Ponto Cego (Blindspotting, 2018) – Vale Oscar? – Crítica
Ponto Cego

Ponto Cego é extremamente cirúrgico em uma das feridas americanas: o racismo contemporâneo. Principalmente o que envolve a questão policial e os negros. Antes de continuar, vale o comentário: muitas vezes eu critico filmes que tem temas importantes, mas que se esquecem de valores cinematográficos na hora da realização. Este aqui é a prova de que é possível fazer uma obra grandiosa e ainda dar um “soco no estômago” do público. Eu sai da sessão completamente abalado pelo tema e cinema que vi. Se Oscar fosse só indicativo de qualidade, eu provavelmente nomearia Ponto Cego para a categoria principal.

O filme conta a história de Collin (Daveed Diggs, que fez Extraordinário), um homem negro que está terminando de cumprir a condicional. Faltam três dias e ele estará livre. Como você deve imaginar, não será tão fácil (sim, ele poderia ficar em casa, mas aí não teríamos filme). Por mais que ele não queira se meter em encrencas, as coisas acabam o circulando, seja por conta do temperamento explosivo do grande amigo Miles (Rafael Casal, primeiro trabalho em longas e que coescreve o filme), um homem branco, seja sendo testemunha de um crime –  contra um negro. E sim, a marca étnica é bem importante aqui.

A dupla Diggs e Casal consegue passar uma emoção a partir de uma fisicalidade incomum. Eles transitam entre um vigor nas brigas, um descompromisso quase adolescente no carro de um amigo e um choro, contido ou não, quando necessário. Todas emoções sinceras.

Ponto Cego

O primeiro ato – e até pedaços dos demais – tem uma pegada de humor que é quase como um alívio cômico prévio ao peso que virá a seguir. Então quando vemos os amigos de Collin com armas, enquanto ele tenta se esquivar da situação ou mesmo o poder da lábia de Miles, por exemplo, em uma cena divertidíssima com a Tisha Campbell-Martin (a Jay de Eu, A Patroa e as Crianças) em um salão, sabemos que, neste caso, depois da bonança virá a tempestade.

E os momentos dramáticos não tardam. Alguns beiram o terror psicológico, um terror urbano. Todos nós sabemos o que é parar em um sinal (semáforo, a depender da tua região) vermelho de madrugada, aqui estes minutos são potencializados. Outra construção tensa é quando ele acaba ficando com uma arma na cintura e a gente se assusta com qualquer barulho de carro, pois se a polícia pará-lo pode dar ruim – lembrando que ele está a dias de se livrar da cadeia e qualquer desvio jogará tudo por água abaixo.

Além desses, temos cenas envolvendo personagens secundários que fazem o público prender a respiração. Momentos que dói o coração (um deles com o filho do Miles, em cena que está no trailer), ou então a que Val (Janina Gavankar), ex-mulher de Collin, conversa ao telefone e ouve uma pergunta avassaladora sobre como ela o enxerga.

Ponto Cego

Obviamente que o racismo é um tema central aqui. Mas também temos diálogos complexos sobre identidade e pertencimento. Desde coisas aparentemente simples, um corte de cabelo, até a forma como Collin se refere ao Miles. O como eles encaram a questão do ser negro tem implicações para os dois lados.

Até agora não falei o motivo do nosso protagonista ter sido preso. E o filme guarda esta informação e solta em um momento preciso. Trazendo um flashback que lembra o personagem do Michael Peña em Homem Formiga. Uma aula de não exposição e trazer para o público uma informação sobre o passado.

E unindo esses dois pontos, o tema (racismo) e a forma de passar, Ponto Cego explora de diversas maneiras essa questão. Algumas pouco sutis, outras sem alarde. Vide um quadro que o olhar de um rosto negro é tampado. Ou então a frase irônica em um poster de convocação na rua. Nesse sentido, dá até para lembrar do clip que estourou este ano This is America, do Gambino.

Há, ainda, cenas emblemáticas, como a do sonho de Collin, onde balas e algemas rendem mais um instante de terror. Uma corrida matinal, passando por um cemitério, também o faz alucinar e o resultado carrega um simbolismo e tanto. Igualmente simbólico é um momento de estudo onde uma figura reverbera e explica o título.

O arco da dupla principal tem algo fundamental para um bom roteiro: transformação dos personagens. Não à toa eles trabalham em um caminhão de mudança e momentos cabais da trama se passam nele. Fato é que eles não terminam aqueles dias do mesmo modo que começaram, esse aprendizado e vulcão de emoções passa para o público também.

Ponto Cego

Embalando tudo isso, temos uma circuito musical que preenche no tom certo. Quando precisa algo mais alegre uma música dançante dá as caras. No sonho de Collin uma espécie de ópera torna o sentimento mais forte. Além dos momentos diegéticos, que a música age naquele universo. Em um deles, o Hip Hop cantado por Collin carrega uma das frases mais duras que eu já ouvi sobre a voz do negro.

As cores têm variações (que vocês podem perceber pelas fotos neste texto). A mais notável, a vermelha denotando o perigo é utilizada tanto nos sonhos, quanto no sinal. No primeiro o sangue tem todo um peso histórico, na segunda é literal. Vale o destaque também para alguns enquadramentos, Miles, por exemplo, fica no canto da tela em um momento de fragilidade, após fazer besteira e ser confrontado, tal movimento (de centro ou canto) é repetido algumas vezes.

A montagem tira qualquer excesso não intencional e nos entrega um raro filme sem barriga. Os 95 minutos são muito bem utilizados. Há um contexto local, onde são mostradas as casas e a sequência tem uma agilidade rítmica. Mas o recurso que mais salta aos olhos é a tela separada em duas, que vem com um significado amplo de divisão, como na cena inicial – refletindo que as coisas não estão tão harmônicas – e no momento de um telefonema, o desfecho ali é maravilhoso.

Por falar em desfecho, há pelo menos três cenas que o filme poderia acabar. E o que em outros trabalhos seria sinal de não saber a hora de encerrar ou de desperdiçar, aqui até dá vontade de que cortasse na cena x ou y, mas o escolhido foi importante para fechar alguns arcos – o que engrandece os momentos anteriores. Para mim, o ápice dramático foi no porão, os que já viram Ponto Cego sabem o motivo.

Uma das frases de Ponto Cego é sobre ele precisar se provar o tempo inteiro, dita logo no começo. Ela reflete toda a condição do personagem, dos negros como um todo e do filme em si, sendo portanto uma bela metonímia.

Se esta obra teve um impacto absurdo em mim, eu sequer consigo atingir o quanto ela é significativa para os moradores (negros ou não) de Oakland, onde se passa o filme. Ponto Cego é importante, necessário e reflete uma realidade, mas acima de tudo cinema dos grandes. Inacreditável este ser o primeiro longa do diretor Carlos López Estrada quero pra ontem o próximo trabalho dele.

Ponto Cego chega aos cinemas brasileiros esta semana, mas teve a estreia mundial no Festival de Sundance no começo do ano. O nosso correspondente Maurício Costa já tinha conferido e comentado na cobertura do Festival, segue os comentários do Maurício:

Nota do Razão de Aspecto

 

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