pensando no estabelecimento de uma franquia, a única coisa que se pensa é em acertar uma flechada na cabeça do produtor.

 

por D.G.Ducci

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Robin Hood - A Origem

20181 h 56 min
Overview

A origem da famosa lenda sobre o ladrão que rouba dos ricos para dar aos pobres. Robin Hood (Taron Egerton) volta das Cruzadas e surpreende-se ao encontrar a Floresta Sherwood infestada de criminosos, no mais completo caos. Ele não deixará que as coisas permaneçam desse jeito.

Metadata
Director Otto Bathurst
Writer
Author
Runtime 1 h 56 min
Release Date 20 novembro 2018

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