Polícia Federal – A Lei é Para Todos (2017) – Crítica

Polícia Federal – A Lei é Para Todos traz uma carga política clara. Contudo, como de praxe em meus textos, vou focar na parte cinematográfica. Não sou analista político e neste filme a tarefa seria vã: quem é de um lado vai, pelo viés de confirmação, continuar nele (seja lá qual for…). Meu objetivo não é analisar a mensagem em si, mas como a filme usa, de forma errada, os elementos de roteiro, montagem, trilha, etc para passar aquela ideia.

O que vemos é um ostensivo recorte da operação Lava-Jato, feita pela Polícia Federal, que culminou na investigação e condenação de alguns políticos e empresários. Fato que movimentou os noticiários, cenário político e redes sociais. Se eu conseguir neste texto mostrar que os problemas do filme não são pelo fato dele assumir um lado (acho isso positivo até), mas sim por não saber como fazer isso, então sairei satisfeito.

O longa abre com dois blocos de frases falando sobre o escopo do filme e sobre a origem da corrupção. Essa marca é desnecessária, pois soa como uma auto justificativa. O começo do filme é montado em de forma não linear e possui uma narração em off (que se segue durante toda a obra), em uma clara tentativa de emular o Tropa de Elite. Aqui, a estrutura não funciona por dois motivos:

1- O momento da volta à temporalidade dos fatos é fraco dramaticamente (a prisão do doleiro Alberto Youssef). A importância histórica do fato é indiscutível, mas a cena vira uma comédia involuntária (vindo do diretor de Até que a Sorte nos Separe não é de se estranhar). A perseguição no hotel, o jeito que a localização de Youssef foi descoberta e a ordem de prisão soam sem nenhuma seriedade – com certeza não era essa a intenção. Uma tensão mínima é tentada, mas quem viu dois filmes do gênero sabe o desfecho…. Então toda a pompa que se cria é vazia.

2- O que é narrado é apenas um misto entre o que está redundante em tela ou que deveria estar lá, mas o roteiro não dá conta – problema esse perpassa todo o filme. Explicações de fatos, contextos políticos e função daquelas pessoas, deveriam estar sendo mostradas em tela e não recitadas, didaticamente, de forma mastigada para o espectador.

Ainda nas questões do começo, uma animação conta parte da história da corrupção no Brasil. Na linha do: sempre tivemos corrupção, o sistema privilegia tal coisa. Pensamento que de forma alguma está errado. Mas aqui falha ao ser tornar uma ideia martelada o tempo inteiro. O público não é burro: mesmo quem tinha pensado que a corrupção é algo localizado, na quinta vez que isso é citado acho que já bastava pra tornar a “novidade” assimilável. A repetição é vista na animação, em quem lamenta no trabalho por conta do sistema e no subtexto de toda a trama…

A apresentação dos personagens que investigarão os casos, em suma a montagem da equipe de super-heróis (pois é assim que o filme pinta), é vergonhosa. Um misto de bastião da justiça, bom pai e filho atencioso. De modo algum estou questionando tais valores, o ponto é que as cenas são forçadas. Vide o personagem do Juiz Sérgio Moro (Marcelo Serrado) se queimando na cozinha ou Beatriz (Flávia Alessandra) aos berros com um funcionário incompetente. Ou ainda o velho arco de alguém da família doente.

Outro elemento que reforça a pouca naturalidade é a trilha sonora. Completamente fora do tom quase que o filme inteiro. Alta, querendo aparecer mais que a cena e dando um ritmo exagerado, novamente reiterando o ar heroico. A montagem acelerada nas investigações resvala de modo quase ofensivo no que vemos em Spotlight – se Polícia Federal – A Lei é Para Todos tivesse aquela linha, seria um filme digno de muitos aplausos, história para tal tinha….

Todos os personagens que o filme coloca como vilões são exagerados: políticos, mídia e população, não há espaço para reflexões. Já vi repórteres sendo mal retratados no cinema, porém aqui merece ficar de exemplo do que não fazer. Caretas, perguntas idiotas (mais do que de costume) e o jeito como a câmera busca dar um ar caricato – novamente: mais do que normalmente – não é possível a ausência de um direcionamento básico ou que o objetivo fosse aquele mesmo…

Diálogos simples parecem falados pelos atores de modo mecânico. O texto é bem simplório e também falso. Beatriz em um dado momento diz algo como: “Vou trabalhar em São Paulo, centro econômico do país”. Em uma conversa cotidiana tal aposto não seria dito. O interlocutor sabia disso. O filme quer com aquela explicação nortear o público. Trechos assim se repetem em maior ou menor grau. As cenas do dia a dia, como deles no bar, poderiam ser um refresco para o ritmo, mas alguém esqueceu de revisar o roteiro ou de coordenar o posicionamento dos atores.

Por falar em ritmo, há um descompasso absurdo. Cenas muito atropeladas e outras demasiadamente longas. Nunca somos convidados a investigar juntos. A coisa aparece ali, um quadro cheio de setas ou uma ideia mirabolante parecem satisfazer os responsáveis pelo filme. O momento da condução coercitiva onde os policiais coordenam a sabatina ao ex-presidente Lula é cansativa e alongada (isso não é uma metáfora com a situação).

Não há como deixar de citar a composição de Ary Fontoura. Ele dá ares broncos ao ex-presidente. Em um texto recheado de palavrões, há uma busca em se distanciar do real. Não há tantas semelhanças físicas, tal opção poderá dividir opiniões. O que causará risos generalizados, no momento errado (sim de novo), é a voz que Ary imprime. O elenco de peso fica bem engessado com o texto, porém não dá para retirar toda a culpa deles. Quando precisam correr, passar uma urgência na voz ou se movimentar com a arma na mão deixam bastante a desejar.

O resumo de Polícia Federal – A Lei é Para Todos pode ser dado como uma paródia dele mesmo. Guardiões, o filme Russo de Super-heróis, tenta copiar fórmulas conhecidas e falha, gerando risos de incredulidade. O mesmo acontece aqui. Não é complexo de vira-lata. Ano passado tivemos o lançamento do nacional Em Nome da Lei. A temática é bem parecida: um Juiz chega em uma cidade com o objetivo de desarticular o crime organizado na região. Mas a corrupção é mais complexa que ele pode imaginar. O filme tem muitas falhas, porém entrega um material bem mais completo.

Polícia Federal – A Lei é Para Todos como retrato histórico falha ao não propor o ar isento que o subtítulo insinua. Como material político é apenas um reforçador de ideias (duvido que alguém mude de lado após ver o filme). Como cinema é uma nulidade. O pouco valor de produção que poderíamos elogiar se perde diante de tantas falhas.

PS: há cenas reais durante os créditos finais e uma cenas pós-créditos que novamente traz o ar de “Vingadores”.

Not rated yet!

Polícia Federal - A Lei é Para Todos

Overview

recorte da operação Lava-Jato, feita pela Polícia Federal, que culminou na investigação e condenação de alguns políticos e empresários. Fato que movimentou os noticiários, cenário político e redes sociais.

Metadata
Director Marcelo Antunez
Writer
Author
Runtime
Country  Brazil
Release Date 7 setembro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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