Prometheus é um bom início para a franquia Alien?

Minha recente crítica de Alien: Covenant gerou um número bem alto de comentários em nossa página no Facebook, o que me deixou bastante contente e agradecido. É exatamente este tipo de retorno que nos anima a fazer mais e melhores críticas. Uma boa parte dos comentários defendia que eu havia sido cruel demais em minha opinião acerca do Prometheus, o primeiro prequel da franquia, também dirigido por Ridley Scott. Então decidi assistir novamente o filme de 2012, e aproveitei e assisti no embalo o primeiro filme da franquia, Alien: O oitavo passageiro, e com isto reavaliar minha posição acerca dos dois prequels. 

Vale comentar dois pequenos detalhes pessoais que não apareceram na minha crítica de Alien: Covenant. Ao sair do cinema eu já estava com vontade de rever Prometheus, pois algumas das cenas ligadas aos engenheiros (e não arquitetos, como eu os chamei na crítica) eu não compreendi bem, por não lembrar de alguns detalhes do Prometheus. Além disto, quando vi Prometheus pela primeira vez (lá em 2012) eu sai do cinema bem animado e elogiando o filme. Foi nos dias posteriores ao filme que eu fui piorando a minha avaliação, a medida que absorvia a história e analisava mais.

Mas então, Aniello, assistir novamente Prometheus Alien: O oitavo passageiro fez você mudar de opinião sobre a importância e a qualidade do primeiro prequel para a franquia Alien? Sim e não. Rever Prometheus me fez relembrar de algumas das qualidades do filme, e me ajudou a entender um pouco mais as motivações de David, o andróide interpretado por Michael Fassbender nos dois últimos filmes. E rever Alien: O oitavo passageiro, em especial a cena em que a tripulação da Nostromo encontra a nave dos engenheiros que contem os ovos de xenomorphos me fez contextualizar o que exatamente os dois prequels tentam explicar e o que ainda há de lacunas a serem preenchidas pelo próximo filme da franquia.

Dito isto, o centro da minha opinião se mantêm: Prometheus é o filme mais irregular da franquia, que peca primeiro por contar uma história de gênero totalmente diferente das que ele pretende explicar, e também por ser um filme extremamente pretensioso em seus objetivos, sem conseguir atingi-los.

A tetralogia Alien é essencialmente um conjunto de filmes de monstros. Quase todos os elementos narrativos estão ali para reforçar a questão da sobrevivência dos humanos diante de um predador perfeito. Neste sentido, os elementos paralelos são positivos por reforçarem as dificuldades e os conflitos nesta busca pela sobrevivência. O interesse desumano das corporações, o papel dúbio dos andróides, a aura de estranhamento gerada pela presença mortuária dos engenheiros, etc, tudo isto estão, nos quatro filmes (um pouco menos no quarto) para gerar empatia pelos humanos que estão a um passo de serem devorados pelo alien. Ou pior, usados para reprodução.

Prometheus rompe totalmente com esta proposta. O nome do filme já nos indica isto: o filme é uma fábula sombria do ser humano buscando se tornar igual aos deuses, e caindo em desgraça no processo. A temática deixa de ser a sobrevivência primal de escapar de um predador, e passa a ser a arrogância humana, a busca da imortalidade, a busca da verdade última sobre si mesmo, etc, etc.

E como toda aposta de grande porte, esta mudança de tom poderia ser genial, mas aumenta o risco de fracasso. A mudança de foco do monstro para os engenheiros poderia transformar um filme de terror/ação em uma ficção científica épica, mitológica. Até certo ponto filme consegue realizar isto. A presença dos engenheiros, nossos criadores, e a total incapacidade do homem entender o propósito deles nos deixa assombrados e perplexos. Mas assombro e perplexidade são emoções que nos deixam em suspense, e quando não se dá um fecho a elas, a frustração é o resultado mais comum.

Este é o principal problema de Prometheus. Ele sacrifica o medo, a tensão e a suspense em troca de uma história de uma busca quase religiosa do homem pelo seu criador. E não entrega isto, ficando apenas com um pouco de sugestão e de mistério, mas sem nenhuma revelação. No filme temos poucas cenas de real tensão, sem a violência e o horror gore típicos da franquia. A cena mais próxima do estilo tem uma vítima não humana, o que tira muito do seu impacto. O único momento realmente tenso é a operação de extração.

