Projeto Flórida (The Florida Project, 2017) – Crítica
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Projeto Flórida.

Quando Sean Baker lançou Tangerine, em 2015, o filme a chamou mais atenção por ter sido filmado com um Iphone 5 (aliás, minha única crítica, porque o Galaxy S5 já filmava em 4k! hehe) do que pela narrativa potente e pela abordagem sensível da vida de personagens marginais, de pessoas semi-excluídas da sociedade e de seus dilemas: os travestis da periferia de Los Angeles. Na época, Tangerine foi cogitado, inclusive, para indicação ao Oscar de Melhor Atriz – que, infelizmente, não se concretizou. Se Tangerine não recebeu todo o reconhecimento que merecia, em 2017, Sean Baker deu mais uma mostra de maturidade e talento como diretor no excelente Projeto Flórida, dedicando seu olhar cinematográfico acurado às comunidades pobres do entorno dos parques da Disney, em Orlando.

O próprio nome da obra traz uma ironia. Nos Estados Unidos, utiliza-se o termo projeto para descrever o que, no Brasil, chamamos de conjuntos habitacionais – complexos residenciais populares, financiados pelo poder público e destinados às populações de baixa renda.  O Projeto Flórida, por sua vez, refere-se a uma hotel/pousada de baixo custo,  habitado por famílias de baixa renda, o que lhe dá a aparência de projeto. Nessa pousada, a Magic Castle, os moradores devem sair a cada 29 dias e trocar de quarto, para que não se caracterize a residência fixa. O responsável por controlar o fluxo de pessoas e os problemas do local é o gerente Bobby, interpretado por William Dafoe – indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por este papel.

Projeto Flórida investe na simplicidade como forma de amplificar o poder da narrativa. Filmado como um documentário observacional, seguimos a rotina da pequena Moone, interpretada por Brooklyn Price,  e de seus amigos durante as férias escolares, quando passam os dias tentando vencer o tédio nos pântanos, terrenos baldios e condomínios abandonados da região, além, é claro de infernizarem a vida de Bobby no hotel. Do ponto de vista das crianças, acompanhamos a rotina de Halley, interpretada por Bria Vinaite – a mãe jovem, irresponsável, quase negligente, mas amorosa de Moone, de Bobby e dos outros adultos. Sean Baker não se preocupa em desenvolver uma narrativa tradicional, mas em construir os personagens, com todas as suas idiossincrasias, para que o público possa, cedo ou tarde, importar-se com os seus destinos.  Vemos os adultos prostituindo-se, vendendo perfumes, pedindo esmolas, e as crianças pedindo dinheiro aos turistas para comprar sorvete, por exemplo. Vemos crianças muito pequenas fazendo coisas perigosas em lugares isolados, com total negligência dos adultos. Vemos como, no meio de tanta pobreza e desolação, as pessoas lutam para sobreviver e encontram pequenos momentos de felicidade em suas vidas.

Como resultado, Projeto Flórida conta uma anti-fábula encenada no entorno do local onde se amplificam as fábulas que povoam os sonhos da maior parte das crianças pelo mundo. E ali, tão perto e tão longe, aquelas crianças não têm o direito de sonhar.  Apesar do ambiente inóspito e, em certa medida, quase abusivo,  Sean Baker não julga aquelas pessoas. Nenhum personagem é estereotipado, e cada um deles tem seus defeitos, suas qualidades e suas motivações, ao ponto de que, sim, conseguimos entendê-los – ainda que não concordemos com suas escolhas – e, a certo ponto da narrativa, torcemos por eles e para que seus vínculos afetivos não sejam rompidos por intervenções supostamente saudáveis.

O olhar cinematográfico de Sean Baker não se resume à construção dos personagens, mas investe, também, na cinematografia.  Com planos abertos e com paleta de cores luminosa, que contrasta a luminosidade alegre da Flórida com a vida sombria dos personagens, com ênfase no lilás, o cineasta nos dá a noção exata da pequenez e do isolamento daquelas pessoas naquele mundo “mágico”, povoado de turistas ricos, mas sem oportunidades para as pessoas pobres que ali vivem. Símbolo dessa contradição é a cena na qual Moone e Jancey avistam um arco-íris sobre o hotel, um sopro de esperança na busca de um tesouro inalcançável.

Se a indicação de William Dafoe foi justa, a pequena Brooklyn Price mostra-se uma força da natureza, em uma interpretação que vai muito além do que se espera de uma atriz infantil.  Projeto Flórida depende totalmente de sua interpretação, e qualquer erro no tom poderia ter colocado a perder todo o efeito da narrativa. Sean Baker, mais uma vez, mostra-se um excelente diretor de atores, trabalhando com elenco quase todo desconhecido.  B

Se existe uma injustiça verdadeira no Oscar 2018, é a não indicação de Projeto Flórida a melhor filme, por ser superior a filmes como The Post, o Destino de Uma Nação e mesmo Dunkirk, mas a vida não é justa, como bem mostra Projeto Flórida. Com profunda sensibilidade, Projeto Flórida leva o espectador a uma jornada de amor, pobreza e perda de perspectiva ultrarrealista, com uma sequência final tão dramática que pode fazer desabar até os corações mais insensíveis (como o do nosso colega Lucas Albuquerque). Março começa com um provável candidato a melhor filme do mês.

 

 

 

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The Florida Project

20171 h 55 min
Overview

Orlando, Florida. A capital mundial das férias. Um paraíso soalheiro ao qual acorrem anualmente milhões de turistas de todo o mundo, que ali gastam ansiosamente as suas poupanças para férias. Um Reino Mágico que preside sobre incontáveis parques temáticos, jantares com espectáculos e estâncias de férias. Mas a escassos passos destes 112km2 área de magia, a história que se conta é bem diferente...

Metadata
Director Sean Baker
Writer Chris Bergoch, Sean Baker
Author
Runtime 1 h 55 min
Release Date 7 outubro 2017

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