Além disto o filme carrega um grave problema com seus personagens, exceto o excelente David de Fassbender e, em menor grau, a Dra. Elisabeth Shaw de Noomi Rapace (de A garota da Tatuagem de Dragão). Todos os demais personagens são completamente vazios, ou pior, acrescentam sub-plots desnecessários e esquisitos. O pior exemplo neste sentido é Meredith Vickers (Charlize Theron, de Velozes e Furiosos 8). A personagem parece ser um grande mistério, até o momento em que seu plot-tiwst é revelado. Mas a solução da sua trama é completamente irrelevante ao filme, nada acrescenta em nada. Além disto o roteiro carrega diálogos pomposos mas irrelevantes, ações inexplicavelmente estúpidas de diversos personagens e diversas soluções bem esquisitas na trama que dificultam a manutenção da descrença.

Mas o filme carrega fortes méritos também. O principal é o excelente David de Fassbender. Um andróide repleto de conflitos de dubiedades, que consegue ser perturbadoramente desumano, mas similar demais ao humano. Temos também um cuidado visual primoroso na fotografia, nos cenários e nos poucos momentos com xenomorphos do filme. Mesmo não contando com um visual tão Giger como os demais filmes da franquia, o estilo biomecânico do artista suíço se faz presente, com o resultado típico: um estranhamento belo e apavorante. E uma coisa é inegável: o filme é ESTRANHO, em um bom sentido. David é um androide estranho, Meredith Vickers é uma humana estranha, os engenheiros e sua tecnologia e motivações são quase que sobrenaturalmente estranhos. Há uma sensação de horror cósmico, uma perplexidade diante de uma realidade incompreensível e insana, um clima realmente lovecraftiano. Contudo infelizmente o horror gore, a violência atávica e visceral (literalmente) do alien ficou praticamente de lado.

No balanço final temos um bom filme com vários problemas, alguns verdadeiramente frustrantes. O filme funciona, em especial nos momentos em que remete a tetralogia alien, mas dá um passo maior que a perna e tropeça ao deixar de ser um terror de sobrevivência e não conseguir se transformar em um épico.

Felizmente Alien: Covenant resgata muito do tom da franquia original, retornando ao gore, a luta pela sobrevivência, sendo muito mais próximo da tetralogia que seu antecessor.

E um detalhe menor, mas que sempre me incomodou. SPOILER ALERT. Se você não assistiu a Prometheus e Alien: Covenant, por favor, pare de ler agora ou siga por conta e risco.

SPOILER ALERT SPOILER ALERT SPOILER ALERT SPOILER ALERT SPOILER ALERT SPOILER ALERT SPOILER ALERT

Qual o sentido de civilizações ancestrais deixarem em seus registros arqueológicos um mapa para a humanidade encontrar uma base militar dos engenheiros para a produção de uma arma biológica com o objetivo de exterminar a humanidade?
Pode ser que esta pergunta seja respondida no próximo filme. Ridley Scott nos prometeu pelo menos mais um prequel. Este filme talvez responda as diversas perguntas levantadas por Prometheus e Alien: Covenant. Quem são os engenheiros? Por que eles queriam exterminar a humanidade? Como e porque uma nave com ovos de xenomorphos e um engenheiro morto por ser hospedeiro de um alien foi parar no planetóide LV-426 (início de Alien: o oitavo passageiro)? Os engenheiros foram completamente exterminados no ataque de David? Como Elizabeth Shaw morreu? A nave Covenant foi a que deu origem a colônia de Aliens: O resgate? E por que diabos tem uma pintura rupestre de 35.000 anos de idade em uma caverna na Terra que fala da base militar que irá construir a arma definitiva contra a humanidade?

 

 

 

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Prometheus

A busca por nossas origens pode nos levar ao fim.

20122 h 04 min
Overview

2089. Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) são exploradores que encontram a mesma pintura em várias cavernas na Terra. Com base nisto, eles desenvolvem uma teoria em que a pintura aponta para um lugar específico do universo, que teria alguma relação com o início da vida no planeta. A dupla convence um milionário, Peter Weyland (Guy Pearce), a bancar uma cara expedição interestelar para investigar o assunto. Desta forma, Elizabeth e Charlie entram para a tripulação da nave Prometheus, composta pelo robô David (Michael Fassbender), a diretora Meredith Vickers (Charlize Theron), o capitão Janek (Idris Elba), entre outros. Todos, com exceção de David, hibernam em sono criogênico até que a nave chegue ao objetivo, o que acontece em 2093. Encantados com a descoberta de um novo mundo e a possibilidade de revelarem o segredo da origem da vida na Terra, Elizabeth e Charlie não percebem que o local é também bastante perigoso.

Metadata
Director Ridley Scott
Writer Jon Spaihts, Damon Lindelof
Author
Runtime 2 h 04 min
Release Date 30 maio 2012

Nota do Razão de Aspecto

 

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